Ouvir o mundo para projetar o futuro
Mais que um evento, o festival se consolida como bússola criativa para quem quer antecipar o amanhã
Como diretor de criação, roteirista, escritor, designer de experiência e apaixonado por música e pela sétima arte, sempre olhei para um lugar no mundo, a casa onde os maiores nomes do setor criativo se encontram para dividir experiências, demonstrar seu trabalho, fazer relacionamento e debater o futuro: Austin.
É ali que acontece todos os anos o SXSW, evento onde criatividade e inovação convergem com várias áreas de arte. O SXSW é referência em tamanho, relevância e, principalmente, em impacto cultural. E a edição de 2026 não será apenas mais uma edição, será o momento em que o festival marcará um ponto de inflexão ainda mais profundo.
Criado em 1987, em Austin, o South by Southwest começou como um festival de música e se transformou, ao longo de quase quatro décadas, em um dos maiores encontros globais de criatividade, tecnologia, cinema, música e cultura. Em 2025, mais de 309 mil participantes estiveram oficialmente presentes, enquanto a circulação total na cidade ultrapassou meio milhão de pessoas ao longo dos dias de programação.
Este ano, o Brasil, mais uma vez, chega como protagonista. Nos últimos anos, nós nos consolidamos como a maior delegação estrangeira do SXSW, e 2026 deve manter essa posição. O movimento brasileiro deixou de ser apenas de observação para se tornar de participação ativa: empresas, criadores, artistas, inovadores e líderes criativos ocupam um espaço cada vez mais relevante nas conversas que moldam o futuro.
A edição deste ano do SXSW traz mudanças estruturais importantes. O tradicional Austin Convention Center, coração histórico do SXSW, está fechado para obras. Isso faz com que o festival abandone seu antigo epicentro físico e se espalhe ainda mais pela cidade. Em vez de um único centro, teremos uma rede de hubs: hotéis, galerias, clubes, teatros, rooftops e espaços independentes transformados em pontos de encontro.
Austin deixa de ser apenas o cenário e passa a ser o próprio palco. E para extrair o melhor ROI do evento é necessário se programar. Não só para que cada um acompanhe o que será discutido de mais relevante para o seu mercado, mas principalmente para ter tempo hábil para desbravar também outras áreas.
Essa descentralização muda a lógica do evento. O SXSW se torna menos um congresso e mais uma experiência urbana distribuída. Menos sobre agenda e mais sobre fluxo.
É nesse contexto que estarei lá acompanhando tudo de perto, quero escutar o que o mundo está dizendo sobre inovação, criatividade, experiências e, principalmente, o que de concreto estamos extraindo do tema que mais uma vez deve dominar o evento: a Inteligência Artificial.
Porque, se há um grande tema que atravessa o SXSW 2026, é a IA.
Ela está em praticamente todos os painéis — não como promessa futurista, mas como realidade presente que exige posicionamento humano. A programação mostra claramente que entramos em uma nova fase: não se trata mais de descobrir o que a IA pode fazer, mas de entender como viver com ela.
Os keynotes trarão temas importantes dentro da proposta do encontro.
Jennifer Wallace aborda o conceito de “mattering”, que é a necessidade humana de sentir que importa e de gerar impacto, como antídoto para solidão e burnout em um mundo hiper conectado. Tom Sachs traz sua visão sobre o processo criativo e como transformar obsessão e curiosidade em execução, conectando arte, design e narrativa. Rana el Kaliouby discute porque o futuro da IA precisa ser centrado no humano, defendendo que inovação sem intenção pode nos afastar daquilo que mais importa. E Aza Raskin apresenta uma ideia quase poética: o uso da IA para decifrar linguagens de outras espécies, expandindo a escuta humana para além de si mesma.
Ao mesmo tempo, sessões como Thrive or Survive colocam uma pergunta incômoda: ao depender da IA, estamos enfraquecendo nossa própria imaginação? Outras conversas exploram como apoiar jovens em um mundo saturado por algoritmos, ou como manter o craft humano relevante em um cenário fascinado pela velocidade da automação.
O relatório anual de Amy Webb, sempre um dos momentos mais aguardados do festival, promete mapear as tecnologias que realmente importam — com o tema Creative Destruction como pano de fundo.
No campo da narrativa, painéis como The Future of Storytelling in the Age of AI e Reality Hacked investigam como storytelling, realidade aumentada e espaços físicos estão se fundindo. Já discussões como The Death of Passive Entertainment apontam para um mundo onde cultura não é mais consumida — é vivida.
Esse movimento também aparece em sessões como XR Immersive Filmmaking & The Future of Entertainment, que exploram como cinema, jogos e inteligência artificial estão convergindo para criar experiências em que o público deixa de assistir e passa a participar.
Esse deslocamento também aparece nas sessões voltadas à narrativa, ao cérebro criativo e ao design de experiências. Painéis sobre storytelling na era da IA, o papel da memória digital, ou sobre como marcas precisam parar de “jogar seguro” revelam um movimento claro: estamos deixando a era da eficiência para entrar na era do significado.
É nesse ponto que há um momento particularmente simbólico na minha agenda.
Estarei presente na sessão de Joe Pine, teórico da Economia da Experiência, a base do meu mestrado, que apresenta o conceito da Transformation Economy. Trata-se da evolução natural do pensamento que marcou as últimas décadas.
Se a Economia da Experiência buscava encantar, a Economia da Transformação busca mudar pessoas.
É um salto que dialoga diretamente com o momento atual do mundo — e com o próprio espírito do SXSW.
Mas o festival não vive apenas de ideias. Ele também é um radar cultural.
Entre os mais de mil músicos que costumam se apresentar no evento — foram 1.248 artistas apenas em 2025 — pretendo acompanhar novos nomes emergentes no cenário musical como Lola Young e Miss Bashful, enquanto também participo de momentos mais amplos da programação musical, como o Coca-Cola Sips & Sounds, que reúne artistas como Christina Aguilera, Calvin Harris, Foster the People e Major Lazer.
E há também o cinema. Entre os lançamentos mais aguardados está Beast Race, o novo filme de Fernando Meirelles, terá sua première mundial no festival. Ambientado em um Rio de Janeiro distópico, onde uma corrida brutal transforma vidas humanas em apostas, o longa traz um elenco que inclui Rodrigo Santoro, Isis Valverde, Bruno Gagliasso, Seu Jorge e Anitta.
A seleção do filme reforça o protagonismo brasileiro em uma edição onde o país já chega como a maior delegação estrangeira, com expectativa de recorde.
No lado brasileiro, o SP House volta ampliado e se consolida como um território estratégico dentro do festival — um ponto de conexão entre criativos, marcas, empreendedores e instituições. Além do SP House, logo no primeiro dia, acontece o Brazil Creative Economy Meet Up, reunindo profissionais de comunicação, audiovisual, design, marcas e startups em um espaço de troca e colaboração.
Com o festival distribuído pela cidade, o networking deixa de ser institucional e passa a ser orgânico — acontecendo em encontros inesperados, premières, showcases e ativações.
Em resumo, o SXSW 2026 parece menos sobre tecnologia e mais sobre convivência com ela. Menos sobre ferramentas e mais sobre significado. Menos sobre o futuro distante e mais sobre o presente em transformação. É sobre como preservar criatividade, empatia e narrativa em um mundo que automatiza processos cada vez mais rápido.
O SXSW deste ano parece menos interessado em responder e mais em provocar.Estarei lá para ouvir e dividir minhas experiências e o conteúdo que vou receber.Porque, no fim, é dessa escuta e da colaboração que nascem as experiências que realmente transformam.