Te leva pra onde você não sabia que precisava ir
SXSW 2026: Inovação é tecnologia muito além do marketing. A neurociência impactou mais do que qualquer palco
Uma das coisas mais legais do SXSW é que ele te possibilita sair da sua bolha. Você vem com uma agenda, trilhas pré-selecionadas, um plano que já foi difícil demais de fazer. E aí, no corredor entre uma palestra e outra, alguém te fala de uma sessão que não tem nada a ver com o seu mundo. E você vai. E muda tudo.
O festival te dá a oportunidade de realmente viver de tudo um pouco. Saúde, ciência, educação, política, arte. Inovação aqui não é só sobre a próxima plataforma de IA. É sobre o próximo passo da humanidade. E essa diversidade é o que torna o SXSW insubstituível.
Bom, foi assim que, no penúltimo dia, acabei numa palestra do Dr. Alysson Muotri. Esse cara (ou entidade) é um neurocientista brasileiro, pai de um filho com autismo severo, responsável por criar “organoides cerebrais”: mini-cérebros feitos a partir de células-tronco que imitam o funcionamento do cérebro humano.
A partir disso, ele já testou terapias para autismo e Alzheimer. Enviou esses organoides para o espaço, porque lá o cérebro envelhece dez anos a cada mês, o que permite estudar doenças como Alzheimer de um jeito que seria impossível na Terra. Editou o genoma de um deles para recriar o DNA de um Neandertal e descobriu que o que nos diferencia deles pode estar ligado à nossa capacidade de linguagem.
Alysson pegou um dos assuntos mais complexos que existem e nos fez mergulhar nele como se fosse a coisa mais natural do mundo. Sem simplificar demais, sem perder a profundidade. Com uma didática e um storytelling que só quem tem muita paixão pelo que faz consegue ter.
E perto do final, depois de uma hora inteira com um inglês impecável, ele contou que está conduzindo um ensaio clínico em Fortaleza. Falou “Fortaleza”, em português. E foi ali que meu olho encheu de lágrima. Bateu um sentimento de orgulho, que é difícil de explicar.
A palestra terminou com a sala inteira aplaudindo de pé, com lágrimas nos olhos. Um brasileiro, liderando um time de brasileiros, fazendo ciência de ponta no mais alto nível mundial. Num palco como o do SXSW, mostrando que o Brasil produz gênios.
Saio daqui fã. Entusiasta sem fim do trabalho do Alysson Muotri e do que ele representa. Uma das maiores inovações que vi nesse festival não veio de uma empresa de tecnologia, de uma plataforma ou de um futurista. Veio de um cientista que começou sua pesquisa para ajudar o próprio filho. Veio do lugar mais humano possível.
Chegamos ao fim dessa jornada que foi o SXSW. Cheguei aqui ansiosa, sem saber direito o que esperar. Saio com a cabeça e o coração cheios e com uma certeza: o mais valioso dessa tour toda não foi o que eu planejei, foi o que eu deixei acontecer.
Então fica a dica para os próximos SXSWers: não fiquem só na sua bolha. Saiam da trilha de sempre. Assistam a palestras que não têm nada a ver com o trabalho de vocês. Porque na nossa vida de publicitários, dificilmente vamos cruzar com um Alysson Muotri. E foi justamente esse cruzamento improvável que se tornou um dos momentos mais transformadores dessa viagem.