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Vai ser sobre guerra, mas não é a do Irã

Disputa pela IA envolve narrativas, poder e impactos econômicos e sociais em escala global

Luis Constantino

CEO & CCO da Oliver Latin America 10 de março de 2026 - 17h39

Todos os anos, como já disse por aqui, o SXSW funciona como um termômetro cultural e econômico da tecnologia. O festival sempre trás para seu conteúdo a grande tensão no ar que paira no momento, já foram redes sociais, criptos, psicodélicos e IA nos últimos dois anos. Em 2026 vai ser um repeteco, a tensão continua sendo nada mais, nada menos que IA, mas esse ano o caldo está muito mais grosso para discutir não só possibilidades, mas principalmente, implicações.

A guerra a que me refiro é sobre essa narrativa e suas implicações, principalmente econômicas e sociais. Abaixo trago uma receita de onde espero que o festival aborde esse tema, começando pela possível bolha das ações de IA:

Nos últimos dois anos, as ações relacionadas à inteligência artificial nos Estados Unidos dispararam. Nvidia, Microsoft, Aphabet e Meta são alguns exemplos, mas principalmente temos casos de private equity como OpenAI, que também passaram a liderar investimentos e narrativas de crescimento baseadas em AI. Essas e outras empresas AI-Ready têm visto múltiplos de mercado que lembram outros momentos de euforia tecnológica, como a bolha das pontocom no início dos anos 2000 até o boom das criptomoedas.

O argumento otimista é conhecido: IA aumentará drasticamente a produtividade, criará novos mercados e permitirá margens maiores para as empresas. Mas existe um problema: a receita real ainda não acompanha a narrativa, como é o caso da OpenAI.

Grande parte do valor das empresas ligadas à IA hoje está baseado em expectativa futura, não necessariamente em fluxo de caixa presente. Isso cria um ambiente clássico de bolha potencial, onde investidores apostam em ganhos exponenciais antes de a tecnologia provar seu impacto econômico.

Agora, adiciono os consistentes cortes de pessoas por conta da IA: Enquanto a receita não acompanha a expectativa, grandes empresas de tecnologia vêm passando por um processo consistente de substituição de capital humano por automação.

Quase todos os gigantes do setor vêm anunciando rodadas sucessivas de demissões, enquanto aumentam investimentos em IA em todas as áreas para reduzir custos operacionais, aumentar escala sem aumento proporcional de headcount e melhorar margens.

Mas essa lógica cria uma tensão inevitável: produtividade crescente com menos pessoas empregadas. E é aqui que o debate econômico começa a ficar mais complexo.

Adiciono agora a complexidade que IA gera em empresas sólidas e nativas digitais: a disrupção começa a afetar também modelos de negócios digitais “nativos” considerados extremamente sólidos, resilientes e até então, inovadores.

Um exemplo citado por analistas recentemente é o do Mercado Livre. A empresa construiu um dos ecossistemas digitais mais robustos da América Latina, combinando marketplace, logística, fintech e publicidade. Ainda assim, o mercado reagiu nas últimas semanas com volatilidade diante da possibilidade de que IA transforme profundamente a forma como consumidores descobrem produtos e tomam decisões de compra via agentes de IA.

Se esses agentes passarem a intermediar compras, comparando preços, negociando e selecionando fornecedores, as plataformas tradicionais de marketplace podem perder parte do controle da jornada do consumidor e isso impacta profundamente o negócio e seu valuation. Isso não significa necessariamente o declínio dessas empresas, mas mostra que nenhum modelo digital está imune à disrupção da IA.

E, por fim, já que estamos falando de SXSW, não podemos deixar de fora a opinião de Scott Galloway. O professor tem resumido esse momento com uma provocação direta. Segundo ele, existem basicamente dois cenários possíveis para a inteligência artificial:

Cenário 1: A IA gera lucro real para as empresas

Nesse caso, a narrativa atual se confirma. A produtividade explode, os investidores são recompensados e a tecnologia justifica as avaliações bilionárias. Mas existe uma consequência, diz o professor: “Se a IA realmente entregar o que promete, o impacto não será nas empresas, será nas pessoas”. Ou seja, desemprego estrutural em escala inédita.

Cenário 2: A IA não gera lucro suficiente

Se a produtividade prometida não se materializar economicamente, o outro risco surge: as empresas terão investido bilhões em infraestrutura; o mercado terá inflado avaliações; e produtividade real não acompanhará a narrativa. Nesse caso, o resultado pode ser o estouro da bolha da IA. Investidores perderiam dinheiro, mas o impacto social seria menor, porém ainda relevante, como qualquer outra crise econômica.

Esse dilema explica por que a discussão sobre IA no SXSW 2026 provavelmente será muito mais intensa que nos outros anos.

A verdadeira guerra é tecnológica. 

Escolha seu lado.