Astrid Fontenelle: “Agora, sou CEO da minha história”
Com mais de 40 anos de carreira, jornalista inaugura novo momento com plataforma para mulheres 45+

Astrid Fontenelle, jornalista, comunicadora e sócia da Àvera (Crédito: Divulgação)
Há uma diferença entre começar de novo e do zero. Aos 65, depois de mais de quatro décadas de uma carreira bem-sucedida na comunicação e no entretenimento, entre TV Gazeta, MTV, Band, GNT e Globo, Astrid Fontenelle inaugura uma nova fase profissional. Desta vez, à frente de um negócio próprio que carrega sua marca pessoal e uma audiência orgânica de mais de 3 milhões de pessoas.
A jornalista acaba de lançar a Àvera, plataforma de conteúdo e comunidade voltada para mulheres 45+. O projeto, que reúne conteúdos e experiências, nasce com a proposta de falar sobre envelhecimento, comportamento, cultura e bem-estar, algo que, para Astrid, se tornou um propósito profissional e pessoal.
“Estou com uma sensação de começar de novo, mas num patamar em que me sinto muito segura”, diz.
Do luto ao empreendedorismo
A ideia da plataforma já existia há algum tempo, mas ganhou força quando Astrid deixou o GNT, em dezembro de 2025. Magoada com a forma como saiu, ela conta que se viu diante de uma “aposentadoria precoce” que não havia planejado.
Dois anos antes, ela já havia vivido um luto pelo encerramento da participação no Saia Justa, programa que apresentou por 11 anos na emissora, onde se consolidou como referência de mulher 50+ na televisão brasileira, sobretudo ao assumir os cabelos brancos durante a pandemia.
Na sequência, ainda no GNT, criou o Admiráveis Conselheiras, série de entrevistas com mulheres experientes e bem-sucedidas que teve duas temporadas. Chegadas e Partidas também já havia chegado ao fim, embora episódios ainda fossem exibidos no Fantástico devido ao cronograma de gravação e veiculação.
Foi nesse fim de ciclo que a plataforma deixou de ser apenas uma ideia. Astrid chegou a pensar em produzir um monólogo sobre a própria vida para o teatro, algo que não descarta para o futuro, mas decidiu levar o projeto à MAP Brasil, agência de gestão de carreiras que a acompanha desde 2017. A intenção era ter uma parceira financeira e comercial.
“Sei fazer tudo, menos vender”, resume. A MAM Brands, do Grupo MAP, então, tornou-se tornou sócia e deu forma ao projeto.
Curadora da maturidade
Antes de chegar ao nome Àvera, a equipe da MAM Brands realizou pesquisas com mulheres entre 40 e 60 anos para entender como Astrid era percebida e o que esperavam dela. A resposta ajudou a definir o papel central da jornalista como curadora da plataforma, uma das principais funções que ela pretende exercer na Àvera.
“As pessoas esperam que eu seja uma grande curadora de conteúdo. Esses muitos anos de Saia Justa me deram essa credibilidade.”
Ao longo da carreira, Astrid construiu uma relação particular com a informação. Seja no Saia Justa, em programas de televisão, na MTV ou nas redes sociais, ela passou a traduzir notícias, carreiras, pesquisas e assuntos complexos para uma linguagem mais próxima. A proposta da Àvera nasce também dessa experiência.
Mais velhas como audiência e inspiração
Segundo Astrid, a plataforma tem uma definição clara de público, mas a idade não será uma fronteira rígida. A jornalista fala em mulheres 45+, faixa que considera importante para ajudar o mercado publicitário a compreender sua audiência. Ao mesmo tempo, ela conta que recebe mensagens de mulheres mais novas interessadas em fazer parte do projeto.
“A garota 35+ é muito bem-vinda. Toda mulher tem que ter uma mais velha como referência.”
A própria Astrid diz ter encontrado, ao longo da vida, mulheres mais maduras para mirar sua trajetória. Uma delas foi Rita Lee, com quem conversava sobre assuntos que iam de estética e sexo a comportamento. Por isso, para ela, a plataforma também pode ser um lugar para as mais novas buscarem inspirações e ampliarem as possibilidades para o futuro.
Essa perspectiva está presente na maneira como Astrid quer abordar essa fase da vida. Ela não pretende criar uma personagem para representar a maturidade, mas mostrar o que chama de “envelhecimento verdadeiro e possível”.
Para ela, as condições de envelhecer no Brasil são afetadas pelas desigualdades do país, mas é viável construir uma narrativa sobre a maturidade menos associada à perda e mais ligada à descoberta.
“Vivemos num país de diferenças sociais brutais que impactam o envelhecimento, mas é possível. Quero falar sobre o que a gente deseja, consome, descobre e sobre o que a gente questiona e ainda não sabe. Tenho muita coisa para aprender também”, diz.
Para além da marca pessoal
Apesar de carregar o nome e a trajetória da apresentadora, a plataforma reúne outras vozes, especialistas e criadoras como Priscila Barros, Cláudia Arruga, Sara da Silva, Consuelo Blocker, Natália Dornellas e Adriana Silva. A primeira pauta, já no ar, aborda as musas dos anos 1990, que hoje estão na casa dos 60 anos, como Bruna Lombardi, convidada do primeiro episódio do podcast.
A lógica também muda de acordo com o canal. A Àvera está no Instagram, YouTube, Facebook, Substack, TikTok e Spotify, com conteúdos pensados para cada plataforma. Há ainda um clube, grupos de relacionamento e experiências presenciais. Uma delas está prevista para novembro, na casa da comunicadora em Morro de São Paulo, na Bahia.
Visão de negócio
Astrid diz que não quer apenas produzir conteúdo, mas construir um negócio a partir da relação que estabeleceu com sua audiência ao longo de décadas. “Agora sou CEO da minha história”, diz.
A Àvera nasce com diferentes possibilidades comerciais. A ideia não é trabalhar necessariamente com o modelo tradicional de cotas de patrocínio, mas com parcerias pontuais ou longevas de conteúdo, mídia, experiências, workshops, palestras e outros formatos de conexão entre marcas e comunidade.
“Posso ter um conteúdo elaborado para marcas, mas também posso ser mídia para elas. Posso ser tudo”, resume. No momento da entrevista, a plataforma ainda não tinha patrocinador.
Liberdade, responsabilidade e legado
Na televisão, mesmo com a liberdade conquistada para conduzir pautas, Astrid tinha uma estrutura pronta à sua volta. Agora, com o novo projeto, ela diz ter o papel de gerir tudo, do conteúdo à maneira como a plataforma se apresenta.
“Por mais que eu tivesse liberdade para apresentar pautas, não tinha a responsabilidade de apresentá-las. Hoje, tenho.”
É uma espécie de ampliação do espaço que ocupou durante a carreira. Ou, como ela mesma define, sair de uma “caixinha” e ganhar um espaço tridimensional a partir de um repertório acumulado que ela, como mãe, também vê como legado para o filho Gabriel.
“Além do talento para comunicação que passei para ele, vou deixar um negócio. Pelo menos é essa a minha intenção”, diz.