PERFIL

Déia Freitas, a mulher que aprendeu a ouvir o Brasil

Criadora do Não Inviabilize transformou histórias anônimas em uma das maiores comunidades da podosfera no país

i 30 de julho de 2026 - 12h43

Déia Freitas, uma das maiores podcasters do Brasil (Crédito: Arthur Nobre)

Déia Freitas, podcaster criadora do “Não Inviabilize” (Crédito: Arthur Nobre)

O Brasil conhece a voz de Déia Freitas nas ruas antes mesmo de reconhecer seu rosto. Enquanto boa parte dos criadores de conteúdo construiu relevância a partir da exposição da própria imagem, ela fez o caminho inverso. Ao contar histórias de desconhecidos e, muitas vezes, de pessoas que compartilhavam com ela seus momentos mais vulneráveis, a podcaster se tornou grande referência em narrativa do país. 

Este não é um juízo de valor. Neste ano, o podcast Não Inviabilize ganhou o prêmio APCA de melhor podcast, indicado pela Associação Paulista de Críticos de Arte. Além disso, é a única produção do Brasil que integra a lista dos 20 podcasts mais ouvidos do mundo no Spotify. São mais de 500 milhões de reproduções e mais de mil histórias contadas nas plataformas gratuitas. O canal do Telegram do programa, ativo, tem mais de 100 mil pessoas que debatem os episódios lançados.

É uma posição curiosa para alguém que admite, sem rodeios, ser profundamente tímida. “Prefiro fazer tudo da minha casa. Sempre que tem prêmio ou alguma exposição maior, fico muito envergonhada porque sei que vou ficar mais em evidência, sabe? O reconhecimento me deixa feliz. O palco é que me assusta.”

A frase parece contradizer a própria trajetória. Afinal, é dela uma das comunidades mais engajadas do universo dos podcasts brasileiros. Mas, ao longo de uma conversa de mais de uma hora em um café em São Paulo, ficou claro que a relação de Déia não é com os holofotes, mas com com as pessoas.

Em busca das melhores palavras

Como toda trajetória, talvez a veia criativa de Déia tenha começado na infância. Filha única, perdeu o pai aos 12 e, quatro anos depois, a mãe. Foi criada por tias e tios em uma família onde as mulheres ocupavam naturalmente os espaços de decisão.

“Cresci vendo as mulheres organizando tudo. As decisões da família, as finanças da casa. Elas tinham a última palavra. Acho que isso moldou muito a forma como vejo o mundo.”

Muito antes de existir o Não Inviabilize, nascido na pandemia, havia uma adolescente de 15 anos que escrevia classificados em uma pequena agência de publicidade de Santo André, onde ainda mora. Vendia carros, caminhões, escrevia anúncios de namoro e obituários.

É desse período uma das primeiras experiências que, hoje, Déia reconhece como formadoras da sua maneira de contar histórias. “As pessoas chegavam para fazer um anúncio de falecimento e muitas vezes não sabiam o que escrever. Tinha um limite de caracteres e eu precisava ajudá-las a encontrar as palavras. E tinha aquela coisa de não poder errar, porque era tudo datilografado.”

Anos depois, trocou a publicidade pela Psicologia. Não chegou a construir uma carreira clínica, mas diz que a faculdade lhe deu ferramentas que usa diariamente. “É um curso que, se você não tem grana, é muito difícil largar tudo para atender, então não tive essa oportunidade.”

Entre a narrativa e a identificação

É difícil não perceber certa simplicidade de Déia na maneira como descreve seu trabalho ou compartilha qualquer caso sobre si mesma. Para ela, contar histórias não diz respeito a organizar fatos, mas a entender por que determinada narrativa produz identificação.

Ela rejeita, por exemplo, a ideia de que exista uma fórmula extraordinária para o sucesso do podcast. Atribui boa parte desse processo ao estudo de roteiro, mas admite que existe um elemento difícil de reproduzir: a relação construída com quem a escuta. “Acho que as pessoas sentem que converso com elas de verdade. Temos uma relação que parece muito pessoal. Às vezes gravo broncas para elas.”

Essa intimidade aparece de diferentes formas. Algumas divertidas, outras deveras delicadas. Déia diz receber relatos de pessoas internadas, vítimas de acidentes ou que acabaram de perder alguém da família. O podcast, aliás, é muito escutado em clínicas de reabilitação, motivo pelo qual não faz parceria com marcas de bebidas.

“Às vezes, a pessoa perdeu o marido no domingo e está me escrevendo ainda ao lado dele. Ou capotou o carro e manda um e-mail do hospital. Ainda não entendo muito bem por que tantas pessoas escolhem contar primeiro para a gente.”

Para ela, muitas dessas mensagens não são enviadas para serem publicadas, mas como uma tentativa de elaborar a própria experiência. Na Psicologia, lembra ela, existe o psicodrama, técnica em que uma situação é encenada para que o paciente consiga enxergá-la de outra perspectiva.

“Percebo que muita gente escreve para ouvir a própria história ser contada, e não tanto para escutar a opinião de outras pessoas. É uma maneira de elaborar aquilo que viveu de alguma forma.”

Padrões de comportamento no Brasil

Essa escuta diária de relatos modificou a percepção de Déia sobre o país. Se antes observava determinados comportamentos à distância, hoje ela diz conseguir identificar padrões difíceis de ignorar. Um deles, por exemplo, aparece nas histórias enviadas por mulheres, o maior público da sua comunidade.

“Recebo relatos de senhoras de 70 anos, de meninas de 20 e até de crianças. O que mais me impressiona é perceber que muitos abusos continuam os mesmos. A gente avançou, mas muito menos do que imagina.”

Essa convivência constante também a tornou crítica em relação ao tempo em que vivemos. Ela acredita que nunca tivemos tanta informação disponível e, paradoxalmente, tanta dificuldade para ouvir.

“As pessoas têm certeza de que ouviram uma coisa que nunca foi dita. Misturam o que escutaram no podcast com alguma outra informação da internet. Acho que hoje ouvir virou uma habilidade difícil. São tantos estímulos que a gente se distrai. É um sintoma do nosso tempo.”

Liderança pouco tradicional

Agora, Déia mantém duas empresas, com 10 funcionários no total, e a previsão é de expansão. Uma produz o Não Inviabilize. A outra, Construpônei, construtora ainda em fase inicial, tem a missão de levantar moradias populares, com um público que começa por sua família e funcionários e se ampliará para pessoas de baixa renda.

Ela diz que nenhuma delas nasceu de um plano ambicioso, mas de uma inquietação. Quando conseguiu juntar dinheiro suficiente para comprar seu primeiro terreno, percebeu que não conseguia compartilhar aquela conquista com a equipe, formada por pessoas que ainda viviam de aluguel. Então, começou a reservar parte da receita do podcast para ajudar seus colaboradores a conquistarem a mesma segurança que ela acabava de experimentar.

“Queria que todo mundo pudesse sentir aquilo.” A preocupação com quem trabalha ao seu lado também aparece na estrutura da empresa. Foi ela quem implementou a jornada de quatro dias por semana, reduziu efetivamente a carga horária, sem compensação nos outros dias, formalizou toda a equipe em regime CLT, com plano de saúde e férias remuneradas, e passou a distribuir bônus quando os resultados permitiram.

Para Déia, sua maior preocupação sempre foi não reproduzir o ambiente de trabalho que viveu durante boa parte da carreira. “Eu trabalhava 12, 13 horas por dia. Não queria construir uma empresa assim.”

Ela diz que seu estilo de liderança foge dos modelos tradicionais. Não gosta de controlar processos, prefere estabelecer responsabilidades e acredita que uma demissão só faz sentido quando o comportamento de alguém começa a prejudicar o restante da equipe. “Se o problema é individual, a gente tenta resolver. Mas, quando passa a afetar todo mundo, aí não dá mais.”

O palco inevitável

Apesar da projeção conquistada, Déia continua desconfortável com a fama. A criadora que mobiliza milhões de ouvintes ainda sente frio na barriga ao subir em um palco.

“Estamos tentando levar o podcast para o teatro e fazer apresentações em que conto histórias ao vivo, mas não consigo ainda”, diz.

A dificuldade de Déia parece uma ironia para quem passa os dias emprestando voz às histórias dos outros, mas basta conhecê-la mais para entender que esse protagonismo nunca foi um objetivo para ela. Foi uma consequência.