Copa de 2027 pode mudar o jogo do futebol feminino
Executivas de veículos, agências e marcas refletem sobre suas expectativas para o mundial
Em 2027, o Brasil será sede da Copa do Mundo de Futebol Feminino pela primeira vez na América do Sul. O torneio será disputado de 24 de junho a 25 de julho de 2027 por 32 seleções em 64 partidas, que serão realizadas em oito cidades brasileiras: Belo Horizonte (Mineirão), Brasília (Arena BRB Mané Garrincha), Fortaleza (Arena Castelão), Porto Alegre (Beira-Rio), Recife (Arena Pernambuco), Rio de Janeiro (Maracanã), Salvador (Arena Fonte Nova) e São Paulo (NeoQuímica Arena). Até o momento, a seleção feminina do Brasil nunca venceu uma copa. O melhor desempenho foi em 2007, quando chegou à posição de vice, ao perder na final contra a Alemanha, na China.
A Copa feminina como conhecemos hoje começou em 1991, também na China, e contou com 12 seleções. Os Estados Unidos foi o país vencedor naquele primeiro ano. São 35 anos de uma história ainda muito nova, se comparada à tradição do campeonato masculino. Segundo muitos especialistas, a próxima edição, de 2027, será marcada por transformações para a modalidade. A começar pelas novas formas de acompanhar o esporte, com novos canais e múltiplos modos de consumir conteúdo associado ao tema.
Para Christian Mutzig, sócio da LiveMode, empresa de mídia e marketing esportivo que gerencia a CazéTV, as histórias serão o fio condutor do conteúdo para o torneio. “A Copa do Mundo de 2027 não começa no dia da cerimônia de abertura. Ela começa agora. Nosso papel é apresentar as melhores histórias que uma Copa no Brasil é capaz de proporcionar e criar uma experiência que vá além dos 90 minutos de jogo. As que dão personalidade a cada seleção, a cada confronto, a cada dia de mundial. E também com um olhar especial para as atletas, veteranas e revelações”, afirma.
Na Globo, as histórias do esporte também ganham destaque no “Central da Copa”, programa focado no campeonato que ganha pela primeira vez sua edição no feminino. Além disso, a emissora tem na estratégia o lançamento do filme sobre a Marta, dirigido por Andrucha Waddington, além de um documentário sobre a Seleção Brasileira e o futebol feminino, conforme revelou Marcela Zaiden, diretora de planejamento executivo e gestão de elenco do esporte da Globo.

Marcela Zaiden, , diretora de planejamento executivo e gestão de elenco do esporte da Globo (Crédito: Globo/Estevam Avellar)
Alcance de milhões
Tal estrutura prepara o terreno para colocar a modalidade no holofote da mídia, e os números já mostram o grande interesse pelo futebol feminino. Segundo dados da Globo Ads, 92% das pessoas que acompanham futebol pretendem assistir à Copa de 2027, número que entre a população geral é de 60%.
A última edição da Copa Feminina, de 2023, alcançou mais de 63 milhões de pessoas no ecossistema Globo. Em 2026, 56 milhões de já foram alcançadas por transmissões da modalidade na emissora. Em junho deste ano, a seleção brasileira enfrentou os Estados Unidos num amistoso em Fortaleza que levou 55 mil pessoas à Arena Castelão. Na ocasião, 75% dos ingressos foram comprados por mulheres. Apesar de concentrar o poder de compra, o público do esporte é equilibrado: são 49% de mulheres e 51% de homens, segundo dados da Globo Ads.
Em 2026, a CazéTV registrou recordes de audiência durante a Copa masculina. “O canal terminou a Copa de 2026 com 29 das 30 maiores lives do YouTube no mundo todo, um marco impressionante. Além disso, a Copa será realizada no Brasil, em um ambiente de consumo digital mais maduro e com uma comunidade que a CazéTV vem construindo ao longo dos últimos anos”, pontua Christian.
Projeção de recorde
Em 2023, a Copa feminina, que ocorreu na Austrália e Nova Zelândia, alcançou uma audiência global recorde de 2 bilhões de pessoas. Se no Brasil, mesmo com o fuso horário, houve grande audiência, tudo indica que no ano que vem o alcance será ainda maior, prevê a executiva da Globo.
“Temos todos os motivos para acreditar que será a maior Copa Feminina da história. Em 2023, mais de 63 milhões de pessoas acompanharam a competição na Globo. Agora teremos uma combinação muito especial. A competição acontecerá no Brasil, com a Seleção jogando em casa em busca de um título inédito e com uma cobertura construída ao longo de muitos meses”, complementa Marcela.
Segundo dados da Globo Ads, 68% dos brasileiros sabem que o país será sede da competição em 2027. “Não é que as pessoas rejeitam o futebol feminino. Elas não conhecem. Então, a gente imagina um crescimento exponencial a partir do momento em que você apresenta para as pessoas o nível de qualidade e seriedade das atletas, o nível de profissionalismo e o que é possível fazer com esse esporte”, pontua Raquel Ribeiro, diretora sênior de marketing da Coca-Cola Brasil.

Raquel Ribeiro, diretora sênior de marketing da Coca-Cola Brasil (Crédito: Divulgação)
Engajamento do futebol feminino
Não apenas o alcance aumentou, como também o engajamento do público. A conta da Seleção Brasileira Feminina (@selecaofemininadefutebol) é a mais seguida do mundo no Instagram entre seleções da modalidade, com 3,17 milhões de seguidores. No primeiro semestre de 2026, o perfil registrou alta de 34% em impressões e 68% em engajamento.
O interesse não se dá apenas pelo campeonato mundial, mas na categoria como um todo. O perfil do Brasileirão Feminino (@brfeminino) cresceu 375% em impressões e 383% em engajamento de 2025 para 2026, de acordo com a FSports, agência que detém os direitos comerciais da Seleção Brasileira Feminina e que gerencia os perfis da modalidade no Brasil. Apenas no digital, o potencial comercial das postagens da seleção no primeiro semestre de 2026 foi estimado em quase R$ 9 milhões, segundo a agência.
Apesar dos dados mostrarem uma realidade de crescente aumento, o mercado ainda é receoso em investir na modalidade. “Estamos no melhor momento para desenvolver a maior torcida da história do Brasil para o futebol feminino. E isso não é percebido porque falta a vontade de acessar os dados. Os dados estão disponíveis, a gente tem como mostrar essa evolução”, relata Liana Bazanella, cofundadora da HOC Sports. Para a executiva, a Copa Feminina se iniciou assim que a seleção masculina de futebol foi eliminada este ano, pois o mercado já começou a olhar para o próximo grande evento esportivo.
Ponto de virada para o esporte
Marcas, veículos e agências já começaram a se preparar para o evento, alguns com uma visão de longo prazo para tornar esta edição do torneio um ponto de virada na história do futebol feminino, principalmente no Brasil.
A FSports garantiu a exclusividade dos créditos comerciais da seleção brasileira de futebol feminina de 2026 à 2029, que incluem também as competições do Brasileirão, Supercopa e Copa do Brasil.
Em termos de transmissões, os veículos também revelam uma crescente estrutura para cobrir o esporte. O volume de partidas femininas exibidas pela Globo, por exemplo, cresceu de 82 em 2021 para 200 em 2026, segundo dados da Globo Ads.
Para as entrevistadas, esta Copa representará uma mudança de chave para o desenvolvimento da modalidade. O futebol feminino no Brasil tem evoluído a cada ano, a começar por 2019, quando a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e a Conmebol tornaram obrigatório que os clubes da primeira divisão nacional e em competições como a Copa Libertadores e a Copa Sul-Americana tivessem um time feminino principal e categorias de base. Em 2019, eram 205 times femininos em atividade. Devido à pandemia, este número caiu para 94 no ano seguinte. Já em 2021, eram 180 clubes, e em 2022, 197, conforme destaca o relatório Convocados de 2025.
Este número segue caindo desde então, e em 2025 foram registrados 187 times femininos oficiais, de acordo com o mesmo relatório. Entretanto, o ano de 2025 teve outros ganhos para a modalidade. O futebol de base feminino ganhou 34 novos times e 4 estados passaram a ter competições de formação. Mesmo com a queda em números totais, o número de times que se dedicam exclusivamente ao futebol feminino subiu 65%, impulsionado pelo incentivo da CBF à criação de competições de base feminina em todos os Estados, diz o documento.
Para a diretora de marketing da Hyundai Motor Brasil, Ebru Semizer, esta é uma janela de oportunidades para a modalidade. “Acompanhei a Copa do Mundo Masculina que aconteceu aqui no Brasil em 2014. O que vimos foi uma evolução em infraestrutura e estádios na época. Então, agora com a Copa do Feminino de 2027, esse legado será ainda maior. Não vejo mudanças na infraestrutura, mas vejo muitas oportunidades surgindo”, afirma.
Investimentos de marca
A Hyundai investiu no futebol feminino pela primeira vez em 1999, a partir de uma parceria global com a Fifa e apoio à competição daquele ano. Na última edição, em 2023, a fabricante sul-coreana lançou a campanha “How Far We’ve Come”, que homenageou o progresso do futebol feminino nas últimas décadas.
Com esta experiência, a líder de marketing no Brasil busca medir o impacto do investimento em métricas que vão além do alcance e engajamento. “Precisamos olhar para os indicadores de relevância cultural. Por isso, para o próximo ano, já estou desenvolvendo métricas junto com a nossa equipe que contemplem, por exemplo, a participação da comunidade, o impacto social, a inclusão de novos públicos e a capacidade de inspirar a futura geração, além da participação dessas pessoas no meu público”, destaca.

Ebru Semizer, diretora de marketing da Hyundai Motor Brasil (Crédito: Divulgação)
Para as entrevistadas, a proporção do evento promete mobilizar todo o ecossistema, dos clubes de base a marcas patrocinadoras e torcedores. De acordo com o Globo Ads, o número de marcas associadas ao futebol feminino na emissora mais do que dobrou em quatro anos, de oito marcas em 2019 para 17 em 2023. Em 2026, o Brasileirão Feminino teve 100% de suas cotas de patrocínio vendidas na emissora.
A mesma pesquisa mostrou, porém, uma percepção de que o futebol feminino ainda carece de maior investimento: 78% concordam que a modalidade tem um potencial comercial ainda pouco explorado e 85% acreditam que as marcas deveriam investir mais em patrocínios na categoria. Dados compartilhados pela FSports indicam que o patrocínio ao futebol feminino aumenta em 23% a probabilidade de escolha da marca patrocinadora contra os concorrentes e em 26% a probabilidade de compra de seus produtos.
A Seleção Brasileira Feminina já estreou 2026 com novos patrocinadores de acordos longos. Hyundai fechou contrato até 2028 com foco no Brasileirão e na Copa do Brasil. Uber tem contrato de dois anos para as copas masculinas e femininas, Brasileirão Série A1, Copa do Brasil e Supercopa. Amazon e Itambé também estão com acordos de patrocínio de dois anos de duração. Além destas, Monange, Azul e Sicoob fecham os patrocinadores da amarelinha.
Além disso, há ainda as patrocinadoras pela Fifa que somam 17 marcas. São sete parceiras (Aramco, Adidas, Coca-Cola, Hyundai, Lenovo e Visa), quatro patrocinadoras (Lay’s, Mengniu, Michel Ultra e Unilever com marcas como Rexona e Dove) e seis apoiadoras (Airbnb, DoorDash, Globant, Valvoline, Verizon e Salesforce).
Segundo Mônica Esperidião, CSO da FSports, as cotas de patrocínio para o futebol feminino cresceram nos últimos anos. “Quando vi as cotas da Copa do Mundo Feminina no Brasil, percebi que os valores são iguais aos que tínhamos anteriormente na copa masculina, o que já representa outro patamar”, revela.

Mônica Esperidião, CSO da FSports (Crédito: Divulgação)
Já as cotas de patrocínio de transmissões também já estão sendo discutidas desde agora. “Anunciamos, junto com o YouTube, o plano de patrocínio para a transmissão da Copa do Mundo de 2027 ao mercado publicitário. As conversas já começaram e percebemos um interesse significativo das marcas. O mercado entende que investir na modalidade não é apenas uma iniciativa institucional, mas também uma oportunidade de negócio. Por isso, estamos construindo os projetos comerciais desde agora, para que elas façam parte da jornada editorial e não apenas da transmissão dos jogos”, afirma Christian.
Para Bazanela, as marcas que ainda não perceberam este movimento de mercado estão atrasadas. “No futebol feminino, existem algumas marcas que já apoiam a modalidade, mas muitas outras nunca entraram nesse ambiente. Não posso chegar apenas durante a Copa, entrar na conversa e me posicionar como parceiro de uma modalidade com a qual nunca me relacionei e nunca tive nenhum diálogo. Esse tipo de abordagem acaba sendo percebido pela torcida como algo oportunista. Por isso, precisamos falar sobre a Copa agora, para criar esse ecossistema e, assim, poder explorar ainda mais o ápice do campeonato durante o evento”, conclui.