BLOG DA REGINA

Os homens também precisam de um novo roteiro

A pergunta que devemos fazer neste Dia dos Pais deve ser menos "como formar homens fortes?" e mais "como formar homens inteiros?"

Regina Augusto

Diretora Executiva do Cenp e Curadora de Conteúdo do Women to Watch 7 de agosto de 2026 - 13h51

No próximo domingo será Dia dos Pais. Curiosamente, passei boa parte desta semana lendo um livro sobre homens. Não porque eu seja uma especialista em masculinidade. Muito menos porque tenha tido uma grande referência paterna. Meu pai morreu quando eu tinha apenas dois anos de idade. Cresci em uma casa chefiada por mulheres, como tantas famílias brasileiras. Durante muitos anos, essa ausência foi uma pergunta permanente na minha vida. As mais de duas décadas de terapia ajudaram a transformar essa falta em compreensão.

Exatamente por isso eu li o livro O que é ser homem – Como lidar com a crise masculina e educar filhos homens, de Scott Galloway, de um lugar muito diferente. Li como mãe.

Sou de uma geração de mulheres que passou boa parte da vida ocupando espaços antes reservados apenas aos homens. Minha trajetória profissional foi construída justamente nesse contexto. Celebramos os avanços femininos na educação, no mercado de trabalho, na liderança e na autonomia econômica. Mas, enquanto acompanhávamos essa transformação, outra história começava a se desenhar quase silenciosamente: a dos meninos.

Hoje, as estatísticas sobre saúde mental, evasão escolar, isolamento social, dependência digital, suicídio e radicalização de jovens homens nas democracias ocidentais deixaram de ser episódios isolados para formar um quadro preocupante. Para além das desigualdades que continuam afetando as mulheres, trata-se de reconhecer que existe uma crise masculina que também merece (e precisa) ser compreendida.

(Crédito: Divulgação)

Livro O que é ser homem – Como lidar com a crise masculina e educar filhos homens, de Scott Galloway, editora Intrínseca (Crédito: Divulgação)

Como mãe de dois adolescentes, confesso que essa realidade me preocupa profundamente. Scott Galloway parte justamente desse diagnóstico. Professor de marketing da Universidade de Nova York e um dos mais conhecidos comentaristas do capitalismo contemporâneo, ele mistura memórias pessoais, pesquisas e conselhos para defender uma ideia aparentemente simples: meninos precisam voltar a encontrar propósito, responsabilidade, disciplina e pertencimento.

Ao longo do livro, revisita sua infância, o divórcio dos pais, os erros da juventude, a depressão, a relação difícil com a raiva e a experiência de educar dois filhos homens. Entre as muitas reflexões, algumas me pareceram particularmente poderosas: assumir riscos faz parte do crescimento; aprender a conviver com a sensação de impostor é inevitável; criar oportunidades para outras pessoas talvez seja uma das maiores demonstrações de sucesso.

E uma delas me parece especialmente importante às vésperas do Dia dos Pais: ser um bom pai também significa ser bom com a mãe dos seus filhos. Há muita honestidade nessas páginas.

Mas também há limites. Galloway escreve a partir do coração do capitalismo americano. Seu olhar sobre masculinidade continua profundamente ligado à ideia do homem como provedor. Em vários momentos, o valor masculino parece ser medido pela capacidade de proteger, produzir riqueza e construir patrimônio, uma síntese que ele próprio resume na tríade “proteger, prover e procriar”.

Essa perspectiva é justamente um dos principais pontos criticados por parte da recepção internacional do livro, que questiona até que ponto essa definição não reforça convenções tradicionais de gênero em vez de interrogá-las.

Reside aí uma das grandes contradições do nosso tempo. Durante décadas, dissemos aos meninos que precisavam ser fortes. Agora dizemos que precisam ser sensíveis. Antes deveriam competir. Agora precisam colaborar. Se no passado bastava prover, hoje espera-se que também cuidem, expressem emoções, estejam presentes e construam relações mais igualitárias.

Tudo isso representa um enorme avanço. Mas raramente conversamos sobre quem está ajudando esses jovens a fazer essa travessia.

Uma das análises que li sobre o livro estabelecia uma comparação interessante entre Galloway e o humorista Roy Wood Jr. Enquanto Galloway procura ensinar aos homens como gerar mais valor para o mundo, Wood parece interessado em ajudá-los a reconhecer que já têm valor antes mesmo de provar qualquer desempenho. A diferença é sutil, mas profunda. Uma visão mede a masculinidade pela utilidade; a outra, pela capacidade de construir vínculos, desenvolver clareza moral e cuidar de si e dos outros.

É essa mudança de perspectiva que talvez estejamos precisando, porque boa parte dos problemas de saúde mental entre jovens homens nasce da crença de que seu valor depende exclusivamente de desempenho, dinheiro, status ou sucesso profissional. E isso nunca foi tão difícil quanto agora. Vivemos em um mercado cada vez mais competitivo, em um ambiente digital que transforma comparação em rotina e em uma economia que promete oportunidades infinitas enquanto entrega ansiedade em escala industrial.

A pergunta que devemos fazer neste Dia dos Pais deve ser menos “como formar homens fortes?” e mais “como formar homens inteiros?”. Uma das chaves para essa resposta deve vir da compreensão de que seu valor não depende apenas daquilo que produzem, mas também das relações que constroem.