Ponto de vista - Comunicação

ATMR de avião

i 27 de setembro de 2011 - 9h54

Com a entrada da Escala em São Paulo, a minha vida na ponte aérea se intensificou bastante. Numa das últimas viagens de bate-e-volta a bordo da Gol, consegui um assento na primeira fileira do avião (graças à over-extensão das pernas do meu companheiro de viagem Régis, que não cabem em qualquer espacinho entre-fileiras).

Tenho aproveitado essas quase duas horas a bordo pra colocar as leituras em dia.Assim que a porta fechou, peguei meu livro. Logo em seguida, uma das aeromoças começou a recitar as instruções de segurança. Como o livro era meio cabeludo e exigia uma concentração especial, resolvi esperar o final do comunicado de bordo. E, sem ter o que fazer, meio sem pensar muito, comecei a acompanhar a mímica da aeromoça que, bem do meu lado, traduzia naqueles gestos que todo mundo conhece as instruções que saiam pelos alto-falantes. "Esta aeronave possui saídas de emergência assim localizadas…"

Até que de repente os olhos da aeromoça se viraram bem para onde eu estava e encontraram os meus, vidrados na explicação corporal dela.
Visivelmente surpreendida, e sem parar sequer um segundo enquanto puxava a máscara de oxigênio em direção ao rosto, ela abriu um sorriso enorme e me disse: "- Prestando atenção, hein?". Como se estivesse dizendo: "- Tô realizada. Depois de todos esses anos, nunca achei que a essa altura dos acontecimentos alguém ainda fosse prestar atenção nessa lenga-lenga aqui".

É claro que tanto o texto quanto os movimentos das instruções de segurança a bordo são obrigatórios por lei. Um tipo de ATMR (Assim Tiro o Meu da Reta) da aviação. Como aqueles textos que o jurídico dos clientes sempre manda colocar pequeninho em peças promocionais. E que alguém tem que escrever. E alguém tem que revisar.

Aliás, nunca entendi porque a gente tem que colocar esses textos em comerciais. Quer dizer, num anúncio eu até imagino que possa aparecer uma vez na vida e outra na morte alguém que se proponha a ler. Mas na TV, piscando, durante um segundo… O cara teria que gravar o comercial e na hora de reproduzir dar uma pausa bem na hora, e aí dar um zoom na tela pra tentar ler alguma coisa.

Acho que no dia que alguém me disser que leu um texto desses que eu tiver escrito, vou finalmente saber como aquela aeromoça se sentiu.

Eduardo Axelrud é diretor nacional de criação da Escala