Páscoa: estratégias das marcas para driblar a alta do cacau
Com do principal evento sazonal para as empresas de chocolate, qualidade e preço são os pontos principais para se conectar com os consumidores

Mesmo com alta no cacau, empresas fortalecem estratégia para a Páscoa (Crédito: Igor Normann-shutterstock)
O cacau, matéria prima para a produção de chocolate, já vem sofrendo altas há alguns anos, impactando diretamente as empresas que trabalham com esse insumo. Em 2023, por exemplo, o fruto atingiu níveis recordes de preço que se estendeu para os anos seguintes. Em 2025, os contratos futuros já estavam em torno de US$ 8 mil a US$ 9 mil por tonelada.
Esse movimento fez com que os impactos fossem sentidos além das companhias, chegando ao bolso dos consumidores, que receberam alguns repasses, ou mesmo perceberam em seu paladar a diminuição do uso do insumo para a produção de um dos doces mais populares entre os brasileiros e o mais importante da Páscoa.
Por isso, as empresas de chocolate, já mantem um plano para conseguir se conectar com o consumidor, incentivando a compra de ovos – e outros produtos como lembrança – sem perder a qualidade de seus produtos e com um aumento mínimo.
A Cacau Show, por exemplo, planeja a sua Páscoa com 17 meses de antecedência, ou seja, para esse ano, a companhia de Alexandre Costa utilizará a safra de 2025, período em que o cacau atingiu picos históricos de preço.
Nesse contexto, a empresa tentou absorver os impactos da produção por meio de planejamento, eficiência operacional e escala. Lilian Rodrigues, diretora de marketing da Cacau Show, explica que a marca brasileira tomou a decisão de preservar o padrão do chocolate, sem diminuir a quantidade de cacau, ou substituindo ingredientes. Por isso, a companhia realizou um reajuste de 4%, acompanhando o IPCA.
“A Páscoa é o momento mais importante e simbólico do ano. É quando o chocolate ganha um significado ainda mais especial, está no ato de presentear, nas celebrações, nas visitas a pessoas queridas, muito conectado à memória afetiva”, comenta.
Já a Ofner trabalha com cacau 100% de origem amazônica, cultivado no Pará e, de acordo com a empresa, isso representa um custo mais elevado. Por isso, a marca negociou os valores com os produtores e fornecedores com antecedência.
“Em relação ao consumidor, temos o cuidado de não repassar esses aumentos de forma imediata ou integral. Buscamos fazer ajustes de maneira muito criteriosa e gradual, preservando a acessibilidade dos produtos sempre que possível”, diz Fernanda Perillo, head de marketing da Ofner.
A Dengo Chocolates também exalta a matéria-prima brasileira, priorizando relações sustentáveis em toda cadeia de fornecimento. Este ano a marca tem 28 produtos no portfólio dedicado à Páscoa, sendo dez deles novidades para abraçar diferentes perfis de consumidores. A grande novidade da marca também destaca, como no caso da Ofner, o chocolate amazônico: o Cacau Praliné Amazônico é recheado com praliné de castanha-do-Pará, castanha-de-caju e massa folhada e utiliza chocolate 70% cacau.
Eficiência e produtividade
A fim de driblar a crise, mesmo com a possibilidade da alta de preços, as companhias já pensam em estratégias de fortalecimento para esse período, seja na parte de execução, ou em comunicação.
A Ferrero, que tem nomes como Kinder e Ferrero Rocher, tangibiliza na Páscoa um investimento que é realizado ao longo do ano. Por isso, a empresa combina três principais pilares de execução: maximizar a presença, garantir a disponibilidade e impulsionar a conversão no ponto de venda.
“Temos investido fortemente em uma execução diferenciada no varejo, com materiais de alto impacto e soluções adaptáveis a diferentes perfis de loja, que ampliam a visibilidade das marcas e tornam a jornada de compra mais atrativa e intuitiva”, avalia Giuseppe Giorgianni, head de marketing de Ferrero para América do Sul.
Para isso, a empresa desenhou uma estratégia de divulgação com forte presença em TV, digital e diversos pontos de contato ao longo de toda a jornada do consumidor.
No caso de Kinder, a campanha parte do conceito de que cada criança tem um universo para descobrir e aposta na surpresa como um ponto de conexão. Já Em Ferrero, a estratégia reforça seu posicionamento como referência em chocolates premium para presentear. “Além de um plano robusto de mídia em TV e digital, ampliaremos o alcance por meio de ações com influenciadores orgânicos”, comenta.
A Cacau Show, por sua vez, investirá em variedade. apresentando embalagens e itens colecionáveis em um portfólio com 75 itens, sendo 46 inovações. A marca ampliou o portfólio com seis novas franquias, totalizando 19 personagens, além do investimento em licenciados com nomes como Harry Potter, Ursinhos Carinhosos, Bob Esponja, Patrulha Canina, Sonic, Batman e NBA.
“Mais do que personagens, apostamos no aspecto experiencial dos produtos. Temos, por exemplo, os tabletes de Harry Potter acompanhados do Chapéu Seletor, que se mexe, traz a voz original dos filmes e indica as casas de Hogwarts”, explica Lilian.
A brasileira terá uma produção de 10,5 mil toneladas de chocolate, o que corresponde a 31,7 milhões de produtos, um crescimento de 13% em relação a 2025. Entre os ovos, serão 25,5 milhões de unidades produzidas, crescimento de 12,8% em relação ao ano anterior, quando a produção da marca representou 50% do mercado brasileiro.
A executiva afirma, ainda, que a expectativa da Cacau Show é alcançar um crescimento de faturamento de 13,6% no período de fevereiro a abril de 2026, em comparação ao mesmo período de 2025.

De clássicos a “presenteáveis premium”, Dengo investe na variedade de opções a seus consumidores (Crédito: divulgação)
Na Dengo, variedade também tem sido fator para atingir mais consumidores nesta Páscoa. Além de novos sabores nos ovos Quebra-Quebra, a marca lançou, pela primeira vez, embalagens em lata para os ovos recheados nas versões Brigadengo, Cocada e Cupuaçu, com objetivo de fortalecer as opções de presenteáveis, da qual faz parte o Ovo Cafuné Duo, no portfólio infantil, com chaveiro de pelúcia no formato de cacau e bichinhos da floresta (boto cor-de-rosa, arara-zaul e capivara). Mas também houve preocupação de oferecer opções numa faixa intermediária de preço, como os Denguinhos (versão do Dengo de Corte) e a Degustação de Quebra-Quebra (mix em formato mini).
Foco em experiência
Além de um portfólio diverso, brindes e uma campanha fortalecida, outra estratégia para as chocolaterias é o foco em experiência, que seja um diferencial para conquistar a atenção dos consumidores.
Lacta, principal marca da Mondelēz para a Páscoa, terá Ivete Sangalo como o rosto de sua comunicação para a sazonalidade. A empresa terá uma ativação no Parque Villa-Lobos, em São Paulo com uma instalação que reproduz uma parreira de ovos de Páscoa com mais de 20 metros.
A estrutura é semelhante a um túnel imersivo e sensorial e inclui cenografia temática, ambientes interativos e áreas voltadas para registros e compartilhamento.
A Ofner, por sua vez, decidiu transformar a sua comunicação de Páscoa em uma experiência artística. Por meio da campanha “Para provar e apreciar”, a empresa transformou uma galeria nos Jardins, em São Paulo, em uma exposição que unia arte espatulada e chocolate.
O cenário, visava traduzir como o chocolate pode ter criação autoral, onde forma, textura e sabor assumem o mesmo protagonismo de uma obra exposta, além de apresentar o seu portfólio de sabores.
Fernanda, da Ofner, explica que a campanha de Páscoa é um convite para o consumidor a percorrer uma de “galeria de chocolates”, em que os produtos são apresentados como peças artísticas, valorizando o cuidado, a técnica e a qualidade envolvidos em cada criação.
“Para a Ofner, a Páscoa vai além do tradicional ovo de chocolate e representa uma oportunidade de reforçar a categoria como um todo”, completa.

