Opinião

Poetas, encanadores e a busca desesperada por storytellers

A era da inteligência artificial nos fez redescobrir a mais antiga das habilidades humanas

Gustavo Teitelbaum

Co-CEO da Lukso 26 de março de 2026 - 6h00

Assim como a tecnologia, o comportamento corporativo também é cíclico. E o maior paradoxo do ciclo atual é que a era da inteligência artificial nos fez redescobrir a mais antiga das habilidades humanas: contar histórias.

Segundo dados do LinkedIn, a demanda por vagas que incluem o termo “storyteller” simplesmente dobrou nos últimos doze meses nos Estados Unidos, um movimento tão expressivo que fez o Wall Street Journal o chamar de desespero. Da Microsoft à Anthropic, todos parecem estar em busca de alguém capaz de assumir o cargo de “Head of Narrative”. Mas, afinal, por que agora?

A resposta mais rasa poderia ser a necessidade das marcas de controlarem suas próprias narrativas em um mundo onde a mídia tradicional encolhe a cada dia. Mas a resposta mais profunda passa por um problema que nós mesmos criamos: o excesso de ruído.

Um artigo recente do The Times afirmou que as empresas estão contratando storytellers para enfrentar o famoso “AI slop”: uma massificação de conteúdo mediano, padronizado e sem alma. O dado mais revelador, porém, vem do mercado financeiro: executivos mencionaram “storytelling” em calls de resultados 469 vezes em 2025, contra 147 em 2015, segundo a FactSet. Quando o tema chega à linguagem dos acionistas, é porque já deixou de ser apenas uma tendência.

Rishad Tobaccowala, especialista em futuro e liderança, tem um nome para esse momento: a era da “Poesia e do Encanador”. A última década foi dominada pelo encanamento: tecnologia, distribuição perfeita e otimização de dados para encontrar a pessoa certa na hora certa. O problema é que o encanamento entrega a água, mas não mata a sede de conexão. Agora que a IA barateou o encanamento, o diferencial voltou a ser a poesia: o artesanato, o bom gosto, a história com alma. E essa distinção muda tudo.

Em um cenário onde qualquer um pode gerar conteúdo infinito, a escassez mudou de lugar. O ativo mais valioso não é mais a capacidade de produzir, mas a capacidade de transformar tudo que vem sendo produzido em uma boa história pra contar. Isso é, casar a matemática dos dados com a mágica das palavras, como muito bem definiu Tobaccowala.

Depois de anos se desdobrando para agradar algoritmos, o mundo corporativo teve uma epifania tardia: um poeta não consegue trabalhar dentro de uma fábrica de encanamento.

Acredito que storytelling de verdade exige mais do que um profissional competente: exige uma marca disposta a ouvir, a ser vulnerável, a aceitar que a melhor história nem sempre cabe em um prompt. As empresas que entenderem isso vão descobrir que contrataram muito mais do que um Head of Narrative, contrataram uma vantagem competitiva que a IA, por enquanto, não consegue imitar.