Quando Amy Webb vira moça do tempo, dilúvio vira profecia
Há uma miopia imperial: os EUA aparecem não apenas como centro do mundo moderno, mas como medida de toda transformação relevante
Esta semana, critiquei a palestra de Amy Webb no SXSW 2026 a partir daquilo que mais circulou sobre ela: a suposta morte da tendência e a ascensão da convergência. Mas, quanto mais se observa o argumento com atenção, mais evidente fica que a mudança é menos epistemológica do que cosmética. O que se apresenta como virada conceitual parece, no fundo, uma reembalagem. A noção de convergência está longe de ser nova. Há pelo menos duas décadas ela já ocupa lugar central no pensamento sobre cultura digital, mídia e redes, tanto em autores internacionais, como Henry Jenkins, quanto em leituras locais e latino-americanas que há muito entenderam que tecnologia, mídia, comportamento e sociabilidade não operam em compartimentos estanques.
O problema, portanto, não é apenas terminológico. Não se trata simplesmente de dizer que Amy Webb trocou “trend report” por “convergence outlook” e vendeu seis por meia dúzia. O ponto mais delicado é outro: a estrutura de pensamento que sustenta essa troca continua praticamente a mesma. Ela não rompe com o modo tradicional de ver, classificar e antecipar o mundo; apenas o atualiza em sua superfície. Sua ideia de convergência não é, de fato, uma abertura à complexidade. É, antes, uma reorganização interdisciplinar de variáveis que continuam sendo lidas a partir de um enquadramento binário, funcionalista e fortemente ancorado numa experiência histórica muito específica: a do capitalismo estadunidense do século XX, elevado à condição de lente universal.
É justamente aí que sua análise começa a empobrecer. Porque o mundo que Amy Webb descreve como se estivesse emergindo diante de nós, em muitos casos, já existe há muito tempo — apenas não no centro geográfico, político e imaginário a partir do qual ela escolhe olhar. Há, em sua fala, uma espécie de miopia imperial: os Estados Unidos aparecem não só como centro do mundo moderno, mas como medida implícita de toda transformação relevante. O que está fora desse eixo some, ou aparece apenas como periferia produtiva, reservatório de mão de obra barata ou cenário abstrato de impacto. Falta história. Falta mundo. Falta reconhecer que muitos dos processos apresentados como futuros disruptivos já foram vividos, nomeados e sentidos de outras formas em contextos não estadunidenses — inclusive sob formas muito mais duras, mais violentas e mais estruturais do que aquelas sugeridas em seu palco futurista.
Um bom exemplo disso está no modo como ela aciona a noção de creative destruction. A ideia parte de um pressuposto clássico da modernidade econômica: o de que novas tecnologias, modelos de negócio e mercados substituem automaticamente os antigos, destruindo velhos valores e instaurando novos. Mas a realidade social raramente funciona assim. Tecnologias não chegam ao mundo como forças autônomas que simplesmente apagam o que veio antes. Elas ganham sentido dentro de tramas culturais, relações históricas, estruturas de poder e experiências coletivas já existentes. O novo não elimina o antigo por decreto. Ele convive com ele, o reinterpreta, entra em tensão com ele, às vezes o reforça, às vezes o desloca, às vezes depende dele para existir. Mais do que destruição, o que há é transformação; mais do que substituição, há coexistência contraditória. Valores antigos e novos se friccionam, se contaminam e continuam significando uns aos outros. É dessa tensão — não de uma suposta limpeza histórica — que emergem os sentidos reais das mudanças.
Por isso, o enquadramento de Webb parece menos capaz de ler o presente do que de reafirmar uma gramática antiga da modernidade: alocação de capital, investimento em capacidade produtiva, posicionamento estrutural, ganho de eficiência, redistribuição de valor. Tudo isso importa, claro. Mas não basta. Porque há algo decisivo que sua palestra subestima: cultura não entra ali como infraestrutura da técnica. No máximo, aparece como efeito colateral, como consequência comportamental ou como superfície de adoção. E talvez esse seja o ponto cego mais importante de todos.
Uma amiga resumiu isso com precisão: Amy Webb não considera cultura como tecnologia. E esse talvez seja o coração do problema. Cultura não é um ornamento em torno da técnica. Cultura é a tecnologia fundadora da experiência humana. É o que organiza sentido, media relações, estabiliza expectativas, transmite memória, regula pertencimento, produz valor e orienta uso. Sem cultura, não há tecnologia socialmente inteligível. Quando esse dado é negligenciado, toda análise de futuro tende a confundir aparato técnico com transformação histórica. Passa-se a tratar dispositivos como causa primária do mundo, quando na verdade eles só se tornam relevantes porque são absorvidos, disputados e recodificados culturalmente.
Isso ajuda a entender por que a crítica de Webb a figuras como Sam Altman às vezes soa ambígua. Em vez de se distanciar radicalmente do imaginário tecnocrático que pretende questionar, ela permanece presa a ele. Seu raciocínio continua operando no mesmo horizonte em que humanos e máquinas são comparados segundo métricas de eficiência, custo, escala e performance. Muda o tom. Não muda o paradigma.
Isso fica especialmente visível quando ela apresenta suas três grandes convergências como se estivesse nomeando rupturas inéditas na sociedade e na economia. Na primeira delas, human augmentation, Webb afirma que, pela primeira vez na história, alguns humanos poderão ser objetivamente melhores do que outros. Para sustentar essa ideia, ela combina exemplos banais de consumo premium — como artefatos de sono, mobilidade e performance — com hipóteses muito mais profundas, como edição genética e aprimoramento cognitivo, e conclui que estaremos diante de uma nova desigualdade inscrita no corpo. Ela chega a perguntar o que aconteceria se empresas passassem a exigir augmentation como condição para contratar alguém para funções de alta responsabilidade.
Mas a pergunta, embora formulada como antecipação distópica, ignora algo elementar: isso já acontece, apenas sob outros nomes. O mundo social sempre selecionou, hierarquizou e distribuiu oportunidades com base em formas desiguais de “augmentação” socialmente produzidas. Gênero, raça, classe, religião, território, escolaridade, nutrição, sobrenome, redes de contato, idioma, passaporte, estabilidade familiar, acesso à saúde, ambiente cultural: tudo isso já torna alguns corpos mais aptos, mais legíveis, mais valorizados e mais rentáveis do que outros. A vantagem competitiva nunca começou no chip, no leito inteligente ou na edição de DNA. Ela já estava inscrita nas estruturas sociais que definem, desde sempre, quem pode mais e quem vale mais. O que as novas tecnologias podem fazer é intensificar, sofisticar ou biologizar essas assimetrias. Mas não inaugurá-las.
Na segunda convergência, unlimited labor, também há mais continuidade histórica do que novidade conceitual. Webb argumenta que, com agentes, robôs e fábricas automatizadas, o trabalho deixa de ser o motor do crescimento e passamos a uma lógica de escala sem população, produção sem salários, output sem pessoas. A formulação é forte, e a implicação é real. Mas o impulso de extrair o máximo de produtividade ao menor custo possível não nasce agora. Desde a Revolução Industrial, a grande orientação dos sistemas econômicos modernos é precisamente tornar a mão de obra mais eficiente, mais previsível, mais escalável e menos onerosa.
O ponto interessante aqui não seria anunciar que máquinas tornarão o trabalho humano menos central. Isso é quase uma constante histórica da modernização. O ponto realmente fecundo seria perguntar que tipo de reorganização social emerge quando o trabalho deixa de ser o eixo da reprodução da vida e da legitimidade social. E é justamente aí que a palestra poderia ir mais longe do que vai. Porque talvez a questão não seja apenas econômica, mas civilizacional. Se por séculos famílias se organizaram também em torno da lógica da reprodução da força de trabalho, o que acontece quando essa equação se dissolve? O que acontece quando filhos deixam de ser pensados, ainda que inconscientemente, como continuidade material, amparo futuro ou extensão da estrutura produtiva? O que acontece quando o custo de vida sobe, a seguridade social enfraquece, o trabalho precariza, a solidão cresce e a longevidade aumenta?
Talvez o efeito não seja apenas desemprego tecnológico. Talvez seja uma reconfiguração profunda da família, do envelhecimento, do cuidado e da convivência. Talvez, no futuro, a unidade social mais estável deixe de ser o casal com filhos e passe a ser outra coisa: amigos vivendo juntos, arranjos de cuidado mútuo, redes afetivas não familiares, comunidades de sobrevivência emocional e material.
Por fim, em emotional outsourcing, Webb afirma que estamos transferindo conforto, validação e companhia das pessoas para as máquinas, e que isso cria uma nova infraestrutura de dependência emocional. Sua fórmula é clara: substituição torna-se dependência, que por sua vez torna-se controle. A frase é boa. Mas, novamente, o que ela descreve como grande mutação comportamental se parece muito mais com uma nova mediação técnica de velhas estruturas de poder do que com uma ruptura inédita.
A história humana está repleta de instituições que mediaram angústia, pertencimento, culpa, consolo e salvação em troca de adesão, obediência, fidelidade ou recursos. Religiões, seitas, hierarquias familiares, ideologias, ambientes de trabalho abusivos, planos de saúde, comunidades fechadas, líderes carismáticos, todo tipo de estrutura já operou nessa lógica: primeiro oferece amparo, depois produz dependência, por fim converte essa dependência em forma de controle. Quando Webb pergunta o que acontece se a coisa que te ajuda no seu pior momento foi desenhada para te manter emocional e financeiramente dependente, a resposta é desconcertante justamente porque não aponta para um amanhã distante. Isso já é a realidade de muita gente hoje. Quando ela pergunta o que aconteceria se uma criança devastada chegasse em casa e abrisse um aplicativo em vez de procurar um abraço, ela parece descrever um futuro, quando na verdade descreve uma condição já banalizada em grande parte do Ocidente. Quando ela evoca a hipótese de um novo Jonestown distribuído por chats em dezenas de países, ela trata como cenário especulativo algo que já deveria ser lido à luz das estatísticas contemporâneas sobre radicalização digital, suicídio influenciado por comunidades online, fóruns de autodestruição e redes transnacionais de captura psíquica.
Isso não significa que sua preocupação esteja errada. Ao contrário: ela toca em questões sérias. Mas o modo como as apresenta frequentemente transforma em profecia aquilo que já é diagnóstico atrasado. O risco não é apenas exagerar a novidade. É não perceber que o mundo já está vivendo, há bastante tempo, as consequências da mercantilização integral da vida, da erosão dos laços coletivos e da privatização do cuidado. Em outras palavras: o que Webb chama de emotional outsourcing é menos uma inflexão isolada da inteligência artificial do que uma continuação coerente da própria racionalidade capitalista, que há muito converte vulnerabilidade em mercado.
Talvez por isso sua proposta de solução também revele certo descolamento do mundo. Ao sugerir um modelo de remuneração para trabalhos emocionais e relacionais historicamente não pagos, ela apresenta como pensamento econômico radical algo que, fora dos Estados Unidos, remete imediatamente a debates já bastante conhecidos sobre proteção social, reconhecimento do trabalho reprodutivo, políticas públicas de cuidado e formas coletivas de compensação e sustentação da vida. Sua formulação pode ter mérito dentro do contexto estadunidense, em que até dimensões elementares da existência foram profundamente mercantilizadas. Mas tratá-la como horizonte inaugural apenas reforça a impressão de que sua teoria do futuro opera a partir de um centro que desconhece o que já foi pensado, vivido e institucionalizado em outras partes do mundo.
No fim, o problema central da palestra de Amy Webb não é falta de inteligência, nem falta de repertório técnico. É falta de deslocamento. Seu olhar continua preso a uma imaginação de futuro que toma a experiência histórica dos Estados Unidos como norma, e a tecnologia como principal força explicativa da mudança, sem reconhecer suficientemente que toda técnica é atravessada por cultura, história, poder e geografia. Ao não tratar cultura como tecnologia — talvez a mais decisiva de todas — sua análise acaba superestimando a novidade dos dispositivos e subestimando a profundidade das continuidades.
Por isso, seu erro não está em perceber transformações reais. Elas existem. Seu erro está em apresentá-las como se estivessem começando agora, como se fossem inéditas em sua estrutura, e como se pudessem ser plenamente compreendidas sem uma leitura mais histórica, mais cultural, mais relacional e menos centrada no mundo americano. O futuro que Amy Webb descreve talvez não seja falso. Mas certamente é menor do que o mundo.