Conexão Austin

5 insights centrais para compreender o festival

O futuro exige intencionalidade: trocar o ruído da IA por conexões reais, ética e construção de universos

Beto Sirotsky

19 de março de 2026 - 15h18

O SXSW 2026 também foi um festival de contrastes. Houve críticas relevantes ao longo da semana. Muitos apontaram a redução do tamanho do evento em relação a anos anteriores, as longas filas em algumas sessões, a grande concentração de brasileiros e uma presença limitada de participantes de mercados asiáticos, o que pode estreitar a visão de futuro apresentada no festival.

Parte dessas percepções também reflete um momento de transição do próprio evento. A edição deste ano ocorreu em meio às obras do Austin Convention Center, que devem se estender até 2029, espalhando atividades por diferentes pontos da cidade. O festival também teve uma duração menor que anos anteriores. Ainda assim, participar de ambientes como o SXSW continua sendo valioso, desde que não seja tratado como fonte única de ideias ou referências.

A partir dessa experiência, organizo cinco insights que ajudam a compreender melhor o que emergiu do SXSW 2026.

O ambiente como estratégia e a saúde social

O maior valor de eventos como o SXSW está no ambiente: ideias começam a se reorganizar quando perspectivas distintas entram em contato. Para que isso aconteça, porém, é preciso resistir à tentação de preencher cada minuto da agenda. Conversas inesperadas e encontros improvisados muitas vezes produzem reflexões mais relevantes que qualquer painel isolado.

Esses encontros ganham ainda mais importância quando observados à luz de um dos temas do festival, a necessidade de reconexão social. Durante a apresentação sobre saúde social, a palestrante Kasley Killam menciona os dados afirmando que 20% dos americanos passam tempo presencialmente com as pessoas com as quais se importam (além daquelas com quem já dividem a mesma casa) apenas uma ou duas vezes por ano. Ela destaca essa estatística como um ponto alarmante e um enorme problema da sociedade atual que precisa ser solucionado. A própria Geração Z começou a falar em “ano do analógico” como reação ao excesso de interações mediadas por telas.

A tecnologia e o risco de eliminar o atrito humano

Grande parte da tecnologia digital foi construída com o objetivo de reduzir fricções. Em muitos contextos isso representa eficiência. O problema surge quando essa lógica começa a ser aplicada às relações humanas.

Interagir com sistemas de inteligência artificial como se fossem amigos, conselheiros ou terapeutas cria uma dinâmica confortável, porém potencialmente enganosa. Ferramentas de IA tendem a validar o usuário, reforçando opiniões e comportamentos.

Relações humanas exigem discordância, contrapontos e algum nível de desconforto. Conexões significativas e verdadeiras surgem justamente da capacidade de permanecer na conversa mesmo quando surgem tensões e pontos de vista divergentes.

Os dados, porém, indicam que essa substituição emocional já começou. Pesquisas apresentadas durante o festival apontam que uma parcela significativa da Geração Z afirma ter desenvolvido algum tipo de vínculo emocional com sistemas de IA, um risco real tanto em termos de integridade física como para a saúde mental e social.

O enigma da consciência e os limites da inteligência artificial

Outro debate importante no festival foi o da consciência humana. A ciência ainda não consegue explicar completamente como o cérebro gera experiências subjetivas como amor, imaginação ou identidade, o chamado Hard Problem of Consciousness.

Há de se considerar ainda que grande parte da comunicação humana ocorre por sinais não verbais, como expressões faciais, postura corporal e entonação de voz, elementos que raramente fazem parte dos modelos de treinamento das inteligências artificiais atuais.

Há também uma dimensão material nesse debate. A expansão da IA depende de enormes estruturas computacionais e de grande consumo energético. Em diversas regiões do mundo, comunidades já começam a questionar a construção de novos data centers devido ao impacto sobre redes elétricas e custos de energia.

E, por fim, se ainda não compreendemos plenamente como surge a consciência humana, definir com precisão os limites futuros da inteligência artificial torna-se um exercício arriscado. A discussão sobre inteligência artificial passa, portanto, tanto pela infraestrutura quanto por questões filosóficas e éticas.

O marketing entra na era do worldbuilding

No campo do marketing, o SXSW por meio de vozes como a de Leandro Barreto, da Unilever, reforçou uma transformação marcante. Em vez das tradicionais campanhas pontuais, ganha força a ideia de worldbuilding, a construção de universos narrativos consistentes ao longo do tempo.

Marcas passam a operar dentro de ecossistemas narrativos e comunidades que mantêm diálogo contínuo com o público. Em um ambiente pós-digital, mediado por inteligência artificial e permeado por múltiplos canais, posicionamentos corajosos, consistência e coerência tornam-se mais relevantes do que ações isoladas de comunicação.

A era da intencionalidade

Talvez o insight mais transversal do evento seja a necessidade de intencionalidade. A complexidade deixou de ser exceção e passou a ser condição permanente do ambiente de negócios. Diante disso, liderança exige escolhas conscientes: onde investir recursos e energia, quais tecnologias adotar e quais posições assumir.

Ser intencional também significa questionar modelos tecnológicos centralizados. Um dos movimentos discutidos no festival foi o avanço da chamada inteligência artificial distribuída, desenvolvida localmente e adaptada a contextos culturais específicos. Um exemplo citado foi o uso de IA para revitalizar línguas indígenas na Nova Zelândia, preservando conhecimento cultural sem transferir dados para grandes plataformas globais.

Acredito que o SXSW continua sendo um lugar propício a provocações e reflexões. Faço coro, no entanto, à crítica sobre a falta de perspectiva e de participação de países asiáticos. Da mesma forma, reitero que o excesso de conteúdo exige muita criticidade em relação ao que é relevante e ao que é ruído. Mas certamente temos aqui sinais que ajudam a reorganizar prioridades, pessoais e profissionais, em um mundo que se transforma cada vez mais rápido. E a edição deste ano reforçou que é tempo de comprometimento. Menos olhar para o futuro. Mas atenção (e ação) no presente.