Conexão Austin

Como andar de bicicleta explica o futuro da IA

Entre palestras e provocações no SXSW, a pergunta: estamos usando a IA como ferramenta ou muleta?

Mariana Tahan

Diretora de marketing da Wake 13 de março de 2026 - 10h45

Primeira vez no SXSW e, confesso, um começo um tanto quanto turbulento. Filas intermináveis para palestras, salas cheias e a sensação de estar perdendo muita coisa pela cidade. Mas, para os novatos, assim como eu, um breve recado: calma! As coisas vão melhorar e Austin tem muito para oferecer, inclusive, muitas vezes mais fora das salas de conteúdo do que dentro.

Mas, caminhar pelo SXSW, independentemente da localização, seja pelo Hilton ou um pulo pelas ativações, me traz um paradoxo fascinante: enquanto as IA’s se tornam cada vez mais empáticas e eficientes, a grande urgência da humanidade parece ser o resgate do que é puramente humano.

Em uma das palestras mais provocativas (e nadando praticamente contra a maré) que assisti, uma questão ficou na minha mente, e vou deixar na de vocês também: se perdêssemos o acesso às nossas ferramentas de IA hoje, o início de um novo projeto seria mais difícil do que há três anos? Se a resposta for sim, precisamos falar sobre a influência silenciosa da tecnologia nos nossos fluxos criativos. E deixando claro: não estou falando de tracionar um projeto, e sim, criá-lo, pensar fora da caixinha…

Parei para refletir, e após breves pensamentos, como profissional principalmente, cheguei à conclusão de que a IA está moldando nossos processos de forma invisível (e eu não sei se quero isso para mim). Claro que não desejo voltar à era dos Maias, onde haviam cansativos processos manuais, como encontrar uma simples informação poderia levar horas. Mas também não quero que a IA vire muleta para tudo. A gente sabe se virar, não nscemos com uma IA quase plugada em nossa mão para nos ajudar com tudo.

Hoje, ter uma IA ao nosso lado funciona como as “rodinhas” de uma bicicleta; elas nos dão equilíbrio e nos levam mais longe, mas tiram o aprendizado essencial que vem da queda quando precisamos ser livres. Na criatividade, o “tombo”, que pode ser aquele momento de frustração, o rascunho amassado, a dúvida e o inquietamento, e é justamente onde o músculo do pensamento crítico é formado. Quando usamos a tecnologia para pular essa etapa e ir direto para o resultado e execução, corremos o risco de atrofiar nossa capacidade de resolver problemas complexos (e arrisco dizer que até os mais simples) por conta própria.

E essa facilidade tem um preço que não estamos mensurando agora, só vivendo e esperando as consequências chegarem.

Talvez não para nós, mas para os nossos filhos principalmente. Durante uma das sessões, foi mostrado que a criatividade humana costuma despencar de 90% na infância para meros 2% na vida adulta, e a IA, se usada como as “rodinhas” da bicicleta, deve ser o catalisador desse declínio se não nos atentarmos. Para as gerações Z e Alpha, principalmente, o engajamento excessivo com ferramentas automatizadas pode reduzir a atividade cerebral em áreas ligadas às funções executivas, que precisam ser testadas e treinadas. Se não há “queda”, provavelmente não haverá aprendizado, e não falo isso só pelas bicicletas.

Tá, ok, e o que devemos fazer com as IAs? Excluí-las para sempre de nossas vidas? Não acho que essa atitude radical seja o caminho. Acho que a regra de ouro que surgiu desses debates é a da “autoria primária”: priorize as ideias geradas dentro de nós mesmos antes de recorrer ao primeiro prompt, em geral vago. A tecnologia tem que ser o combustível para expandir uma faísca que já é nossa, mas nunca a fonte única do fogo. Não acredito, pelo menos não ainda, que ideias geniais de grandes campanhas publicitárias que conhecemos possam ser geradas por aí. Talvez inputs para deixá-la mais madura e uma ajuda com o planejamento de divulgação.

Até em um contraponto do que possa ser o grande tema do evento, entendo que o mercado está girando de volta para as humanidades, e não para as artificialidades. Curiosidade, resiliência e a capacidade de manter a motivação intrínseca são os novos diferenciais competitivos em um mundo onde a execução técnica é comoditizada. A IA pode agilizar a tarefa e entregar a métrica, mas ela ainda falha na entrega de sentido, empatia e realização pessoal.

O futuro das nossas experiências digitais nos próximos anos não será definido por quem tem a melhor ferramenta, mas por quem consegue manter a autonomia em meio à delegação de prompts. Precisamos usar a inteligência artificial para sermos mais eficientes, sem permitir que ela nos torne menos humanos.

A criatividade autêntica ainda exige um pouco de trabalho duro, um toque de bagunça e, acima de tudo, que a gente não perca a coragem de largar as rodinhas e pedalar com as próprias pernas.