Diversidade aparece. A conversa sobre ela, nem tanto
A diversidade continua no palco do SXSW. Mas, fora dele, quase não apareceu
Essa foi uma das percepções mais nítidas ao longo dos dias no festival este ano. Quem acompanha o SXSW há mais tempo sabe que o evento sempre foi um espaço de posicionamento. Diversidade, inclusão, justiça social e clima não eram apenas temas de painéis específicos — essas pautas atravessavam praticamente toda a programação.
Em 2026, algo parece ter mudado.
Diversidade como regra, não como conversa
Do ponto de vista da representatividade, o SXSW segue sendo uma referência. Existe uma diretriz clara da organização: painéis com três ou mais participantes precisam incluir diversidade de gênero e racial. E há um detalhe importante: moderadoras não entram nessa conta. Ou seja, é preciso ter pelo menos uma mulher entre os speakers, além de quem conduz a conversa.
Isso se reflete diretamente no palco. A presença de mulheres e pessoas negras é consistente e qualificada — algo que, especialmente para quem vem do Brasil, chama muita atenção. Vi speakers incríveis, negros, em áreas como neurociência, tecnologia, comportamento e marketing. É inspirador ver essa diversidade ocupando espaços de protagonismo com tanta naturalidade.
Também há espaços dedicados a essas discussões. Houve painéis sobre Women in Tech e visitei o Female Quotient Lounge, um hub voltado a liderança feminina, carreira e equidade, com uma programação formada inteiramente por mulheres.
A diversidade está lá. Mas, ao mesmo tempo, quase não está.
Quando o tema perde protagonismo
Apesar da forte representatividade nos palcos, a diversidade como assunto apareceu pouco na programação geral. Ela deixou de ser uma conversa transversal.
Em outras edições, era comum ver temas como inclusão, equidade e justiça social conectados a diferentes trilhas do festival, atravessando discussões sobre tecnologia, cultura e negócios. Este ano, essas conversas pareceram mais concentradas em espaços específicos — menos espalhadas, menos centrais.
Um festival mais silencioso
Essa mudança também aparece no tom geral do evento. O SXSW sempre foi um festival de ideias e de posicionamento — um lugar onde temas políticos e sociais entravam na conversa de forma aberta. Este ano, percebi um cuidado maior dos speakers ao abordar assuntos mais sensíveis.
Em muitos momentos, discussões que poderiam evoluir para temas políticos ou geopolíticos simplesmente não avançavam. Praticamente não ouvi menções a conflitos relevantes do cenário atual, como as tensões envolvendo o Irã. E mesmo o ambiente político americano apareceu muito pouco nas falas. Para um evento com esse histórico, o silêncio chama atenção.
O impacto do clima político
Uma leitura possível, comentada em conversas informais durante o festival, é que o atual clima político nos Estados Unidos pode estar influenciando esse comportamento. Com o fortalecimento de discursos críticos ao chamado movimento “woke” e a pautas associadas ao ESG, o ambiente parece mais sensível para posicionamentos públicos.
A sensação, em alguns momentos, foi de uma certa autocensura no palco. Não necessariamente uma mudança de valores — mas uma mudança de tom.
O que isso revela
Isso não significa que o SXSW tenha deixado de ser um espaço diverso ou relevante. A representatividade é real, e temas como bem-estar, saúde mental e conexão humana seguem ganhando força na programação. Mas o festival que antes amplificava debates sociais de forma direta agora parece fazê-lo com mais cautela.
Talvez seja apenas um reflexo do momento político. Talvez seja uma nova fase, em que diversidade deixa de ser pauta central e passa a ser pressuposto.
De qualquer forma, a sensação ao sair do SXSW este ano é clara: a diversidade continua no palco. Mas a conversa sobre ela ficou mais baixa.
E isso, por si só, já diz bastante sobre o momento que estamos vivendo.