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Expectativas para a estreia

Na minha primeira vez no SXSW, busco entender como dados, IA e cultura reorganizam a mídia

Janaina Reimberg

CTO Omnicom Media Brasil e Managing Director Flywheel Latam 10 de março de 2026 - 16h35

Embarco para Austin para participar do SXSW pela primeira vez. Toda primeira vez carrega uma tensão silenciosa: expectativa e responsabilidade dividindo o mesmo espaço. No meu caso, essa responsabilidade tem escala. Vou como CTO da Omnicom Media Brasil e Managing Director da Flywheel LatAm, parte de uma organização que opera algumas das maiores engrenagens de mídia do país — e que atravessa um momento raro de reconfiguração estrutural.
O mercado costuma tratar o SXSW como um radar de tendências. Prefiro enxergá-lo como um laboratório de estruturas.
Não me interessa apenas o que está surgindo. Interessa-me como as peças estão se reorganizando.
A integração entre IPG Mediabrands e Omnicom não é apenas um movimento corporativo. É uma mudança na arquitetura da mídia. Quando dados, tecnologia, criatividade e operação deixam de funcionar como ilhas e passam a compor um mesmo sistema nervoso, o que se altera não é o volume — é a inteligência.
Vivemos anos de abundância. Abundância de dados, de plataformas, de ferramentas. Agora, o desafio é outro: coerência.
Coerência entre o que sabemos e o que decidimos.
Entre o que medimos e o que realmente importa.
Entre performance e construção de marca.
A mídia já não é apenas canal. Tornou-se infraestrutura. Sustenta jornadas, organiza descobertas, influencia decisões antes mesmo que elas se tornem conscientes. Em um cenário em que os investimentos crescem em sofisticação, previsibilidade deixa de ser ambição e passa a ser obrigação.
É essa camada que espero explorar no SXSW.
A inteligência artificial, inevitavelmente, atravessará quase todos os debates. Mas o ponto não é a ferramenta. É a transformação da lógica. Quando algoritmos passam a mediar atenção, consumo e relevância, a mídia deixa de disputar espaço apenas com concorrentes e passa a disputar espaço com sistemas.
O que significa construir marca quando a descoberta é algorítmica?
O que significa planejar mídia quando a audiência é dinâmica?
O que significa medir impacto quando a jornada é fluida?
Essas perguntas são menos técnicas do que parecem.
Porque, no fim, estamos falando de cultura.
Cultura molda comportamento.
Comportamento orienta consumo.
Consumo sustenta o mercado.
A tecnologia acelera, mas é a cultura que ancora.
Nesse contexto, o avanço do retail media surge como consequência natural da convergência entre mídia e comércio. Ele deixa de ser um território exclusivamente transacional e passa a integrar o desenho estratégico da jornada. Como parte da Flywheel LatAm, acompanhamos essa evolução de perto. Ainda assim, a questão central permanece: como integrar essas camadas ao todo, evitando que se tornem apenas mais uma especialização isolada?
O momento exige síntese.
Síntese entre automação e criatividade.
Entre dado e intuição.
Entre eficiência e significado.
Ser CTO hoje é habitar esse espaço de intersecção. Não apenas garantir que os sistemas funcionem, mas que façam sentido. Que a complexidade técnica não se transforme em ruído estratégico. Que a inteligência produzida por máquinas amplifique — e não substitua — a inteligência humana.
Talvez a primeira vez realmente nunca se esqueça.
Mas não vou a Austin em busca de impacto momentâneo. Vou em busca de direção.
Direção para ajudar a consolidar uma nova fase da Omnicom Media no Brasil — mais integrada, mais coerente e mais preparada para operar em um ambiente em que mídia, dados e cultura já não podem ser pensados separadamente.
Se a primeira vez marca um começo, que ela marque também um alinhamento.
Entre tecnologia e propósito.
Entre escala e responsabilidade.
Entre mídia e sociedade.