Conexão Austin

Maior revolução de todas. E por que o humano ainda vai ganhar

A IA não encerra o trabalho, mas o transforma, agora o desafio é evoluir da operação para o julgamento

Thiago Franzão

Diretor de negócios no TikTok no Brasil 19 de março de 2026 - 11h32

Estou sentado entre duas sessões do SXSW e a pergunta que mais ouço ao redor – nas filas de credenciamento, nos corredores entre salas, nas mesas de bares onde as conversas continuam depois da meia-noite – não é sobre negócios, não é sobre a próxima rodada de captação, nem sobre o próximo unicórnio. É uma pergunta que carrega o peso de algo muito mais primitivo, muito mais visceral: meu emprego vai acabar?

É uma pergunta honesta. E merece uma resposta igualmente honesta – não tranquilizadora, mas verdadeira.

O SXSW chega ao seu 40º aniversário transformado. Sem o Austin Convention Center – demolido para dar lugar a uma nova estrutura prevista para 2029 -, o festival se reinventou num formato descentralizado, espalhado por clubhouses e venues por toda a cidade. E foi justamente nessa desordem organizada, nesse fluxo de pessoas caminhando de um bairro para outro debaixo do sol do Texas, que o estado de espírito de 2026 se revelou com mais clareza do que em qualquer palco.

O tema é um só: inteligência artificial. IA em todo lugar, como se o ar de Austin estivesse carregado de uma pergunta que ninguém consegue responder com total convicção.

O funeral que virou manifesto

Amy Webb chegou ao palco do Hilton Austin Downtown vestida de preto. Enquanto uma música sombria ecoava pelo auditório repleto, ela anunciou o encerramento do relatório anual de tendências tecnológicas que publica com o Future Today Strategy Group há quase 20 anos – o mesmo relatório que antecipou synthetic media, digital humans e IA generativa antes que esses termos chegassem às reuniões de diretoria das principais empresas do mundo.

A sala, enfeitada de flores, tinha ares de velório – era um funeral – e, simultaneamente, abrigava uma das declarações mais inteligentes que ouvi nos últimos anos sobre o estado do mundo.

Webb não estava enterrando o futuro. Estava enterrando um formato.

“O problema”, ela disse em entrevista antes da apresentação, “não está nos temas. Está no fato de que o mundo muda rápido demais para ser capturado uma vez por ano.” Em vez de tendências isoladas, ela propôs um novo framework: convergências – os pontos onde tecnologias, comportamentos, forças geopolíticas e pressões econômicas se cruzam e criam tempestades sistêmicas que nenhuma análise singular consegue mais capturar.

Três dessas convergências, segundo Webb, já começaram a se formar e merecem atenção urgente de líderes e marcas.

A primeira ela chamou de human augmentation – amplificação humana. Não se trata mais de tecnologia para compensar limitações, como óculos ou próteses, mas de expandir capacidades físicas e cognitivas além dos limites naturais. Biotecnologia, sensores, IA e interfaces cérebro-máquina convergem para criar corpos e mentes ampliados: exoesqueletos que multiplicam força, dispositivos que otimizam sono em tempo real, sistemas que aprimoram cognição sob demanda.

A pergunta que essa convergência levanta não é técnica – é filosófica e, sobretudo, social: o que acontece quando algumas pessoas passam a ter capacidades objetivamente superiores às outras graças à tecnologia?

A segunda convergência é o que Webb chamou de unlimited labor – trabalho ilimitado. Como nunca antes, crescimento econômico pode se dissociar da sem expansão proporcional da força de trabalho humana. Sistemas de IA agêntica, robótica avançada e automação industrial avançam sobre tarefas físicas, cognitivas e criativas. Webb apresentou exemplos concretos: sistemas que escrevem e testam código em ciclos contínuos sem intervenção humana, avatares que vendem em comércio ao vivo na China, robôs humanoides em linhas de produção, drones para inspeção industrial e táxis autônomos operando em escala real.

Não é mais sobre substituir tarefas repetitivas. É sobre reconfigurar o conceito de trabalho.

A terceira convergência é a mais inquietante: emotional outsourcing – terceirização emocional. Se antes compartilhávamos emoções com outras pessoas Amigos, familiares, parceiros, terapeutas, líderes espirituais. Hhoje, uma parte crescente dessas interações mediada por tecnologia. Assistentes de IA que fazem companhia, sistemas conversacionais que oferecem suporte emocional, plataformas que aprendem seus padrões afetivos com mais precisão do que muitas pessoas ao seu redor.

Webb não trata esse fenômeno como algo neutro. Trata como um risco sistêmico.

Quando estabilidade emocional começa a depender de sistemas guiados por modelos de engajamento, algo estrutural sobre a experiência humana começa, silenciosamente, a se deslocar.

Já estivemos aqui antes. Várias vezes

Antes de entrar no que tudo isso significa para quem trabalha com marcas e comunicação, vale dar um passo atrás. Não é a primeira vez que o humano se vê diante de uma ruptura tecnológica que parece irreversível. E entender como saímos das anteriores talvez seja a informação mais estratégica disponível neste momento.

Em 1589, um inventor inglês chamado William Lee apresentou à Rainha Elizabeth I a sua máquina de tricotar meias, capaz de produzir tecido em velocidade incomparável. A rainha recusoua patente. Não por falta de visão, mas por temor: : “Considere o que sua invenção faria com os meus pobres súditos. Com certeza lhes traria a ruína, privando-os de seu emprego.”

O mesmo medo. As mesmas palavras. Quatrocentos e trinta e sete anos antes de Austin.

Lee foi então para a França, onde encontrou apoio no rei Henrique IV, e estabeleceu sua manufatura em Rouen. Depois de sua morte, os trabalhadores que ele havia treinado voltaram à Inglaterra e lentamente estabeleceram a indústria de malharia no país – contra a oposição ferrenha dos tecelões manuais. O que aconteceu com o emprego têxtil inglês? Cresceu. Por décadas. As funções mudaram radicalmente, mas o trabalho não acabou.

Dois séculos depois, os Ludistas invadiram fábricas têxteis no norte da Inglaterra e destruíram, a marretadas, as máquinas que acreditavam estar destruindo seus meios de vida. Eram artesãos habilidosos. Eram trabalhadores qualificados que entendiam profundamente seu ofício e viam naquelas máquinas a ameaça concreta ao que haviam construído ao longo de anos. O movimento foi reprimido com força militar. As máquinas permaneceram. E a Revolução Industrial que se seguiu criou mais empregos industriais na Inglaterra do que qualquer outro período de sua história.

Agora um exemplo que merece atenção especial, talvez por ser o mais contraintuitivo: quando os caixas eletrônicos – os ATMs – foram introduzidos nos Estados Unidos a partir dos anos 1970, a previsão universal era de colapso no emprego de caixas bancários. A lógica parecia infalível: se uma máquina faz o que o caixa faz, o caixa deixa de ser necessário. O economista James Bessen, da Boston University School of Law, apurou que, em 1985, havia 60.000 caixas eletrônicos nos Estados Unidos e 485.000 caixas bancários humanos trabalhando. Em 2002, após uma explosão no número de ATMs para 352.000 unidades instaladas, o número de caixas bancários havia aumentado para 527.000. Mais máquinas, mais empregos.

O mecanismo é revelador: com os ATMs, ficou mais barato operar uma agência bancária. O número de caixas necessários por agência caiu de 20 para 13. Mas, em resposta, os bancos abriram mais agências para competir por maior participação de mercado. O número de agências bancárias em áreas urbanas cresceu 43%. Menos caixas por agência, mais agências — e no total, mais empregos. Além disso, a natureza do trabalho do caixa evoluiu: de operador de transações para parte da equipe de relacionamento com clientes. O trabalho não desapareceu. Foi transformado.

A história dos meios segue um padrão retórico: cada nova tecnologia é anunciada como a ‘morte’ da anterior — o rádio do jornal impresso, a televisão do cinema, o streaming da TV. Na prática, essas transições transformaram os setores e ampliaram o acesso: hoje consumimos mais conteúdo – mais música, mais filmes e mais formatos – do que em qualquer outro momento da história.

Desta vez é diferente – e por isso mesmo importa mais

Afirmar que já passamos por isso não significa dizer que será simples. Não será. E seria desonesto fingir o contrário.

A diferença desta revolução não é apenas de velocidade – embora ela seja, de fato, inédita. É de natureza. As revoluções anteriores mecanizaram força física. Esta adentra o território que sempre consideramos irredutivelmente humano: a capacidade de criar, de sintetizar, de julgar, de se comunicar com profundidade e nuance. E isso muda a equação de um jeito que precisamos encarar com honestidade.

Scott Galloway, em uma das sessões mais concorridas do festival – sem espaço nas paredes, gente sentada no chão – não teve paciência para eufemismos. Com a clareza direta de quem não tem medo de incomodar, ele entregou a frase que para mim sintetizou o espírito de Austin 2026: “A IA não vai te substituir. Mas alguém que usa IA provavelmente vai.” A sala ficou em silêncio por um instante. Não porque era uma ideia nova. Mas porque, dita assim, sem adornos, ela aterrissou com o peso que precisava.

Sandy Carter – ex-AWS, ex-IBM, autora de AI First, Human Always e uma das vozes mais experientes na implementação real de IA em grandes organizações – foi direta sobre a natureza do desafio. Em sua sessão no festival, ela separou com precisão cirúrgica o que IA efetivamente faz dos mitos que circulam sobre ela. O principal deles: a ideia de que adoção de IA é, essencialmente, uma questão tecnológica. Não é. Os projetos de IA que geram resultado real são, na verdade, transformações de negócio. A tecnologia é a ferramenta. A mudança é cultural, organizacional e, sobretudo, humana.

Já Steven Spielberg, durante sua sessão, revelou que nunca usou inteligência artificial em seus filmes. A reação da plateia – uma mistura de admiração, perplexidade e aplausos – disse tudo. Não porque Spielberg tenha razão ou esteja errado. Mas porque revelou o quanto, essa questão ainda é carregada de identidade e medo para os profissionais de indústrias criativas. Ninguém pergunta ao diretor se ele usa câmera digital ou corretor ortográfico. A IA tocou em algo diferente – na narrativa de autoria, de criatividade, de o que significa fazer algo com as próprias mãos.

O que muda para quem trabalha com marcas e comunicação

Dentro das conversas nos bastidores de Austin, um tema dominou o pensamento de quem trabalha com marketing, publicidade e construção de marcas: o modelo de negócio da atenção está sendo reescrito em tempo real. Não de forma incremental, mas estrutural.

Quando a IA se torna a interface principal – quando ela filtra, personaliza, sugere, media e decide o que o consumidor vê antes mesmo que ele perceba que teve uma escolha – o papel da publicidade convencional muda de natureza. Não é o fim da publicidade. É o fim da publicidade como broadcasting, como interrupção massiva, como repetição de mensagem até a memorização por volume.

O que emerge no lugar é algo que já existia, mas que a IA torna urgente e inegociável: a necessidade de relevância real. Relevância genuína só nasce de um entendimento profundo de quem é o humano do outro lado, o que ele busca, o que ele teme, o que o move, e não. Esse entendimento não emerge de datasets. Emerge emerge de observação humana, de empatia cultivada, de experiência acumulada em entender comportamento com a complexidade que ele realmente tem, não de datasets.

O profissional que vai prosperar nessa transição é o que sabe fazer a pergunta certa. O que tem julgamento. O que entende de contexto cultural, de nuance comportamental, de timing emocional – de um jeito que nenhum modelo consegue replicar a partir apenas de padrões históricos.

A relevância, nesse novo cenário, não se constrói com volume. Constrói-se com precisão e com humanidade. E raramente essas duas coisas foram tão difíceis de cultivar e tão valiosas de possuir quanto agora.

Amy Webb encerrou sua apresentação com uma declaração que permanece comigo: “Raiva não é um plano.” Ela dizia ao público que indignação diante da mudança não substitui estratégia. Que o problema não é apenas tecnológico – é de escolha coletiva. E que líderes que tomam decisões por medo, ego ou interesse de curto prazo estão cometendo, quatro séculos depois, o mesmo erro que a Rainha Elizabeth I cometeu com William Lee.

O que não sabemos – e por que isso é, paradoxalmente, uma boa notícia

Vou ser completamente honesto: não sei quais profissões vão existir daqui a dez anos. Ninguém sabe. Em 1994, ninguém era capaz de descrever com precisão o que seria um “community manager” ou um “growth hacker”. Em 2014, ninguém antecipou a escala e a economia dos criadores de conteúdo. Em 2019, ninguém previa que existiria algo chamado “prompt engineer” ou “head de IA” em praticamente todas as grandes empresas do mundo.

O que sabemos – com a confiança que a história consistentemente nos oferece – é que o humano chegou até aqui atravessando revoluções que pareciam, em seu tempo, intransponíveis. O fogo, a roda, a escrita, a imprensa de Gutenberg, o motor a vapor, a eletricidade, o computador pessoal, a internet. Em todas elas, houve um período de ansiedade aguda, de destruição real de ocupações existentes, de reorganização dolorosa e, muitas vezes, injusta. E em todas elas, o humano encontrou um caminho – não apesar da tecnologia, mas através dela.

Esta revolução é, sim, a maior de todas. Amy Webb não estava sendo dramática ao decretar o fim do relatório anual estático. Estava reconhecendo que a velocidade de mudança ultrapassou nossa capacidade de catalogá-la com a mesma frequência e o mesmo formato de antes.

Mas o humano também já passou por momentos em que a velocidade da mudança ultrapassou sua capacidade de compreensão imediata.

E aqui estamos.

A pergunta não é se vamos nos adaptar. É com que intenção vamos fazê-lo.