O novo papel de quem desenha o futuro
O SXSW 2026 convoca ao protagonismo: o futuro não se assiste, se disputa com ética, diversidade e ação real
Por anos, eu repito uma mesma provocação: estar no SXSW é um privilégio.
Mas não pelo óbvio. Não é sobre estar em Austin, circular entre talks concorridos ou acompanhar de perto nomes que ajudam a moldar o presente. O verdadeiro privilégio é outro, e mais profundo: é poder beber da fonte onde as ideias ainda estão sendo formadas, onde as tensões ainda não foram resolvidas e onde o futuro ainda não foi embalado para consumo.
O SXSW sempre foi, para mim, menos um evento e mais um sistema vivo de convergência.
E este ano isso ficou ainda mais explícito.
A própria Amy Webb, uma das principais referências globais em foresight, reconheceu no palco aquilo que muitos de nós já vínhamos observando empiricamente: o mundo não está mais evoluindo em linhas paralelas de tendências, estamos vivendo uma era de convergência profunda.
Tecnologia, biologia, inteligência artificial, cultura, economia e comportamento humano deixaram de ser disciplinas isoladas. Elas se entrelaçam, se tensionam e se aceleram mutuamente.
E é exatamente nesse cruzamento que o futuro passa a ser desenhado.
O privilégio que vira responsabilidade
Estar nesse ambiente muda a forma como enxergamos o nosso papel.
Porque, se antes o acesso ao futuro era restrito, mediado por governos, grandes corporações e centros de poder, hoje ele se torna progressivamente mais distribuído.
Por muito tempo, vivemos dentro de “futuros possíveis”.
Cenários projetados por instituições, orientados por interesses econômicos e traduzidos para o público como inevitabilidades.
Hoje, algo muda.
Eventos como o SXSW nos colocam em uma posição diferente: a de questionar esses futuros, de tensionar narrativas dominantes, de desafiar as big techs, de confrontar os chamados “tech bros” e, principalmente, de desenvolver repertório crítico para não aceitar qualquer discurso como verdade.
Mais do que antecipar tendências, estamos começando a disputar narrativas de futuro.
E isso muda tudo.
Quem deve regular o futuro?
Existe uma pergunta que aparece com frequência crescente nas conversas do SXSW:
Quem deve regular a inteligência artificial?
Quem define os limites éticos?
Quem constrói os guardrails?
Durante muito tempo, a resposta parecia óbvia: governos, grandes empresas, organismos internacionais.
Mas essa resposta já não é suficiente.
Porque, no momento em que a tecnologia se torna distribuída, o poder também se distribui.
E talvez a resposta mais desconfortável, e ao mesmo tempo mais potente, seja:
esse “alguém” somos nós.
Nós, que estamos expostos a essas discussões.
Nós, que temos acesso a repertório.
Nós, que conseguimos conectar sinais aparentemente dispersos.
Mas isso exige uma mudança de postura.
Não basta consumir conteúdo.
Não basta assistir às palestras.
Não basta traduzir tendências.
É preciso aplicar.
Futuros desejáveis não são neutros
Se existe uma mensagem que atravessa o SXSW deste ano, é que o futuro não é apenas uma consequência da tecnologia.
Ele é uma construção.
E, como toda construção, carrega valores.
Falar de “futuros desejáveis” exige, no mínimo, três fundamentos:
- Democracia – acesso e participação ampliados
- Diversidade – múltiplas perspectivas e vozes
- Ética – responsabilidade nas decisões e nos impactos
Por muito tempo, esses pilares foram discutidos como ideais.
Hoje, eles começam a se tornar condições operacionais.
Nunca foi tão possível participar dessa construção.
Mas, ao mesmo tempo, nunca foi tão fácil se perder na superficialidade.
O risco da superficialidade em escala
Existe um contraponto importante que também se evidencia no SXSW.
Enquanto alguns mergulham profundamente nas discussões, outros permanecem na superfície.
Consumindo resumos de palestras que não assistiram.
Reproduzindo insights sem contexto.
Priorizando estética e performance de conteúdo em detrimento de entendimento real.
É o risco de transformar um evento que deveria expandir repertório em mais um ciclo de produção de conteúdo vazio.
Uma espécie de “piscina infantil” do conhecimento.
Bonita, acessível, confortável, mas rasa.
E, no contexto atual, profundidade deixa de ser diferencial e passa a ser responsabilidade.
De foresight a ação
O conceito de foresight sempre foi, para mim, menos sobre prever o futuro e mais sobre construir capacidade de decisão no presente.
Desenhar futuros não é um exercício abstrato.
É um processo ativo de leitura de sinais, interpretação de tensões e, principalmente, de escolha.
O SXSW nos oferece algo raro:
um ambiente onde esses sinais aparecem antes de serem consolidados.
Mas o valor não está no acesso.
Está no que fazemos com ele.
O novo protagonismo
Talvez este seja o maior deslocamento que estamos vivendo:
Saímos de uma posição de espectadores para uma posição de protagonistas.
Pela primeira vez na história, temos:
- acesso à informação em escala
- ferramentas para criação e distribuição
- capacidade de conexão global
- e espaço para influenciar narrativas
Isso não significa que o poder das grandes estruturas desapareceu.
Mas significa que ele está sendo tensionado.
E que existe uma nova camada de responsabilidade emergindo.
O papel de quem está aqui
Estar no SXSW hoje não é apenas acompanhar tendências.
É assumir um papel.
O papel de traduzir, sim, mas também de questionar.
O papel de conectar, mas também de filtrar.
O papel de inspirar, mas sobretudo, de aplicar.
Democratizar o acesso ao conhecimento nunca foi tão importante.
Mas democratizar a capacidade de ação é o verdadeiro desafio.
Porque futuros desejáveis não serão construídos apenas por quem cria tecnologia.
Serão construídos por quem decide como ela será usada.
E, cada vez mais, essa decisão está nas mãos de quem escolhe não ser apenas espectador.
Mas protagonista.