O que mais mudou em Austin de um ano para o outro?
Se eu tivesse que resumir a diferença entre o meu SXSW de 2025 e o de 2026 em uma frase, talvez eu começasse enganando você
Diria que a grande mudança deste ano foi uma ausência. Que Austin amanheceu diferente sem um de seus pontos mais simbólicos de circulação durante o festival. Que, sim, muita gente comentou, comparou, estranhou e tentou entender como seria viver o evento sem a referência que, por tanto tempo, ajudou a organizar mentalmente os nossos dias.
E tudo isso seria verdade…
A ausência do Convention Center apareceu em muitas conversas, principalmente no começo. Houve dificuldade com o novo, alguma nostalgia do formato anterior, opiniões positivas e negativas sobre essa dinâmica mais espalhada pela cidade. Mas, como quase tudo no SXSW, não me parece que exista uma conclusão única sobre o tema. O evento é sempre muito particular.
Cada pessoa vive uma cidade, uma agenda e uma experiência diferentes. O que para uns atrapalha, para outros abre espaço. O que para uns desorganiza, para outros até energiza.
Mas, passado o impacto inicial, saio com a sensação de que essa não foi a mudança mais relevante que vivi por aqui. De 2025 para 2026, o que realmente mudou, para mim, foi perceber que o carro autônomo já deixou de ser novidade para virar paisagem.
No ano passado, escrevi sobre isso daqui de Austin com aquela mistura de curiosidade e frustração de quem estava vendo o futuro passar bem diante dos olhos, mas sem conseguir embarcar nele. Saí com gosto amargo de não ter testado. Desta vez, foi o oposto: andei mais de cinco vezes, sozinha, com amigos, em diferentes momentos, e em todas as corridas a experiência foi perfeita.
Talvez por isso o contraste entre um ano e outro tenha ficado tão evidente.
Em 2025, o carro autônomo ainda carregava, para mim, um lugar quase simbólico: era o assunto, o desejo, a experiência que eu queria viver para entender melhor. Em 2026, ele já ocupa outro espaço. Continua impressionando, claro. Continua rendendo vídeo, foto, post, conversa, mensagem de amigo, encantamento.
Vi muita gente vivendo exatamente esse momento de registrar tudo — e adorei receber também quem me marcou nessas experiências. Como Uber, há um orgulho especial em ver essa transformação tão de perto.
Mas o mais interessante não é o encantamento do primeiro minuto. É o que acontece logo depois. Depois de pouco tempo, você normaliza.
Você entra, filma, sorri, observa, repara que não há ninguém ao volante. E então, quase sem perceber, começa a agir como em qualquer outro deslocamento: responde uma mensagem, conversa, olha a rua, pensa no próximo compromisso. De repente, aquilo que parecia o grande acontecimento do trajeto vira apenas o trajeto.
E acho que esse é o sinal mais forte de uma mudança real.
A tecnologia só muda de verdade a nossa vida quando ela sai do campo da demonstração e entra no da rotina. Quando deixa de parecer uma cena do futuro e passa a ser só uma solução que funciona. Foi assim com tantas revoluções que hoje tratamos com absoluta naturalidade. O que antes parecia extraordinário passa a ocupar silenciosamente um lugar no cotidiano, e seguimos em frente como se sempre tivesse sido assim.
Talvez tenha sido isso que mais me marcou neste SXSW 2026: enquanto parte da discussão girava em torno de uma ausência, a transformação mais potente estava justamente naquilo que já não pedia tanta explicação.
Os carros autônomos estão ali rodando, funcionando, fazendo parte da cidade. E mais do que isso: fazendo parte da rotina de quem está aqui.
O futuro chegou, e chegou bonito. Bonito não só porque impressiona, mas porque entrega praticidade. Porque simplifica. Porque faz sentido na vida real. Porque nos mostra que inovação de verdade não é só a que chama atenção no palco, mas a que se instala no cotidiano de um jeito tão eficiente que, pouco depois, já nem parece mais extraordinária. Assim como a Uber fez com a mobilidade urbana no mundo.
Saio de Austin feliz por finalmente ter vivido isso. Feliz por ver o futuro acontecendo de forma concreta, fluida e natural. E talvez essa seja uma das melhores sensações de acompanhar o SXSW ao longo dos anos: voltar e perceber que aquilo que ontem parecia distante hoje já virou presente.
E eu já fico com vontade de voltar de novo, para ver o que mais terá deixado de parecer futurista e viver novamente esse tipo de experiência.