Conexão Austin

O que se discute em Austin e por que tantos brasileiros vieram

O SXSW 2026 troca a informação isolada pela conjuntura, onde o valor migra para o gosto e a conexão humana

Heloisa Santana

Presidente Executiva da AMPRO, associação de marketing promocional 16 de março de 2026 - 16h36

Chegar em Austin durante o SXSW provoca uma sensação curiosa. Durante alguns dias, parece que o futuro sai dos palcos e passa a circular pelas ruas da cidade. As conversas atravessam cafés, filas de painéis, corredores de hotéis e encontros improvisados que surgem ao longo do dia.

Até aqui, ao final do terceiro dia de festival, algumas leituras começam a se formar.

Entre tantas discussões sobre inteligência artificial, ciência, tecnologia, novas economias, cultura e comportamento, um fenômeno chama atenção nesta edição: a quantidade de brasileiros presentes.

Não apenas executivos de grandes empresas ou profissionais da indústria criativa. Há empreendedores, pesquisadores, estudantes, profissionais de tecnologia, marketing, cultura e inovação. Uma diversidade que revela algo interessante: o SXSW se tornou um ponto de encontro para quem quer ampliar repertório e entender melhor os movimentos que estão redesenhando o mundo.

Mas talvez a principal busca não seja apenas por tendências.

Nos últimos anos, aprendemos a consumir conhecimento em velocidade acelerada. Relatórios, newsletters, podcasts e análises circulam diariamente oferecendo diagnósticos sobre o futuro. A informação se tornou abundante.

O que festivais como o SXSW oferecem é algo diferente: conjuntura.

Para mim, as ideias não aparecem isoladas. Elas se cruzam.

Em um mesmo dia, é possível ouvir Amy Webb refletindo sobre como estamos começando a terceirizar parte da nossa vida emocional para inteligências artificiais. Scott Galloway discutindo os impactos econômicos de medicamentos como o GLP-1. Niall Firth analisando a relação emergente entre humanos e IA. E Jonah Peretti, fundador do BuzzFeed, provocando o mercado ao afirmar que, quando produção e distribuição de conteúdo deixam de ser escassas, o valor migra para aquilo que não pode ser automatizado: gosto, cultura e comunidade.

Essa provocação ecoa em vários debates do festival. Se a tecnologia democratizou a produção e a distribuição de conteúdo, o diferencial passa a estar em algo que não escala da mesma forma: curadoria cultural e conexão humana. Talvez isso ajude a explicar por que tantas pessoas atravessam continentes para estar aqui.

Até o terceiro dia, me desperta não é apenas o volume de debates sobre tecnologia, e sim a quantidade de conversas acontecendo entre os próprios participantes. Nos corredores, filas e caminhadas entre um auditório e outro, surgem trocas que dificilmente aconteceriam em ambientes mais estruturados.

Há uma expectativa crescente na cidade: a abertura das casas e experiências de marca, que tradicionalmente ganham força a partir deste momento do festival. E naturalmente destaque para as casas “from BraSil”, que dá o sentido de “Austin começa a se transformar.”

Se nos primeiros dias os debates acontecem principalmente dentro dos auditórios, a partir de agora eles passam a ocupar também as ruas, as ativações e os encontros que se espalham pela cidade. Talvez seja justamente isso que muitos vieram buscar aqui.

Mais do que acompanhar tendências, participar de um ambiente onde ideias, pessoas e experiências se encontram. No fim, o SXSW segue oferecendo algo que relatórios e algoritmos ainda não conseguem reproduzir plenamente.

Não apenas informações sobre o futuro, mas a oportunidade de conversar sobre ele juntos.