Pedra não é só pedra
Se o mundo está dado, corremos o risco de olhar a pedra… e ver apenas a pedra
O SXSW 2026 foi, mais uma vez, sobre tecnologia. Mais especificamente, sobre inteligência artificial, claro. Era impossível escapar. O tema estava nos palcos, nos corredores, nos cafés e nas filas. Certo? Sim e não. Como costuma acontecer, quando um assunto domina demais, vale desconfiar. Talvez não fosse exatamente sobre IA. Ou, pelo menos, não só. Talvez a pergunta mais interessante seja outra: com que matéria esse mundo está sendo construído? Ou, como diria Gilberto Gil, com quantos gigabytes se faz uma jangada, um barco que veleje hoje?
Como cientista social, fui treinada por Weber e tantos outros autores a organizar o caos da realidade em conceitos inteligíveis e a identificar estruturas subjacentes. É um exercício constante de duvidar, questionar e olhar além da superfície. E foi justamente isso que o SXSW me fez pensar: há uma disputa menos visível em curso, mas muito mais estrutural. Não se trata apenas de uma nova tecnologia que passa a dominar todas as esferas, mas de quem organiza o ambiente em que essas tecnologias atuam. O que está em jogo é a própria mediação cultural, o campo onde se dá a produção de sentido.
Durante muito tempo, falar de poder significava falar de meios de produção: quem produz, quem detém os meios, quem captura valor. Esse raciocínio continua válido – Marx não ficou para trás. Mas algo parece ter mudado de lugar. Se as relações de produção estruturam as relações sociais e condicionam a distribuição de poder, o que acontece quando a disputa passa a ocorrer na própria produção de sentido? Em um mundo em que tudo vira plataforma, quem controla os recursos passa a moldar as possibilidades.
O jogo, portanto, não é mais controlar diretamente o que as pessoas pensam. Vamos combinar que isso seria simplório para os padrões atuais. O que se reorganiza é o campo onde o próprio pensamento acontece. Aquilo que aparece, se repete, ganha escala ou simplesmente desaparece vai, aos poucos, desenhando o mundo que cada um de nós percebe, de forma cada vez mais individual e fragmentada. Aqui entra uma constatação incômoda: não é necessário inventar uma narrativa falsa quando é possível selecionar, ordenar e reforçar partes da realidade de forma estratégica. O próprio real passa a ser editado. Não se trata de dizer o que pensar, mas de definir sobre o que vale a pena pensar. E, com isso, o jogo inteiro muda.
A experiência do mundo passa a parecer coerente, consistente e familiar, ainda que seja apenas um recorte. E, quando esse recorte se repete o suficiente, ganha aparência de totalidade, de realidade. O risco, então, é perdermos a percepção de que aquilo que vemos é parcial. O mundo chega pronto, organizado, priorizado, e passamos a tratá-lo como natural. O que parece preferência pode já vir sugerido. E, de repente, estamos todos vivendo versões bastante convincentes, mas não necessariamente completas, da realidade.
Diante disso, pode surgir a pergunta: mas não é isso que os meios de comunicação sempre fizeram? Há uma diferença fundamental. Antes, ainda havia uma base relativamente comum de informação. Hoje, o que chega para mim pode ser completamente diferente do que chega para você. É como se vivêssemos em realidades paralelas. E, quando o ponto de partida deixa de ser compartilhado, a própria possibilidade de diálogo começa a se desfazer. Um passa a ver o outro como o desinformado, o alienado, o “louco do rolê”. Perdemos o common ground.
Talvez o insight mais relevante que fica do SXSW não seja sobre o que a tecnologia vai fazer a seguir, mas sobre algo mais básico: quem está organizando esse novo mundo? Quem controla esses novos meios? E, parafraseando Caetano Veloso, quem está sendo o “compositor de destinos, tambor de todos os ritmos”? Diante desse cenário, as reações tendem a oscilar entre dois extremos: a desconfiança generalizada, tipo “está tudo manipulado, não há saída”, ou uma espécie de resignação silenciosa, quase confortável. É nesse ponto que a lembrança de Adélia Prado surge como alerta. Se aceitarmos que o mundo está dado, fechado e imutável, corremos o risco de olhar a pedra… e ver apenas a pedra. Perdemos não só o senso crítico e a poesia, mas também a capacidade de imaginar outras possibilidades.
De qualquer maneira, a resposta não pode ser individual. Pensamento crítico é fundamental, mas não no sentido heroico de “eu, sozinho, vou escapar do sistema”. Trata-se de uma prática social, aprendida e cultivada: perceber padrões, desconfiar do óbvio, buscar o que não está aparecendo. Ainda assim, seria ingênuo achar que isso basta. Porque, no fim, a infraestrutura continua lá. E é justamente disso que estamos falando: de sistemas que operam em escala, com lógica própria, atravessando praticamente tudo e (re)organizando as relações de poder. Por isso, essa não é apenas uma questão individual. É uma questão coletiva. Isso passa por educação, para que possamos compreender como funcionam os sistemas que organizam o mundo que vemos. Passa por políticas públicas e regulação, capazes de equilibrar forças e tornar mais transparentes as regras do jogo. E passa, sobretudo, por garantir pluralidade, evitando que uma única lógica determine o que todos enxergam.
Reconhecer isso não é um convite ao pessimismo. É, ao contrário, um convite à ação. A não aceitar o compasso como inevitável. A construir, coletivamente, outras formas de organizar o que vemos, e, com isso, outras formas possíveis de viver o mundo. Porque, no fim, talvez o desafio não seja apenas tecnológico, mas profundamente humano: sermos capazes de distinguir o que é imagem e o que é sombra. E, como nos alertou Platão, ter a disposição de sair da caverna, mesmo quando isso é desconfortável.