Conexão Austin

Por que tamanho já não importa na era da relevância cultural

Crescer deixou de ser sobre escala e passou a depender da capacidade de não ser ignorado

Fábio Brito

Presidente da Leo 19 de março de 2026 - 12h35

Durante muito tempo, crescer foi uma questão de escala. Mais investimento, distribuição e presença de mídia eram suficientes para consolidar liderança em praticamente qualquer categoria.

Hoje, esses fatores continuam relevantes, mas já não explicam, sozinhos, a dinâmica de crescimento.

Ao longo do SXSW, fica evidente a consolidação de uma nova lógica. Marcas emergentes, os chamados underdogs, vêm crescendo em categorias dominadas por grandes players ao transformar produtos comuns em plataformas de marca que operam como cultura. Não se trata de competir melhor dentro do modelo existente, mas de operar a partir de outro, em que atenção, significado e conexão passam a ter mais peso do que eficiência isolada.

Essa mudança vai além da comunicação e aponta para uma revisão na forma como crescimento é construído. Em mercados saturados, onde a escala já não garante diferenciação, ganhar espaço deixa de depender apenas de investimento e passa a exigir capacidade real de gerar interesse. Não basta estar presente, é preciso ser relevante o suficiente para ser escolhido, lembrado e considerado.

É dentro dessa lógica que o crescimento passa a acontecer. Não apenas pelo que essas marcas vendem, mas pelo que representam. O produto deixa de ser fim e passa a ser meio, o marketing deixa de ser suporte e assume um papel central, e o crescimento passa a ser consequência de algo mais difícil de replicar: relevância cultural.

Há também uma dimensão menos racional nesse movimento. Consumidores não escolhem apenas produtos, escolhem narrativas. Existe uma predisposição natural em torcer por quem desafia o sistema, por marcas que parecem mais próximas, mais humanas e menos previsíveis. É dessa identificação que nascem conexões mais profundas e, a partir delas, comunidades que sustentam relevância ao longo do tempo. Nesse cenário, o risco também muda de lugar. Em um ambiente saturado, não é o erro que compromete crescimento, mas a incapacidade de gerar atenção e conexão. O que não cria vínculo simplesmente desaparece.

A forma de operar acompanha essa transformação. Estruturas mais enxutas, com menos camadas e maior proximidade entre ideia e execução permitem velocidade e consistência. Nesse ambiente, velocidade não é apenas eficiência operacional, mas a capacidade de responder à cultura enquanto ela ainda está acontecendo.

As discussões ao longo do festival deixam claro que escala, isoladamente, já não sustenta vantagem. Em um ambiente com menos barreiras de entrada, criatividade, agilidade e leitura cultural passam a ter mais peso. Para empresas estabelecidas, o desafio não está em copiar a estética dessas marcas, mas em incorporar a lógica que sustenta o seu crescimento, equilibrando velocidade e proximidade com a cultura sem abrir mão da consistência.

O SXSW não apresenta uma nova fórmula, mas explicita uma mudança de critério. Crescimento deixa de estar associado apenas à capacidade de amplificar mensagens e passa a depender da construção de algo que as pessoas queiram acompanhar, compartilhar e defender.

No fim, a revolução dos underdogs não é sobre quem está crescendo agora, mas sobre como o crescimento passa a acontecer. O jogo mudou. Vantagem competitiva deixou de ser sobre tamanho ou recursos e passou a ser sobre relevância e a capacidade de ser interessante o suficiente para não ser ignora.