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Quando a tecnologia acha sua origem, a da experiência humana

A inovação real nasce da vulnerabilidade e do repertório humano, usando a tecnologia apenas como ferramenta

Juliana Soncini

Diretora de marketing da Havaianas LATAM 19 de março de 2026 - 12h08

Em um SXSW 2026 atravessado por discussões sobre inteligência artificial, duas das palestras mais aguardadas do festival apontaram para um lugar menos óbvio. Não para longe da tecnologia, mas para aquilo que continua vindo antes dela: a experiência humana.

No keynote de Steven Spielberg, a conversa sobre trajetória, cinema e futuro inevitavelmente voltou à origem da criação: o repertório de vida. No caso dele, isso aparece de forma quase simbólica em Tubarão. Por trás de um dos filmes mais emblemáticos da cultura pop existe também a imaginação de uma criança atravessada por medos, pesadelos e pela tentativa de dar forma ao que a assustava. Foi assim que Spielberg transformou inquietações pessoais em narrativas capazes de marcar gerações e se tornar sucessos absolutos de bilheteria.

Na conversa de Serena Williams com empreendedores de health innovation, o mesmo ponto surgiu por outro caminho, mas com a mesma força. As soluções apresentadas não nasceram da abstração ou da tecnologia pela tecnologia. Nasceram de dores reais, de experiências vividas no próprio corpo e de falhas estruturais sentidas de perto. Uma das empreendedoras no palco, por exemplo, transformou sua experiência com uma gravidez de alto risco em um negócio voltado a apoiar outras mulheres.

À primeira vista, são universos distantes. De um lado, um dos maiores diretores da história do cinema. Do outro, Serena Williams e fundadores discutindo saúde, acesso e inovação. Ainda assim, os dois palcos convergiram para o mesmo ponto: a tecnologia pode ser ferramenta, escala e aceleração, mas a criação quase sempre nasce em outro lugar.

Ela nasce da vulnerabilidade.

Nasce do repertório de vida.

Nasce do medo, da dor, da falta e da urgência de transformar experiência em resposta.

Talvez por isso a melhor forma de ler o SXSW 2026 não seja como um evento menos tecnológico, mas como um festival que tenta recolocar a tecnologia em perspectiva. A ferramenta continua central. Mas a origem segue sendo humana.

No fim, Spielberg, Serena e os demais empreendedores no palco ajudam a lembrar algo fácil de esquecer em ambientes obcecados pelo novo: nenhuma tecnologia substitui a origem de uma ideia. Ela pode ampliar, acelerar e sofisticar processos. Mas aquilo que realmente cria continua vindo da experiência humana, com toda a sua complexidade, vulnerabilidade e potência.