Instituto Natura cria Movimento Pela Vida das Mulheres
Nos 20 anos da Lei Maria da Penha, iniciativa reúne organizações e poder público para conscientização sobre violência contra mulher

Instituto Natura e Avon criam Movimento Pela Vida das Mulheres nos 20 anos de Lei Maria da Penha (Crédito: Divulgação)
Nos 20 anos da Lei Maria da Penha, celebrado no dia 7 de agosto de 2026, um dos maiores desafios para o enfrentamento da violência contra a mulher no Brasil ainda é reconhecer que ela existe. Embora a legislação tenha ampliado os mecanismos de proteção às vítimas e se consolidado como um marco no combate à violência doméstica e familiar, milhões de brasileiras ainda não identificam espontaneamente situações de agressão, controle, humilhação ou restrição de direitos como formas de violência.
Frente a esse cenário, o Instituto Natura e a Avon acabam de anunciar, neste Agosto Lilás, mês de conscientização sobre a causa, a criação do Movimento Pela Vida das Mulheres. A missão é ampliar a capacidade da sociedade de reconhecer a violência e saber como agir.
A iniciativa, que pretende manter ações contínuas de conscientização até 2035, reúne organizações da sociedade civil, empresas e poder público e tem como primeira ação a campanha Somos Maiores que a Violência, que amplia o trabalho iniciado em 2025 com Chame pelo Nome.
Além de ajudar a identificar formas de violência muitas vezes naturalizadas, a nova campanha busca orientar familiares, amigos, colegas de trabalho e vizinhos sobre como oferecer apoio de maneira segura.
Mulheres não reconhecem violência de gênero
A iniciativa do Instituto Natura parte de pesquisas que apontam a falta de reconhecimento da violência de gênero por parte das mulheres brasileiras.
Segundo dados da Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher (2025), realizada pelo DataSenado em parceria com o Observatório da Mulher contra a Violência (OMV), apenas 4% das brasileiras com 16 anos ou mais afirmaram espontaneamente ter sofrido violência doméstica ou familiar nos 12 meses anteriores ao levantamento, o equivalente a aproximadamente 3,7 milhões de mulheres.
No entanto, quando as entrevistadas foram apresentadas a 13 situações concretas de violência física, psicológica, sexual, moral e patrimonial, esse percentual saltou para 33%, o equivalente a cerca de 29 milhões de brasileiras. A diferença revela que aproximadamente 24 milhões de mulheres somente reconheceram a violência após serem estimuladas a refletir sobre experiências específicas.
Outro dado que reforça o desafio da conscientização é que oito em cada dez brasileiras afirmam conhecer pouco ou nada sobre a Lei Maria da Penha.
Os dados integram o Mapa Nacional da Violência de Gênero e foram apresentados durante o lançamento do movimento, liderado por Avon e Instituto Natura, mas que também conta com a parceria do Instituto Maria da Penha, Senado Federal, Grupo Mulheres do Brasil, No More Brasil e Gênero e Número.
Para Maria da Penha, fundadora e presidente de honra do Instituto Maria da Penha, o cenário demonstra que a existência de uma legislação robusta, embora fundamental, não garante, por si só, que as mulheres consigam identificar situações de violência e buscar proteção.
“Ainda há milhões de mulheres que vivem situações concretas de violência sem reconhecê-las como tal, enquanto grande parte da sociedade não sabe como ajudar. Isso mostra que ter uma lei forte é indispensável, mas não suficiente. Precisamos fazer com que a informação chegue às pessoas”, afirma.
Falta de informação para agir
A falta de conhecimento não se limita às vítimas. O Índice de Conscientização sobre Violência contra as Mulheres 2025, desenvolvido por Instituto Natura e Avon, aponta que 62% dos brasileiros afirmam não ter informação suficiente sobre leis, tipos de violência e canais de denúncia para ajudar uma mulher em situação de violência.
Os resultados revelam que, embora a violência de gênero seja um tema cada vez mais presente no debate público, ainda existem lacunas importantes sobre como reconhecer os diferentes tipos de abuso e quais atitudes tomar diante deles. Essa falta de informação contribui para que a violência permaneça invisível por mais tempo e dificulta o acesso das vítimas às redes de apoio.
Desafio que ultrapassa o sistema de Justiça
Ao completar 20 anos, a Lei Maria da Penha permanece como um dos principais instrumentos legais de enfrentamento à violência contra a mulher no Brasil. Os dados, no entanto, sugerem que seu sucesso depende também de um esforço contínuo de educação e mobilização social.
Nesse sentido, especialistas defendem que o desafio da próxima década será fazer com que mulheres, famílias, empresas e comunidades consigam reconhecer os sinais da violência antes que ela alcance seus estágios mais graves.
Por isso, o papel de empresas, marcas e da indústria em campanhas de conscientização pode se tornar parte da estratégia de prevenção de uma das mais persistentes violações de direitos humanos no País.