O que nossas festas deixam para o planeta?
Quando o verão termina, o que deveria ficar nas cidades não são montanhas de resíduos, mas a memória da alegria

(Crédito: ThalesAntonio/Shutterstock)
À medida que o verão chega ao fim no Brasil, encerramos também uma das temporadas mais intensas de celebração coletiva do país. Entre réveillons, festivais, blocos de rua e o próprio Carnaval, milhões de pessoas ocupam praias, avenidas e praças para celebrar a cultura, a música e a alegria. Mas quando a música acaba e as ruas esvaziam, o que resta muitas vezes é um retrato menos festivo: toneladas de resíduos espalhados pelas cidades.
Os números ajudam a dimensionar a escala do desafio. No Carnaval de 2026, apenas um dia de operação de limpeza no Rio de Janeiro resultou na coleta de 243,7 toneladas de resíduos, enquanto o primeiro fim de semana de megablocos gerou 59,4 toneladas de lixo nas ruas da cidade.
O cenário não é novo. Em 2024, quatro capitais brasileiras, Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte, somaram quase 5 mil toneladas de resíduos durante o período da festa. E não se trata apenas de volume. Grande parte desse lixo é composta por copos descartáveis, latas, garrafas plásticas, fantasias e acessórios que são usados por poucas horas e descartados logo depois.
O paradoxo do Carnaval é conhecido: ao mesmo tempo em que gera pressão ambiental, ele também movimenta uma cadeia econômica gigantesca.
A festa ativa turismo, moda, bebidas, música, transporte e entretenimento, além de gerar renda para ambulantes, artistas e trabalhadores temporários. Em cidades como Salvador, que recebe milhões de foliões todos os anos, o Carnaval funciona como um verdadeiro motor econômico e cultural.
Esse peso econômico também explica por que as marcas disputam cada vez mais espaço na festa. Patrocínios de blocos, camarotes, festivais e ativações de marca transformaram o Carnaval em um dos territórios mais relevantes para marketing no Brasil. Durante muito tempo, o papel das empresas foi relativamente simples: estampar a marca em trios elétricos, distribuir brindes e garantir visibilidade.
O Carnaval virou também um teste de estresse para os sistemas urbanos de gestão de resíduos e, nesse contexto, as empresas que lucram com a festa começam a ser cobradas por um papel mais ativo na sua sustentabilidade.
Alguns projetos já apontam caminhos. Em Salvador, iniciativas de reciclagem ligadas à festa retiraram mais de 140 toneladas de materiais recicláveis das ruas, gerando renda para cooperativas e trabalhadores da cadeia da reciclagem em um mega esquema operação dentro do circuito com pagamento imediato aos trabalhadores.
Existe também um outro campo de inovação pouco explorado pelas marcas nas festas de rua: o cuidado com quem está nela. Em todo o Brasil, o calor do verão se mistura com horas de folia nas ruas, pontos de hidratação gratuitos podem fazer uma diferença enorme para a experiência do público. Instalar estações de água potável ou incentivar o uso de garrafas reutilizáveis é uma ação simples, mas que reduz o consumo de plásticos descartáveis e contribui para a saúde dos foliões.
Esse tipo de iniciativa mostra como o marketing pode evoluir. Em vez de distribuir apenas milhares de abanicos de papel ou brindes que rapidamente viram lixo, marcas têm a oportunidade de oferecer serviços reais para quem está na rua, seja com hidratação, gestão de resíduos ou infraestrutura urbana temporária.
O Carnaval sempre foi um laboratório de criatividade brasileira. A mesma inventividade que transforma ruas em espetáculo também pode reinventar a forma como celebramos. Isso passa por novas escolhas estéticas: glitter biodegradável, fantasias reutilizáveis, cenografia circular e experiências que priorizem reuso em vez de descarte.
Porque, quando o verão termina, o que deveria ficar nas cidades não são montanhas de resíduos, mas apenas a memória da alegria.