Late show, risos e arte: o legado de Jô Soares para a mídia

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Late show, risos e arte: o legado de Jô Soares para a mídia

Em 60 anos de carreira, artista, que morreu nesta sexta-feira, 5, em São Paulo, ajudou a pavimentar o caminho do humor na TV e popularizar os programas de entrevistas perante os brasileiros

Bárbara Sacchitiello
5 de agosto de 2022 - 11h21

A comoção nas redes sociais e na mídia tanto por parte da classe artística brasileira quanto do público na manhã desta sexta-feira, 5, quando o País acordou com a notícia da morte do humorista, apresentador, escritor e diretor Jô Soares, dão um pouco da dimensão da importância da personalidade que dedicou 60 dos 85 anos de vida à cultura brasileira, mais especificamente, para a televisão.

 

Jô comandou seu programa de entrevistas na Globo até dezembro de 2016 (Crédito: Ramon Vasconcelos)

José Eugênio Soares, morreu na madrugada desta sexta-feira, 5, no Hospital Sírio Libanês, em São Paulo. A causa da morte ainda não foi divulgada. Estava afastado da TV desde dezembro de 2016, quando fez suas últimas entrevistas no Programa do Jô, talk show que comandou na Globo desde 2000.

Foi no SBT, no entanto, que o humorista começou a explorar – e, posteriormente, consolidou – aquela que, para boa parte do público, foi uma de suas mais brilhantes facetas: a de entrevistador. Em 1987, após ter estrelado diversos programas de humor na Globo, Jô aceitou um convite de Silvio Santos para migrar ao SBT onde realizaria um de seus sonhos: criar um programa de entrevistas aos moldes dos late shows dos Estados Unidos, que já faziam sucesso por lá.

Ao longo de onze anos no SBT, Jô abriu espaço para milhares de convidados, entre anônimos e famosos, para contar histórias variadas, rir e provocar reflexões no palco do Jô Soares Onze e Meia – embora, muitas vezes, o programa fosse ao ar bem mais tarde do que seu nome sugeria.

Em comunicado lamentando o falecimento de Jô Soares, o SBT comentou sobre a importância da atração e sobre o talento do apresentador. “Motivo de alfinetadas bem humoradas de Jô quando o programa começava mais tarde, Jô Soares Onze e Meia foi ponto de encontro dos telespectadores com personalidades da história recente do Brasil, em todos os setores, de empresários a pessoas comuns, de artistas a desportistas, passando por integrantes da política de todo o Brasil e lançando talentos. Além dos convidados, o elenco formado pelo Quinteto Onze e Meia, os garçons Felipe e Alex, os câmeras Juquinha e Eddie Murphy, o contrarregra Tião e o maquiador Charly entravam nas tiradas bem humoradas do apresentador. O bordão “Não vá pra cama sem ele” era o slogan de todo o brasileiro antes de se deitar, sendo obrigatória a passagem pelo SBT para saber quais eram os entrevistados da noite”, destacou a emissora.

 

Jô Soares entrevista o cantor Cazuza no Jô Soares Onze e Meia, no SBT: episódio do programa foi reexibido no projeto (Crédito: Youtube/ TBT SBT)

No ano 2000, em uma daquelas reviravoltas que mexem com a mídia nacional, Jô voltou para a antiga casa – a Globo – levando consigo o estilo do late show e das entrevistas ao Programa do Jô, que ficou na grade até o fim de 2016. Ao todo, entre SBT e Globo, o apresentador conduziu mais de 14 mil entrevistas, muitas das quais são lembradas e compartilhadas nas redes sociais até hoje, como o icônico encontro entre a apresentadora Hebe Camargo e suas duas amigas, as atrizes Nair Bello e Lolita Rodrigues.

Humor e escrita

Antes de abrir espaços aos entrevistados, Jô Soares foi um dos pioneiros dos formatos televisivos de humor. Na década de 1960, na Record, após ter feito peças e trabalhos no teatro e na TV Rio, Jô teve seu primeiro papel de destaque na TV como o mordomo da série “A Família Trapo”, que ele própria definia como a primeira sitcom da TV brasileira.

Estreou na Globo em 1970, no programa Faça Humor, Não Faça Guerra, participando também de várias atrações do humor na década, como Planeta dos Homens, até ter seu próprio show, o Viva o Gordo, onde interpretava diferentes personagens – e de onde veio seu mais famoso bordão, o “beijo do Gordo!”, com o qual sempre encerrava seus programas.

Jô também deixa seu legado na literatura brasileira. Sua mais celebrada obra, o livro O Xangô de Baker Street, de 1995, foi um dos mais vendidos do País e virou filme, em 2001. Antes, já havia escrito o livro O Astronauta sem Regime e depois, em 1998, também escreveu O Homem que Matou Getúlio Vargas. Escreveu artigos e colunas para as revista Manchete e Veja e para os jornais Folha de S.Paulo e O Globo.

 

Personagem Reizinho, uma das atrações do humorístico Viva o Gordo! (Crédito: CEDOC/Globo)

Garoto-propaganda

A versatilidade na carreira e ampla presença na mídia fez de Jô uma figura também muito requisitada no mercado publicitário. Ainda na década de 1960, quando já era ator de teatro e TV, estreou um comercial da Tostines onde não se envergonhava de devorar vários biscoitos da marca para provar a público o quanto eram gostosos.

Para a Brastemp, emprestou seu talento como imitador ao fazer uma paródia do candidato à presidente Enéas Carneiro, em 1989, prometendo descontos verdadeiros. Quando o público brasileiro estava começando a entender a utilidade do telefone celular, em 1995, Jô usou seu humor para mostrar como o telefone móvel poderia auxiliar a comunicação em sua série de comerciais para a Telesp Celular. Seu talento também foi colocado a favor de campanhas de marcas como Varig, Rum Bacardi e Suvinil. Alguns desses comerciais são postados pelo público no YouTube. Veja:

 

 

No comunicado distribuído à imprensa na manhã desta sexta-feira, 5, a Globo destaca as características da personalidade do artista. “Ele sempre foi cheio de graça. O humor na ponta da língua, a inteligência aguçada, o raciocínio rápido e o amor pela arte eram suas marcas registradas. Chorava pelas coisas boas, nunca pela tristeza. Vaidoso, chegou a dizer que ‘já nasceu querendo seduzir o mundo’. E assim o fez, em mais de 60 anos de carreira, com personagens históricos na TV brasileira, mais de 200 personagens e 14.000 entrevistas”, escreveu a Globo.

“José Eugênio Soares, foi um carioca que veio ao mundo para, dentre outras missões, a nobre arte de fazer rir. O SBT se solidariza com todo o público, que tinha em Jô Soares um grande amigo da televisão, e particularmente deseja que Deus conforte seus familiares e amigos”, declarou a antiga casa de Jô Soares.

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