Inovação no mundo corporativo não existe!

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Inovação no mundo corporativo não existe!

Afirmação forte, mas feita com a convicção de quem já trabalhou mais de 25 anos em empresas multinacionais, sendo 15 desses dedicados a transformações digitais


18 de junho de 2019 - 8h58

(Crédito: Pixabay)

Participei de muitas renovações e evoluções bem-sucedidas durante esse período, é verdade, mas vi naufragarem as poucas e genuínas tentativas de inovação com potencial transformador de negócios por onde passei. E não foi por falta de argumentos, energia ou mesmo resiliência.

Inovação requer coragem e implica encarar medo, risco e incerteza, afinal, entramos em território desconhecido, explorando e testando hipóteses, aprendendo com as falhas, buscando encontrar caminhos possíveis. Os comportamentos sublinhados acima, infelizmente, não são incentivados nem reconhecidos no mundo corporativo, mas evitados e, se adotados, podem comprometer carreiras ou mesmo o seu emprego.

Desconheço avaliações de desempenho ou reconhecimento interno que incentivem a um tomador de risco, que tentou fazer algo diferente, falhou, aprendeu e retroalimentou o sistema. Organizações têm muita dificuldade em lidar com a falha e isso compromete iniciativas genuínas de inovação.

Numa conversa com um vice-presidente de RH, propus rever o sistema de remuneração da organização, especialmente o de pagamento de bônus que, mensurado anualmente, incentiva os comportamentos e ações defensivas de entregar o básico, sem correr riscos.

Recebi também um desafio de um CEO, que estava em busca de uma solução para uma característica da empresa, que havia ajudado a construir sua reputação, junto aos consumidores, mas que havia se diluído entre concorrentes nos últimos anos. “Apresente-me algo inovador e que nos recoloque na liderança e como referência sobre esse tema novamente no mercado. Ah! Mas quero ver outros dois ou três exemplos onde o que você irá propor já funciona com sucesso também.”

Oi? No briefing o projeto nasceu morto. Ignorando a preocupação em evitar qualquer risco, junto com outras lideranças foi criada uma solução inédita e com potencial, reconhecido por profissionais fora da empresa e de venture capital. O que aconteceu? Não foi aprovado pela falta de garantias de que iria funcionar.

Somos programados para evitar riscos, temos medo de falhar e essa é uma das maiores diferenças entre os mundos da nova e velha economias. Se existir qualquer alternativa, as pessoas abandonarão o ímpeto da inovação.

Enquanto isso, no ecossistema startup, as falhas são discutidas como forma de fortalecimento e aprendizado. Existe até uma conferência para esse fim chamada thefailcon.com e que tem eventos programados para Recife e Porto Alegre ainda este ano.

A renovação, por outro lado, corre solta e se faz bastante presente nas organizações. Ela traz evoluções dos serviços ou produtos, sem alterar sua natureza principal — novos sabores, embalagens ou extensões de linhas na indústria de consumo e produtos complementares na indústria de serviços, por exemplo.

Iniciativas que implicam “risco de falha” são testadas à exaustão, levando projetos a ciclos de meses ou até anos para sair do conceito à execução. Nesse contexto, as áreas de inovação são extensões do departamento financeiro na tentativa de mapear e mitigar qualquer risco, enquanto poderiam ter budget e autonomia de assumir riscos e apresentar aprendizados às organizações.

Esse contexto faz com que os ciclos de inovação sejam bastante longos e essa complexidade já não reflete a dinâmica de um mundo e ecossistema mais ágeis e em constante evolução. Renovar, portanto, apresenta um sentido de sobrevivência, e não de exploração. Acredito que, atualmente, não assumir riscos, potencialmente, é o maior de todos os riscos.

*Crédito da foto no topo: Reprodução

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