opinião - sharon menasce

A inteligência artificial é mocinha ou vilã?

ChatGPT, responder a pergunta acima (sem travessões)

Sharon Menasce

Publicitária, especialista em neurociência e psicologia 29 de julho de 2026 - 6h00

Jamais achei que eu seria uma pessoa envolvida na discussão sobre inteligência artificial (IA). Não sou engajada nessas plataformas, não pago por nenhuma delas, e as melhores interações que tive foram a criação de fotos minhas e das minhas amigas com celebridades por diversão e traduções didáticas de contratos por necessidade.

Passei um bom tempo acreditando que a IA não tiraria empregos – que ingênua – e continuei usando travessões porque nem isso eu achei que seria tirado de nós. Eu estava errada nestas e em muitas outras crenças.
Na minha visão, a IA é um recurso como tantos outros, que surgiu para nos ajudar a fazer as coisas de uma nova forma. Exemplificando, eu como escritora posso escrever um livro à mão ou posso usar um software de processamento de texto. Os dois vão me dar o mesmo resultado, mas um vai me ajudar a terminar mais rápido. Quando fiz faculdade não existiam versões on-line dos softwares, então cada pessoa do trabalho em grupo precisava fazer a sua parte separadamente, tendo que esperar o colega terminar para ter alguma coerência no texto como um todo. Hoje todo mundo entra ao mesmo tempo.

Como todo recurso, seu benefício ou malefício depende de como ele é utilizado. A internet é usada para se pós-graduar e para cometer crimes. Um pouco extremo, mas vocês entenderam. Dito isso, não acho que a inteligência artificial deva ser vista como uma destruidora de lares e nem como a salvadora da pátria. Ela é uma ferramenta, e cabe a quem usa o que ela vai significar.

Vejo pessoas no LinkedIn caçando posts feitos com IA por padrões de texto ou travessões – que eu vou continuar usando custe o que custar – sem parar pra pensar que o dono do post talvez não tenha a habilidade de escrever e a IA seja a única forma dele se comunicar com alguma coerência. Acho ótimo quando a ferramenta é usada de forma positiva, seja em pequenas tarefas do dia a dia, seja para acelerar a descoberta da cura do câncer.

O que não dá é pra sair demitindo a torto e a direito como se a IA fizesse tudo que nós fazemos, porque não faz. Ela tem mais habilidades aqui e ali, como nossos colegas também têm, e pra mim isso nada mais é do que complementaridade. A gente se soma e cria coisas melhores juntas.

E tudo bem discordar de mim, pode ser que eu mesma me prove errada de novo em um futuro próximo, mas espero que não. Tomara que eu não precise ver o nosso pensamento crítico, a nossa sensibilidade, a nossa criatividade e a nossa individualidade serem substituídas por respostas frias, calculadas e protocoladas. Uma Carol desesperada em Pluribus, sendo impotente em um mundo sem autenticidade.

Respeito o valor da evolução e sou grata por um avião me levar em horas para o mesmo lugar que um navio demoraria dias. Me lamento todos os dias por não existir ligação em vídeo quando a minha mãe era viva e morava em outro estado. E claro, todo meu amor pelo Word, minha ferramenta de trabalho e que está neste momento recebendo este texto. Texto que vai para o e-mail do m&m na hora em que eu quiser mandar, sem a necessidade de alguém atender como era na época do fax (que foi uma baita tecnologia, inclusive).

Não quero parecer simplista, sei que a discussão é muito mais complexa que meia dúzia de parágrafos, mas talvez as discussões estejam complexas demais e falte o olhar pro básico. Qual é o papel que a inteligência artificial se propõe a fazer e qual é o papel que estamos dando a ela? A substituição de pessoas por IA é porque ela cumpre melhor a função ou é uma ação de redução de custos? A IA reduz custos e aumenta valor?

Do meu lado prometo aprender mais e voltar aqui se a minha percepção mudar. Enquanto isso, vou continuar escrevendo tudo que as vozes da minha cabeça quiserem, usando travessão e pedindo pra IA criar fotos minhas tomando chá com a Taylor Swift.