Maximidia 2026

“Sucesso é ter relações de qualidade”, afirma Cauã Reymond

Ator fala sobre carreira internacional, criação no audiovisual, empreendedorismo e a busca por equilíbrio emocional

i 30 de setembro de 2026 - 12h30

Cauã Reymond

Cauã Reymond no Maximídia 2026 (Crédito: Máquina da Foto)

Multifacetado é a palavra que melhor define a trajetória de Cauã Reymond. Reconhecido sobretudo como ator por trabalhos em novelas e longas-metragens, como Avenida Brasil, o remake de Vale Tudo e A Viagem de Pedro, ele iniciou a carreira como modelo, estudou psicologia e também desenvolve projetos como produtor, diretor e empresário.

Seu projeto mais recente, com estreia prevista para novembro, é a participação na segunda temporada da série Tudo É Justo, de Ryan Murphy, estrelada por Kim Kardashian, Naomi Watts e Sarah Paulson. Segundo o ator, a gravação de suas primeiras cenas, ao lado de Kim Kardashian e Glenn Close, ocupou uma manhã inteira: foram oito páginas de texto e 14 repetições, de uma das cenas, registradas sob diferentes ângulos.

Reymond explicou, ainda, que a oportunidade em Tudo É Justo surgiu após uma seleção disputada com atores brasileiros e de outros países latino-americanos. Para se preparar para o papel, contou com o acompanhamento de um dialect coach para ajustes de pronúncia e sotaque.

“Posso não ter tido o melhor desempenho do mundo, porque sempre ficamos inseguros, ainda mais ao atuar em outra língua, que é outro desafio, mas tive a sensação de que subi uma casinha, avancei um nível”, disse.

Essa, no entanto, não foi sua primeira experiência internacional. Além de ter recebido, no início da carreira, uma bolsa de estudos para cursar atuação em Nova York, o ator fez uma pequena participação no filme norte-americano Bem-Vindo à Selva (The Rundown, 2003), estrelado por The Rock e Christopher Walken.

Autoria e direção no audiovisual

Além do trabalho como intérprete, Reymond tem ampliado sua atuação nos bastidores do audiovisual. Com mais de 18 anos de experiência em produção executiva no cinema e créditos em títulos como Se Nada Mais Der Certo, A Viagem de Pedro, Reza a Lenda e Uma Quase Dupla, ele assina a idealização da série Jogada de Risco, disponível no Globoplay, que está em trâmites para ser renovada para uma segunda temporada.

A ideia do projeto nasceu da observação de produções internacionais sobre os bastidores do futebol, como a série norte-americana Ballers. A partir dessa referência, Reymond conduziu, ao lado da roteirista Josefina Trotta, uma pesquisa de seis meses para mapear o universo do futebol brasileiro. Além de protagonizar a trama e integrar a sala de roteiro, ele dirigiu duas diárias de gravação.

“Comecei a ter uma entrada muito grande no universo do futebol com algumas pessoas que foram abrindo as portas para mim. E aí nasceu um roteiro que é inspirado na realidade. Eu vendo esse projeto para a Globo seis meses depois. E agora o projeto nasce com uma equipe nova. A Globo trouxe uma outra rodada de pesquisa”, revelou o ator.

Na transição para a direção, Reymond adotou uma abordagem colaborativa com o elenco. “ Isso me traz um prazer gigantesco, porque tínhamos um processo na hora do texto, na hora da direção de tudo, de que a melhor ideia prevalece, sem uma briga de egos por conta da sua ideia. Nesse lugar também foi muito interessante você começar a ser ouvido e ganhar o carinho de que a sua ideia é realmente boa”, afirmou.

O lado empresário

A maturidade profissional também se reflete na atuação empresarial do ator. Depois de anos como rosto de grandes campanhas publicitárias, Reymond passou a investir na criação e no desenvolvimento conjunto de marcas alinhadas ao seu estilo de vida: a Reyou, de cuidados pessoais masculinos, e Biosphere, voltada a um conceito imobiliário de bem-estar e sustentabilidade.

Na Biosphere, ele participa da concepção de espaços de convivência e de soluções voltadas à qualidade de vida em empreendimentos residenciais. O portfólio reúne oito empreendimentos lançados em Fortaleza, na Bahia, em Santa Catarina e no interior de São Paulo.

“Eu penso na área gourmet, na academia, em como as pessoas podem ver o pôr do sol, em como pode ser esse paisagismo. Eu participo desse lugar pra convivência das pessoas ficar mais agradável”, ressaltou Reymond.

Por sua vez, a ReYou, sua marca autoral de produtos de autocuidado masculino, conta com linhas voltadas a cabelos e pós-barba. A empresa busca atender a uma demanda crescente — o Brasil ocupa a segunda posição no mercado global de beleza masculina — e distribui seus produtos em redes como Raia e Venâncio.

“Eu vejo a ReYou crescendo muito porque falamos com todos os tipos de homem. É um lugar novo, que desafia e que traz a minha atenção para um universo completamente diferente, mas é muito prazeroso”, complementou.

Reymond destacou que a escolha dos empreendimentos segue critérios de afinidade pessoal. No início de sua carreira, ele recusou propostas de marcas de cerveja por não consumir bebidas alcoólicas com frequência. Hoje, prioriza investimentos nos quais possa participar diretamente da gestão e da concepção.

A força da televisão

Apesar da diversificação das plataformas de streaming e dos negócios digitais, Reymond enfatizou a importância estratégica da televisão aberta no ecossistema de mídia brasileiro. Para ele, o alcance da TV Globo — cuja novela das nove reúne diariamente cerca de 40 milhões de telespectadores — continua central para a construção de relevância cultural.

Inclusive, seus projetos na televisão continuam. Ele já está confirmando na sequência de Avenida Brasil, novela na qual interpreta Jorginho, que tem previsão de estreia em janeiro de 2027.

“Quando vem Avenida Brasil 2, que não é um remake, é uma continuação, mostra que também estamos querendo dar para o público o que o público quer assistir. Óbvio que queremos tentar superar — o que deve ser muito difícil — a primeira parte de Avenida Brasil, mas se conseguirmos chegar próximo ou no mesmo nível, será lindo”, comentou.

Na visão de Reymond, a concorrência com o streaming elevou o nível de exigência do público na TV aberta. “O que posso falar é que ficou mais difícil para nós que trabalhamos”, opinou. “Fazemos com muito mais cuidado. Temos uma mistura da equipe do cinema que há 15 anos não estava misturada”.

Estrutura emocional

Para conciliar uma rotina intensa de gravações, reuniões corporativas e exposição pública, o ator recorre a um processo contínuo de psicanálise, iniciado aos 14 anos. Vindo de uma infância marcada por perdas familiares e instabilidade financeira, Reymond utiliza a terapia tanto na elaboração de seus papéis quanto na preservação da saúde mental.

Depois de enfrentar episódios de esgotamento emocional, mesmo no auge da carreira, ele estabeleceu limites mais claros entre a persona pública e a vida privada e passou a cultivar práticas de espiritualidade e atenção plena.

“A psicanálise também me traz um lugar de lidar com a exposição, aquele momento onde você tem que começar a entender o que o público pensa, mas quem é você. Sempre fui um cara reservado, mas ao longo dos anos fui me tornando mais reservado ainda. As pessoas que mais admiro hoje em dia no show business mantêm a sua privacidade”, ressaltou.

Na maturidade e no seu processo de autoanálise, o conceito de sucesso de Reymond se distanciou cada vez mais da busca por status e do acúmulo de bens. “Claro que queremos crescer materialmente, queremos ter mais êxito, ter a segunda, terceira, quarta temporada, ter barriga tanquinho, correr, malhar, mas o sucesso está na qualidade das relações e na paz que você consegue construir consigo mesmo”.