Qual o papel dos livros na era da economia da atenção?
Redes sociais despontam como território de promoção de obras e escritores como contraponto à era do brain rot

Dia Mundial do Livro é celebrado nesta quinta-feira, 23 de abril (Crédito: Dean Drobot/Shutterstock)
Nesta quinta-feira, 23, é celebrado o Dia Mundial do Livro. E, em meio a uma enxurrada de conteúdos online publicados todos os dias e a deterioração mental e intelectual causada pelo consumo incessante desses conteúdos – fenômeno que ficou conhecido como “brain rot” (cérebro podre, em inglês) – os livros reemergem como uma ferramenta cada vez mais necessária.
“Os livros ressurgiram, portanto, como um antígeno ao recrudescimento fisiológico, já que a atividade leitora age justamente ao contrário: ela aumenta a velocidade de condução de impulsos nervosos; cria novos circuitos cerebrais e fortalece a memória de curto e longo prazos”, analisa Ana Erthal, professora e pesquisadora pós-doc ECA-USP.
A pesquisadora, no entanto, acha curioso que as pessoas usem as redes sociais, em suas bolhas algorítmicas, como um guia para a leitura. Nos últimos anos, inclusive, surgiu um fenômeno, chamado BookTok, que em que creators publicam vídeos contando curiosidades sobre livros que estão lendo. No TikTok, a hashtag “BookTok” já conta com 77,5 milhões de publicações.
“Os perfis que falam sobre livros na rede têm um potencial calendoscópico. Eles espalham ideias, conceitos, afetos e trechos de narrativas que comovem, que atiçam a curiosidade das pessoas para descobrir mais”, pontua Ana.
No entanto, há um paradoxo, uma vez que ainda não é possível afirmar que as redes impulsionam a volta da leitura. “O que sabemos é que impulsiona o aquecimento do mercado editorial, vide as últimas edições das bienais e o repaginada das livrarias de rua” destaca.
Inclusive, dados da 6ª edição da pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, do Instituto Pró-Livro, de 2024, revelam o contrário: que 53% dos entrevistados não leram nem mesmo parte de um livro, impresso ou digital, de qualquer gênero nos três meses anteriores à pesquisa.
Por isso, mesmo com o impulso das redes sociais, na visão da professora, ainda não é possível celebrar a atividade leitora como disseminada, valorizada ou simplesmente, compreendida em sua relevância fisiológica (como mecanismo da evolução), sociológica (como mecanismo para o pensamento crítico) ou psicológica (como mecanismo para compreensão das emoções).
Pedro Pacífico, influenciador e colunista, mais conhecido como Bookster, reforça que a leitura sempre esteve presente na vida das pessoas e, que o que o fenômeno do BookTok e das redes sociais fez foi tirar o livro de um lugar solitário e colocá-lo de volta na conversa, atingindo pessoas que não se deparavam com esse tema no seu dia a dia.
E, neste ambiente tão acelerado das redes sociais, o livro acaba virando quase que um contraponto, na visão de Bookster. “Ele aparece como uma pausa muito necessária. É um convite para que o usuário deixe a tela e mergulhe em uma história que exige mais da sua própria criatividade”.
Apesar de não contribuírem comprovadamente para o aumento da leitura, as redes sociais e os influenciadores desse segmento podem ser bons “marketeiros” para o reforço deste hábito.
“As redes permitem que o livro deixe de ser apenas um produto e passe a ser uma experiência compartilhada. Quando alguém fala de um livro com emoção em uma postagem e conta sobre a sua experiência com aquelas páginas, há um forte poder de incentivo para outros leitores”, argumenta Bookster. Neste sentido, ele ressalta que clubes de leitura, criadores de conteúdo literários e recomendações espontâneas acabam tendo um impacto nas vendas, uma vez que são honestos e conseguem se aproximar do leitor que está do outro lado da tela.
Ana concorda que se as pessoas souberem detalhes sobre a narrativa, sobre escritores, sobre suas propostas discursivas, sobre o potencial mobilizador de cada obra, talvez haja uma chance de atrair mais leitores para aquisição de livros. “Tem que operar como toda comunicação mercadológica, ou seja, criando desejo, oferecendo uma esfera de valor intangível e um campo simbólico que se conecte com o leitor”, complementa.
Ler ainda não é entretenimento
Ainda que não seja possível comprovar a influência das redes sociais no aumento da leitura no Brasil, o que se pode comprovar são os livros mais vendidos no último ano.
Segundo informações da Nielsen-PublishNews, com informações coletadas por meio do BookScan – que reúne dados de livrarias estabelecidas, como Leitura, Curitiba, Martins Fontes, Travessa e Vila, e dos principais e-commerces de livros do Brasil, como Amazon, Mercado Livre e Magazine Luiza – dos dez livros mais vendidos em 2025, quatro foram os livros de colorir Bobbie Goods, que viraram uma febre ano passado.
A lista também conta com livros de não-ficção ou de autoajuda como Café com Deus Pai 2025, do pastor evangélico Junior Rostirola, e A psicologia financeira, de Morgan Housel.
Para Bookster, esse comportamento de consumo é resultado de como as pessoas enxergam os livros atualmente. “Há um certo entendimento de que a ficção seja perda de tempo, porque não traria um resultado imediato. As pessoas acabam buscando nos livros uma ferramenta de mudança instantânea de suas vidas e aí surgem os livros de auto-ajuda com promessas tentadoras. Eles vendem muito, porque endereçam uma demanda da nossa sociedade utilitarista e imediatista”.
Balada nas livrarias: #Booktok sai das telas
O influenciador enfatiza que a leitura precisa ser cada vez mais apresentada não como obrigação, mas como entretenimento. “Temos que entender que um livro pode ser tão prazeroso como assistir a um filme ou a uma série. Ou seja, não é uma competição, mas há momento para os dois”, argumenta.
Além disso, com as telas comprovadamente atuando de forma prejudicial na capacidade de concentração e aprendizado das pessoas, para Bookster, os livros surgem como uma ferramenta necessária para combater esses malefícios de conteúdos instantâneos e superficiais.
Já em relação aos livros de colorir, na sua visão, eles se assemelham mais a cadernos e, por isso, não deveriam entrar nessa categoria para um ranking de mais vendidos. “A confusão acaba apenas deturpando os resultados do mercado editorial”, frisa.
Desafio anterior
Antes mesmo de qualquer discussão sobre interesse e hábito de leitura dos brasileiros, é preciso olhar para um desafio anterior: a desigualdade. Neste sentido, Bookster ressalta que o MEC Livros, biblioteca digital pública e gratuita lançada no início deste mês pelo governo federal, é essencial pois endereça justamente um ponto essencial: o acesso.
“No Brasil, nem todos têm a oportunidade de ler um livro a hora que quiser. Uma ferramenta gratuita como essa, e que conta com uma curadoria incrível, ajuda a combater esse problema, permitindo que pessoas com acesso à internet possam ler um livro a qualquer momento e de qualquer lugar”, complementa.
Na visão de Ana, o MEC Livros, inclusive é uma excelente oportunidade para uma virada de chave dos brasileiros para a leitura. “Os livros disponíveis gratuitamente já representam a quebra de duas barreiras: preço e acesso”, comenta.
Apesar de brilhante, para a professora, a iniciativa deve vir acompanhada de um processo educativo, que apresente todos os benefícios do ato leitor e como a leitura é capaz de transformar vidas. “A plataforma foi muito bem desenhada, o catálogo disponível é variado e extenso, o prazo para a leitura é adequado e a campanha de divulgação foi bem-feita. Falta, porém, mostrar para a população o que acontece quando lemos e como devemos nos dedicar a essa prática”, opina.
