Jornais revisam apoio a golpe de 1964
Em editoriais, Folha, O Globo e Estadão admitem erro, mas destacam contexto do período
Nessa terça, 1º de abril, terão passados exatos 50 anos desde que um golpe de Estado colocou generais das Forças Armadas no poder executivo brasileiro, tirando à força da presidência João Goulart. O golpe de 1964 agitou toda a sociedade brasileira, especialmente políticos, militares, intelectuais e jornalistas. A mídia, em especial, apoiou em quase uníssono a deposição de Goulart – escolha essa que posicionou a imprensa do lado errado da história, como se verificaria mais tarde.
A efeméride que ora se relembra move os veículos no sentido de uma extensa recapitulação do passado recente brasileiro. Jornais, revistas, programas de rádio e TV e suas propriedades na internet têm publicado materiais especiais sobre o período, repletos de entrevistas, documentos, imagens, análises e opinião. Outro propósito leva a imprensa a refletir sobre o próprio papel durante o processo.
Dos grandes veículos de impacto nacional em meados dos anos 1960, dois continuam ativos: O Estado de S. Paulo e O Globo. Um grande veículo atual, a Folha de S.Paulo, era coadjuvante na época do golpe, mas cresceu muito depois dele – a ponto de ser, hoje, o jornal de maior circulação do País. Os três veicularam editoriais sobre o tema entre o domingo, 30, e a segunda-feira, 31.
Se todos os jornais concordam sobre o equívoco que representou o apoio ao golpe em si, os artigos guardam diferenças quanto às experiências vividas pelo País ao longo de seus 20 anos de ditadura. A Folha, por exemplo, publicou no domingo que “realizações de cunho econômico e estrutural desmentem a noção de um período de estagnação ou retrocesso”. Apesar do tom similar no Estadão desta segunda-feira – “Na economia e na modernização da administração, o regime obteve inegáveis êxitos” – O Globo foi mais crítico: “O que seria uma intervenção cirúrgica, garantidas as eleições presidenciais em 65, prolongou-se por duas décadas. Tempo suficiente para os tenentes dos anos 1920 colocarem em prática, enfim, seu projeto de salvação nacional. E falharam.”
Não por acaso, o diário carioca foi o primeiro a assumir publicamente o equivocado apoio ao golpe militar, em editorial de setembro de 2013. Ao fazê-lo em nome de todas Organizações Globo, o jornal explicou o contexto nervoso que então guiou suas escolhas – especialmente a forte influência da Guerra Fria e os indícios de que João Goulart iniciaria uma reforma populista. Repetiu o tom no editorial desta segunda-feira.
O Estadão voltou-se mais ao contexto histórico, relembrando as Reformas de Base de Goulart, seu esforço pela volta do presidencialismo e sua associação à Leonel Brizola. Pontuou o forte apoio que o golpe teve das elites, citando as 500 mil pessoas na Marcha da Família com Deus pela Liberdade em São Paulo, em março de 1964, e a multidão de 1 milhão que comemorou a deposição no Rio de Janeiro, em 2 de abril daquele ano.
Ainda que critique a face mais violenta e repressiva do regime, a Folha louvou o que considerou positivo no regime: “A economia se diversificou e a sociedade não apenas se urbanizou (metade dos brasileiros vivia em cidades em 1964; duas décadas depois, eram mais de 70%) mas também se tornou mais dinâmica e complexa. Metrópoles cresceram de modo desordenado, ensejando problemas agudos de circulação e segurança.” Também assumiu que errou ao apoiar os militares, mas defendeu que as críticas atuais sobre a posição de outrora não se justificam: “É fácil, até pusilânime, porém, condenar agora os responsáveis pelas opções daqueles tempos, exercidas em condições tão mais adversas e angustiosas que as atuais. Agiram como lhes pareceu melhor ou inevitável naquelas circunstâncias.”
Veja a seguir capas dos principais jornais na época do golpe de 1964. Leia a íntegra desta matéria na edição 1604, de 31 de março, exclusivamente para assinantes de Meio & Mensagem, disponível nas versões impressa ou para tablets Apple e Android.
