A pena e a espada
Há momentos em que é preciso sangrar a pele para as feridas fazerem a doença silenciosa gritar pela cura
Estava conversando com meu amigo Ian Black em um dos intervalos da Conferência do Grupo de Planejamento, no dia 15. Aquela não era uma tarde qualquer. Ken Fujioka e eu havíamos acabado de apresentar o estudo sobre assédio, o Ian não estava lá e queria saber como tinha sido. Foi muito feliz e bem difícil, eu respondi. Não só a apresentação, mas todo esse tempo em cima de um assunto que já não seria simples para quem nunca viveu nem fez ninguém viver constrangimentos, inseguranças, desconfortos, incertezas, fragmentações.
Conheci o Ian há dois anos em um Mesa&Cadeira com a Cindy Gallop que tinha como missão gerar ideias sobre a vinda do Make Love Not Porn para o Brasil. Aconteceu muita coisa daquele dia até hoje, todas, de alguma forma, ligadas àquela Mesa. Engraçado como alguns episódios têm o poder de nos influenciar além da nossa capacidade de compreensão no momento em que acontecem.
O encontro com a Cindy e a recente semana finalizando o estudo sobre assédio tiveram o mesmo efeito sobre mim. Fizeram-me acessar tanta coisa diferente usando tantos sentidos que terminei me encontrando sem saber que eu estava perdida.
Conheci Cindy Gallop no mesmo dia em que eu conheci o Ian, a Thais Fabris, a Mayummi Sato, a Aline Fantinatti, a Olivia Yassudo, a Lia Bock, o Murilo Macul, a Senta Slingerland, o Filipe Techera, a Luisa Martini. Pois é. Estávamos todos lá. Discutindo a relação entre tempo, gênero, autoconhecimento, liberdade, manifestação, sexo e erotismo. Seis dias que incluíram colar lambe-lambes nas ruas de Pinheiros e rodopiar em um pole dance no centro de São Paulo. Os dez dias que passei na Singularity em 2013 me ensinaram muito pouco.
Como explicar o que significa passar uma semana inteira vendo o mundo sob a perspectiva Gallop? Dê um google, talvez você se depare com um anúncio da Gucci onde essa mulher fabulosa, 55 anos na época, usa um microvestido preto e segura uma serra elétrica tendo embaixo de seus pés a pele e a cabeça de um grande urso pardo. Não vou perder seu tempo nem o meu analisando isso. Cindy é Cindy. Em outros tempos, eu certamente diria “quero ser Cindy Gallop”, mas esse filme já foi feito e eu realmente ando bem feliz sendo eu.
Este ano, na 3% Conference, ela lançou um statement: “a diversidade de gênero não vai se tornar uma realidade enquanto o assédio sexual persistir”. Cindy acredita no aumento das mulheres nas posições de liderança e na denúncia como caminhos para acabar com o problema, uma versão de “dead man don’t rape” aplicada aos negócios.
Compreendo o valor desse caminho, faz sentido quando olhamos para cima e vemos homens que passaram anos como gatekeepers, guardadores dos portões que davam acesso às oportunidades e ditadores das regras que ditavam o que precisava ser feito para atravessá-los. Esses homens definiram um jogo e decidiram ignorar que só eles estavam felizes. Sistemas recorrentemente hostis e opressores mais cedo ou mais tarde se encontram com o que plantaram. Vale muito a pena ler Goodbye Gatekeepers no stratechery.com.
Encontrar o Ian quando a apresentação da pesquisa sobre assédio terminou não foi um acaso. Nenhum de nós sabia mas ele estava lá para ser o nó de rede que me conectou de novo com aquele dia há dois anos e com todos os jeitos de agir e transformar o mundo que estavam naquela sala: Cindy e a voz. Olivia e a arte. Mayummi e o sexo. Lia e a palavra. Filipe e as histórias. Murilo e a música.
Ian e eu não temos todo o tempo a mesma visão, principalmente quando tentamos descobrir o melhor a fazer agora. Como a Cindy, ele também acredita que é hora de usar a espada e tocar a pele. Pode ser. Mas eu ainda prefiro usar a pena e tocar a alma. Nada a ver com não agir. Pelo contrário. Narrativas, estatísticas, relatos, imagens podem criar agendas capazes de reconstruir o mundo. Mas, reconheço, em alguns momentos, a espada precisa vir, soltar seu fio e fazer sangrar a pele para criar as feridas que fazem a doença silenciosa gritar pela cura. Essa não é uma imagem que me faz feliz, mas isso, nesse caso, não importa nada.
Pegando emprestado uma ideia que está no parágrafo final de Goodby Gatekeepers: podemos lamentar a mudança ou saboreá-la, mas não podemos detê-la. Aproveite o caminho. O poder flui da descoberta.