Demissões no The Washington Post são só a ponta do iceberg
Cortes recentes revelam uma transformação profunda na mídia, marcada por pressões econômicas, influência política e riscos crescentes à democracia.
A nova dinâmica dos meios de comunicação é bem diferente do que o mundo se acostumou a ver. Se há 20 anos um dono de jornal recebia suas visitas mostrando, orgulhosamente, modernas rotativas e redações gigantescas, hoje a realidade é outra. A tecnologia mexeu nas lógicas de trabalho, o modelo de negócios mudou para sempre. E como consequência desse processo apressado, nunca o bom jornalismo esteve tão ameaçado como agora.
No início de fevereiro, o poderoso The Washington Post fez um corte de 30% do seu quadro de funcionários. Só na redação 300 profissionais perderam seus cargos. Um terço da força de trabalho criativa que, em outros tempos, levantou o escândalo de Watergate – que derrubou o presidente Richard Nixon. Um jornal que soube se modernizar, ultrapassou um milhão de assinantes digitais, mas que teve o sucesso interrompido por causas fora do jornalismo.
Tudo começa em Outubro de 2013, quando o dono da gigante Amazon, Jeff Bezos, compra o tradicional diário da capital americana por nada menos que US$ 250 milhões à vista (preço considerado exagerado para os números do Post). Desde a morte de Katharine Graham, em 2001, a empresa enfrentou problemas de gestão. A neta de Kathy Graham, Katharine Weymouth – nova CEO, parecia ser jovem o bastante para modernizar a empresa, mas os números teimavam em não aparecer. A venda por uma ótima oferta foi a saída aceita pelos acionistas.
Bezos decide fazer do WPost um exemplo de tecnologia avançada. Investe em desenvolvimento, em tecnologia, em digital. De repente, em uma reunião de pauta do Post, estavam engenheiros, desenvolvedores e técnicos, em uma nova lógica pensando na apresentação das notícias. Desse esforço nasceu também o ARC, um CMS (editor de texto para jornalismo) de alta qualidade, logo adotado por várias redações no planeta.
O The Washington Post da era moderna parecia ser exemplo a ser seguido. Só que um dia as preferências políticas atropelaram as boas práticas. O Post é historicamente um meio que apoia os Democratas. Sempre se posicionou na centro-esquerda – e foi um duro crítico ao primeiro governo Donald Trump (2017-2020). É aí que entra Jeff Bezos outra vez.
Pela primeira vez na história moderna, o conselho do The Washington Post decide “neutralidade” em relação às eleições de 2024. O grupo de editorialistas já havia escrito o editorial de apoio à candidata democrata, Kamala Harris. Mas Bezos veta o texto e ordena o jornal a ficar em cima do muro. Acontece que os leitores do Post são identificados com os democratas e, como consequência da decisão de Jeff Bezos, nada menos que 250 mil assinantes cancelaram a assinatura em apenas 24 horas. Nunca se viu debandada assim em nenhum meio de comunicação no mundo.
O caos é ainda pior quando Trump vence a disputa e Bezos aparece ao lado do novo presidente já na posse. O DNA do The Washington Post se altera. Editores se demitem. Até a onda de demissões de fevereiro, acompanhada pela saída do CEO, Will Lewis.
O problema maior do caso WPost não é a guinada à direita do mais tradicional jornal democrata dos EUA, mas os indícios de que o controle dos meios de comunicação ameaçam a democracia – até em um país que historicamente vangloriou-se por defender a Primeira Emenda (aquela das liberdades) acima de tudo. The Washington Post é um claro exemplo de que o capital é mais forte do que a tradição. Em cerca de 13 anos, um dos maiores empresários do mundo ceifou o maior expoente do jornalismo democrático dos Estados Unidos. Por sorte o The New York Times ainda acredita em bom jornalismo e no talento de sua redação.
Em tempos de influenciadores que ocupam lugar de jornalistas no tempo da audiência, em épocas de fake news e de conteúdo produzido por inteligência artificial – e por burrice natural – a perda de referências confiáveis – como o Post – é uma real ameaça à democracia. E, pior, isso parece orquestrado pela estratégia de Donald Trump e seus amigos – como Bezos.
E o Brasil com isso? Tudo o que acontece nos Estados Unidos, de uma forma ou outra, respinga por aqui. Segundo o estudo Mapping News Creators and Influencers do Instituto Reuters, divulgado em Outubro de 2025, o Brasil é o único país da América Latina onde as pessoas se informam mais por influenciadores do que por meios de comunicação conhecidos. Para piorar, o influenciador mais seguido do país é um jovem deputado da extrema-direita, com mais de 25 milhões de seguidores entre Instagram e X (números daquele momento).
Por isso o drama das demissões do The Washington Post é apenas a ponta da crise da informação. Há quem esteja deliberadamente diminuindo a relevância de meios importantes, através de campanhas de difamação (alguém esqueceu da “Globo Lixo?”, há poucos anos?) e outras formas de destruição, mesmo econômica. Quem não entender o quadro claro corre o risco de encontrar soluções inadequadas – e quebrar de vez.
Até as eleições de Outubro muita coisa vai acontecer. Sobrevivem, pelo jeito, aqueles que entenderem as estratégias dos adversários antes do ataque.