Opinião

Digital Humans: novo meio e promessa de abundância cognitiva

Avatares inteligentes avançam como infraestrutura de diálogo e levantam novos desafios de poder e governança

Jose Larrucea

5 de março de 2026 - 18h18

Toda grande transformação começa antes de ter nome. Pequenos sinais se acumulam. Casos isolados começam a se repetir. Até que, de repente, o padrão fica impossível de ignorar.

Foi assim com a internet. Com as redes sociais. Com a publicidade digital. E é assim agora com os Digital Humans, também chamados de digital clones ou digital minds.

Não estamos falando de mais um formato de mídia, nem de uma nova ferramenta de automação. Estamos falando do surgimento de um novo meio cognitivo, baseado em presença digital contínua, diálogo e conhecimento incorporado.

Três mTrês mercados, três velocidades, um ponto de ruptura

A história da publicidade online ajuda a entender o contraste. Nos anos 1990, quando os primeiros banners surgiram, a internet ainda era lenta, fragmentada e pouco acessível. A publicidade digital cresceu, mas no ritmo da própria infraestrutura. Foram necessários muitos anos até que o mercado atingisse escala bilionária.

A Generative AI, por sua vez, nasce em um ambiente completamente diferente. Cloud madura, distribuição global instantânea, APIs, plataformas e uma cultura digital pronta para absorver novas interfaces. Em poucos anos, esse mercado salta para dezenas de bilhões de dólares. E então surgem os Digital Humans.

Dados recentes mostram que esse mercado atingiu cerca de US$ 33,96 bilhões em 2024, US$ 50.26 em 2025, e pode ultrapassar US$ 218 bilhões até 2029, com taxas de crescimento que não encontram paralelo histórico quando comparadas às primeiras fases da publicidade digital.

Isso não é apenas crescimento acelerado. É uma aceleração do próprio tempo histórico. Mas o que muda, de fato, com os Digital Humans? A publicidade tradicional, inclusive a digital, sempre operou sob a lógica da interrupção. Mesmo quando personalizada, ela ainda fala para alguém.

Os Digital Humans mudam essa lógica porque introduzem presença. Não são chatbots genéricos. São entidades digitais capazes de manter diálogo, carregar repertório, aprender com interações e representar estilos cognitivos específicos.

No Brasil, isso já começa a ganhar forma prática. Em “Fale com meu clone”, vemos como clones digitais deixam de ser conceito futurista e passam a operar como extensões cognitivas reais, disponíveis para conversar, explicar, orientar e atender em escala.

Em “Conversas que vendem”, fica claro que o futuro do comércio não está apenas em tráfego ou mídia paga, mas em conversas qualificadas, persistentes e inteligentes. Aqui, o meio deixa de ser mídia. Ele se torna interlocutor.

O impacto real, porém, começa quando entendemos que Digital Humans não escalam apenas mensagens. Eles escalam experiência acumulada.

Décadas de conhecimento, repertório, tomada de decisão e estilo cognitivo deixam de estar presas a uma única pessoa, a uma agenda limitada ou a um corpo físico. Passam a existir como entidades digitais operacionais.

No Brasil, esse movimento começou a ganhar forma concreta a partir de 2024, junto com o surgimento da Eclonomy, conceito que descreve uma economia baseada em clones digitais e mentes artificiais especializadas.

Em 2025, vimos o surgimento de board members digitais, como o Ghion.ai, contratado oficialmente como membro do conselho da Prática, empresa do setor de food service.

Vimos também o clone digital do CEO da Level Group, Fernando di Sora, atuando no segmento de procurement, além do Larruz.ai como um dos primeiros Chief AI Officers digitais e do Hondaku.ai, um monge budista digital voltado à orientação e reflexão.

Já em 2026, surge o Nizai, clone digital de Nizan Guanaes, criado para inspirar diretores de arte e criativos, como destacou Luis Claudio Allan em uma publicação no LinkedIn.

É exatamente desse ponto que nasce o conceito de IKL, Infinite Knowledge Legacy. A ideia de que o conhecimento humano pode deixar de ser efêmero e passar a existir como um ativo vivo, interativo e permanente.

Em termos simples, a Eclonomy descreve uma economia onde o conhecimento não se esgota ao ser compartilhado, onde a presença pode ser multiplicada sem perda de qualidade e onde o valor cresce com acesso, não com escassez.

O IKL é o mecanismo que torna isso possível. A capacidade de transformar conhecimento humano em legado operacional, capaz de atravessar o tempo, escalar impacto e ampliar o acesso à inteligência. São conceitos novos, mas respondem a um problema antigo: a limitação humana frente à escala.

Nada disso, porém, acontece sem tensão. E há perguntas que ainda não têm respostas definitivas.

Quem tem o direito de criar um digital mind? O consentimento pode ser revogado depois que um clone está em operação? Quem governa o ciclo de vida dessas entidades, sua atualização, sua aposentadoria ou sua desativação? O que acontece quando um digital human continua ativo em um mundo que já mudou de contexto, valores ou verdades? Há também a questão do poder. Quem controla os modelos, os dados e as infraestruturas que tornam esses sistemas possíveis? A abundância cognitiva será amplamente distribuída ou concentrada nas mãos de poucos?

Essas perguntas não invalidam o movimento. Elas o qualificam. Ainda assim, a direção parece clara.

Falo como alguém que acompanha a evolução da internet desde o início dos anos 90 e profissionalmente desde 2000, atuando há mais de uma década com inteligência artificial, passando por machine learning, computer vision e, mais recentemente, pela adoção de ferramentas de generative AI desde 2022.

Já vi ciclos de hype seguidos por governança, regulação e amadurecimento se repetirem. O padrão é conhecido. O que muda agora é a velocidade.

Em 2024, fui convidado a falar sobre Digital Interactive Clones em eventos como Future Hacker e Quantum Thinking, em um momento em que quase ninguém sabia exatamente do que se tratava. Na época, apresentei um benchmark de 16 empresas atuando nesse espaço, com casos de uso reais, em diferentes indústrias.

Hoje, o que era exceção começa a virar categoria. Talvez a direção não seja inevitável no sentido absoluto. Mas os incentivos econômicos, tecnológicos e culturais apontam para uma mesma conclusão: a presença digital baseada em conhecimento veio para ficar.

E quando entidades digitais passam a carregar conhecimento, experiência e intenção, abrimos espaço para uma sociedade menos dependente de gargalos humanos e mais orientada à abundância cognitiva. Mais acesso, mais orientação, mais aprendizado, mais tempo para viver melhor.

Os Digital Humans não são apenas uma nova tecnologia. Eles são um novo meio. E, como todo novo meio poderoso, vão redefinir como criamos valor, como nos conectamos e como deixamos legado. O set está vindo. E desta vez, ele carrega conhecimento infinito.