Opinião

O mundo recompensa confiança ou competência?

Uma pergunta que o Mês das Mulheres nos obriga a fazer

Mafoane Odara

Psicóloga, executiva de relações humanas e professora 10 de março de 2026 - 6h00

Quem acha que pode pousar um avião e quem ainda pede permissão para decolar? Uma pesquisa da YouGov, publicada em 2023, mostrou que 46% dos homens acreditam que conseguiriam pousar um avião em uma emergência, mesmo sem qualquer treinamento. O dado viralizou, gerou curiosidade, virou meme, mas ele revela algo estrutural, a diferença entre quem se sente autorizado a agir antes de estar pronto e quem só se permite tentar quando já está plenamente preparado.

Esse comportamento está ligado a três conceitos bem documentados pela psicologia.
O excesso de confiança leva pessoas a superestimar sua capacidade e subestimar a complexidade de tarefas, especialmente quando são técnicas ou pouco familiares.

O Efeito Dunning-Kruger mostra que quem sabe pouco tende a superestimar o que sabe, justamente porque não possui repertório suficiente para reconhecer as próprias limitações.

E a superioridade ilusória explica porque a maioria das pessoas acredita estar acima da média em inteligência, habilidade ou ética, algo estatisticamente improvável, mas psicologicamente comum.

Mas essa não é apenas uma discussão sobre vieses cognitivos, é uma discussão sobre poder cuja assimetria não nasce no ambiente corporativo, ela começa na socialização.

Meninos são incentivados a arriscar, testar limites, ocupar espaço e falar mesmo sem certeza, enquanto meninas aprendem a acertar, agradar, medir consequências e buscar validação antes de se expor. O resultado é um padrão persistente, confiança que antecede competência de um lado; e, competência que ainda não gera confiança suficiente do outro.

No mundo do trabalho, isso se materializa em comportamentos concretos.

Homens tendem a se candidatar a vagas quando atendem parte dos requisitos.

Mulheres, em geral, aguardam cumprir quase todos.

Homens defendem ideias ainda em construção.

Mulheres esperam ter segurança absoluta antes de se posicionar.

Quando erram, eles seguem.

Elas sentem que precisam provar novamente que pertencem.

Isso revela que não estamos diante de uma questão de capacidade técnica, mas de autorização simbólica para ocupar espaço.

Durante anos, e com razão, o debate sobre equidade de gênero concentrou-se em indicadores objetivos: representatividade, remuneração, permanência em cargos de liderança. Esses dados são fundamentais e continuam sendo. Mas há uma dimensão menos visível e igualmente decisiva que ainda recebe pouca atenção: a arquitetura da confiança, quem se sente legitimado a decidir, quem é percebido como pronto e quem acredita que pertence antes mesmo de ser validado.

Quem se percebe como possibilidade?

Quem se sente autorizado a liderar?

Quem acredita que pode decidir?

Quando parte significativa do talento disponível hesita enquanto outra parte avança sem a mesma dúvida, não estamos diante de uma característica individual, estamos diante de um padrão cultural e sem transformar essa dimensão cultural e psicológica, a equidade avança apenas na superfície.

Há ainda um paradoxo importante, um certo nível de confiança é necessário. Ele impulsiona ação, sustenta liderança em cenários de incerteza e viabiliza inovação. O problema não é existir confiança elevada em alguns grupos, é a escassez de confiança internalizada em outros, mesmo quando há preparo, experiência e visão estratégica.

Muitas organizações investem em mentorias, treinamentos e programas de liderança feminina. São passos importantes, mas a pergunta central permanece: que comportamentos a cultura corporativa continua premiando?

Se liderança ainda for associada a rapidez, exposição constante e segurança performática; se cautela for confundida com fragilidade; se assertividade for automaticamente interpretada como competência superior, a assimetria continuará se reproduzindo, ainda que com discursos mais sofisticados.

Equidade real exige revisar critérios implícitos de avaliação e questionar o que entendemos por prontidão e liderança. Abrir portas é fundamental, mas não basta, é preciso transformar a percepção de pertencimento.

Voltemos ao avião.

A questão não é que quase metade dos homens acredita que conseguiria pousá-lo.

A pergunta mais relevante é: por que tantas profissionais altamente qualificadas ainda sentem que precisam de autorização para ocupar a cabine?

Equidade não é apenas garantir acesso, é garantir que confiança e oportunidade sejam distribuídas de forma igualitária. Quando mais mulheres se sentem legitimadas a ocupar espaços de decisão, mesmo em contextos de incerteza, não muda apenas a trajetória individual, muda o padrão de liderança, cultura organizacional e, em última instância, muda a eficiência das próprias organizações.

Essa a verdadeira convocação do Mês das Mulheres: não celebrar apenas quem chegou lá, mas transformar as estruturas que ainda fazem tantas pedirem permissão porque o futuro não precisa de mais pilotos autoconfiantes sem preparo, precisa de lideranças competentes que saibam que pertencem e pertencimento não se concede, se constrói.