O novo luxo corporativo
Experiências, pertencimento e conexões ganham espaço entre executivos e empreendedores
O conceito de luxo está passando por uma transformação importante. Durante muito tempo, ele esteve associado principalmente à posse, bens, exclusividade e àquilo que poucos poderiam acessar. Hoje, porém, atributos como experiência, conexão e pertencimento começam a ganhar um peso cada vez maior na percepção de valor.
E não se trata apenas de uma percepção sobre essa mudança: pesquisas recentes também apontam nessa direção. Um levantamento recente da consultoria McKinsey, com mais de 2 mil consumidores de luxo nos Estados Unidos e na China, mostra que a conexão emocional já aparece como um dos principais fatores de desejo por produtos e serviços de alto padrão. O estudo também aponta que experiências disputam cada vez mais espaço com produtos no orçamento dos consumidores e que a própria ideia de exclusividade está mudando: ela deixa de estar associada apenas à escassez e passa a envolver acesso, reconhecimento e a sensação de fazer parte de determinados círculos.
Embora o levantamento esteja olhando para o mercado de luxo, acredito que essa transformação ajude a explicar um movimento que também começa a ganhar força no universo corporativo, principalmente entre executivos e empreendedores. Em um ambiente no qual produtos premium estão mais acessíveis e em que as ferramentas digitais permitem estabelecer contato com praticamente qualquer pessoa, alguns dos recursos mais valiosos passaram a ser justamente aqueles que não podem ser facilmente escalados e precificados: tempo, atenção, confiança e relações de qualidade.
Isso muda, inclusive, a maneira como enxergamos o networking. Durante anos, ampliar a quantidade de contatos foi tratado como um dos principais objetivos de quem buscava construir uma rede profissional. Hoje, a qualidade dessas relações parece ter adquirido um peso maior. Conhecer muitas pessoas pode ampliar possibilidades, mas uma conversa aprofundada, com a pessoa certa e construída em um ambiente pensado para isso, pode gerar uma relação muito mais relevante do que dezenas de interações rápidas.
É nesse ponto que experiências compartilhadas ganham importância. Um jantar, uma viagem, um encontro ou uma conversa em um ambiente mais reservado podem criar condições para que pessoas se conheçam de maneira diferente daquela proporcionada por uma reunião formal ou por uma interação digital. O valor não está necessariamente na atividade em si, mas no contexto que ela cria para que exista uma troca mais genuína.
Essa lógica também ajuda a entender o crescimento de comunidades e clubes privados voltados a executivos e empreendedores. Existe uma busca crescente por ambientes em que as pessoas encontrem não apenas oportunidades de negócio, mas também identificação com quem está ao redor. Empreender e ocupar posições de liderança envolve decisões complexas e, muitas vezes, uma rotina bastante solitária. Estar próximo de pessoas que compartilham desafios, interesses e ambições semelhantes pode criar uma sensação de pertencimento que dificilmente é reproduzida em ambientes profissionais tradicionais.
Nesse sentido, pertencer a uma comunidade passou a ter um valor próprio. Não se trata simplesmente de ter acesso a um espaço restrito ou a uma agenda de eventos, mas de participar de uma rede na qual as relações são construídas com recorrência e confiança. É essa convivência que pode transformar um contato pontual em uma relação de longo prazo e, eventualmente, em uma parceria, uma indicação ou uma oportunidade de negócio.
A mudança também está relacionada à própria redefinição da exclusividade. O estudo que compartilhei acima mostra ainda que, entre consumidores de luxo, o conceito começa a se deslocar da ideia de algo simplesmente raro ou inacessível para uma noção mais ligada ao reconhecimento e à relevância dentro de determinados círculos. No ambiente corporativo, isso significa que um espaço não precisa necessariamente ser conhecido por todos para ter valor. Em alguns casos, justamente o fato de ser direcionado a um grupo específico é o que permite criar uma experiência mais coerente e relações mais próximas.
Essa é uma mudança particularmente interessante em um momento em que vivemos uma espécie de paradoxo da conectividade. Nunca foi tão fácil se conectar com alguém, falar com pessoas ao redor do mundo, participar de uma comunidade ou alcançar um grande número de pessoas nas redes. Ao mesmo tempo, nunca pareceu tão difícil conquistar atenção genuína e construir relações baseadas em confiança. A internet e as redes sociais resolveram boa parte do problema do acesso, mas não necessariamente o da proximidade.
Por isso, acredito que o chamado novo luxo corporativo tenha menos relação com ostentação e mais com curadoria. Curadoria de ambientes, de experiências e, principalmente, das pessoas com quem escolhemos compartilhar nosso tempo. Para executivos e empreendedores, que lidam diariamente com excesso de informação, reuniões e estímulos, poder estar em um ambiente que cria espaços e oportunidades para conversas relevantes pode se tornar um ativo cada vez mais valioso.
No fim, essa transformação não significa que o luxo tradicional perdeu sua importância. Ela mostra que seus critérios de valor estão se ampliando. Os produtos continuam tendo seu espaço, mas experiências memoráveis, relações de confiança
e o sentimento de pertencimento começam a ocupar uma parcela maior dessa equação.
Em uma sociedade em que quase tudo pode ser reproduzido, compartilhado e escalado, aquilo que exige presença, tempo e confiança tende a se tornar cada vez mais raro. E talvez seja justamente essa escassez que esteja definindo o luxo da próxima geração.