Inovação

O que será do futuro quando todos pensam só no presente?

CEO do Grupo Croma, Edmar Bulla apontou como a fragmentação da atenção e anseio por resultados rápidos afastam pessoas e empresas da criatividade e da preservação de habilidades humanas

i 26 de maio de 2026 - 12h56

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Edmar Bulla, CEO do Grupo Croma, destacou que o mercado não perdoa acomodação (Crédito: Máquina da Foto)

O que existe em sua empresa, hoje, simplesmente pela razão de sempre ter estado ali? Essa foi uma das provocações que Edmar Bulla, CEO do Grupo Croma, fez à plateia do Proxxima 2026 em um painel que foi, de certa forma, na contramão da maior parte dos temas abordados nos principais eventos de inovação do Brasil e do mundo.

Se todo mundo olha – e direciona os esforços – para a tecnologia, que espaço ocupará o humano e as habilidades humanas de questionar, duvidar, se adaptar e imaginar?

A partir da exploração do conceito da hiperfragmentação da atenção, o executivo pontuou que, diferentemente do que muitas pessoas podem pensar, o principal problemas dos negócios e das pessoas na era contemporânea não está na escassez do tempo e sim no excesso de estímulos.

As pessoas, segundo Bulla, não são mais capazes de desacelerar e, de forma geral, vivem constantemente ocupadas em busca do sucesso. “Isso acaba corroendo algo fundamental para as pessoas que é a capacidade de divagar. Estamos em risco de, diante dessa fragmentação da atenção e das atividades, não ser mais capazes de prestar atenção em nada”, colocou.

Colapso do modelo operacional

A partir desse cenário de menor espaço para o imaginativo, o CEO do Grupo Croma sentenciou que boa parte das empresas está fadada ao que chamou de colapso de modelo operacional, caso a eficiência continue sendo o principal item a ser alcançado.

Bulla apontou que a eficiência, atualmente, não é mais um diferencia operacional. A vantagem competitiva estará na capacidade de interpretar mudanças antes dos concorrentes.

“As pessoas precisam investir em interpretação, adaptabilidade, repertório, imaginação estratégica e leitura cultural. A vantagem competitiva será cognitiva. A habilidade simples de ter dúvidas é um dos assets mais subestimado nas organizações porque sempre fomos treinados a evitar o erro”, disse.

Assim como a dúvida, o executivo também alertou sobre como a curiosidade é pouco valorizada dentro das organizações, que estão cada vez mais voltadas ao alcance de resultados a curto prazo, deixando pouca ou nenhuma margem para experimentos e riscos.

Qual é a verdadeira relevância?

A partir dessa análise, o executivo e pesquisador apontou a grande lacuna existente entre a preocupação em capacitar executivos para operar plataformas tecnológicas em detrimento à preparação dessas pessoas em relação às chamadas inteligências humanas. “O desafio hoje é emocional. Precisamos desapegar de roteiros para transformar o negócio. Sabemos que é muito difícil dar saltos no escuro, mas não podemos ficar atrás somente de metas lineares de curto prazo. Se todos se preocuparem com o almoço, quem irá cuidar do jantar?”, questionou.

Bulla trouxe aos presentes, ainda, uma visão mais cética em relação ao uso da inteligência artificial no cotidiano. Apesar da automação e eficiência na produção e execução, o executivo destacou que a IA não será capaz de atuar nas áreas cruciais da transformação humana e social, que são a imaginação, construção de repertório e sensibilidade cultural.

“O futuro pertencerá a quem tiver capacidade de fazer melhores perguntas, melhores conexões culturais e melhores leituras interpretativas”, colocou.

Por fim, o executivo destacou que as empresas não devem travar no processo de inovação por medo de canibalizar suas atividades, uma vez que a inevitável transformação de comportamentos e social tornará, inevitavelmente, o modo de produção e a atuação daquela empresa obsoletos.

“É melhor canibalizar a si mesmo do que ser canibalizado pelo futuro. Não há setor imune às mudanças tecnológicas e comportamentais. As empresas sempre pensam que terão muito tempo para se adaptar. Mas a eficiência que é focada nas metas lineares serve somente para o presente, mas não resolvem o futuro. E o mercado não tolera acomodação”, encerrou.