Achatamento criativo: os riscos da IA para o pensamento
Especialistas em IA e educação defendem foco em soft skills e no saber tácito para formação de profissionais
Embora benéfica em muitos campos, a inteligência artificial é tratada como ameaça à processos humanos de aprendizado, criatividade e pensamento crítico. Quando introduzida ainda em idade de formação cerebral, os perigos são maiores e se espalham para o campo social. O tema foi pauta preponderante na trilha de tecnologia e IA no primeiro dia do South by Southwest 2026, no qual houve um crossover entre conteúdos de educação e inovação.

Painel “How to Support Resilient Youth in an AI World” reuniu representantes da educação, produção de conteúdo, do Google DeepMind e empreendedores de IA (Crédito: Divulgação)
O aprendizado, a criatividade e demais capacidades humanas associadas ao pensamento são fruto de esforço – e até certa dificuldade – mental, no qual o indivíduo precisa se esticar para além dos recursos que têm para alcançar alguma recompensa ou atingir determinado nível.
Uma vez que a IA oferece um atalho para a maioria dos problemas, o uso mais frequente de determinadas áreas do cérebro diminui e, portanto, pode provocar sinais de atrofia cerebral, ou seja, o declínio de de habilidades naturais ao ser humano e comprometer a consolidação de memórias e entendimento sobre a ação feita com auxílio da tecnologia.
A curiosidade humana sobre o funcionamento de alguns produtos também diminui conforme eles se tornam “caixas pretas”, apontou Izzat Jarudi, co-fundador e CEO da Edifii, empresa que desenvolve uma IA para estudantes, conselheiros e pais com base em neurociência.
Olivia Joseph, mestranda de computação e cognição do MIT, observa uma homogeneização da linguagem, achatamento no tom dos textos e na criatividade, uma vez que a IA oferece padrões previsíveis e o conteúdo deixa de considerar as nuances e individualidades do autor.
“O ChatGPT pode gerar um esboço para qualquer coisa que você queira escrever em questão de segundos. Mas o problema é que você está perdendo todas essas outras conexões que poderia ter feito em todos os seus esboços fracassados que você fez antes mesmo de ir ao ChatGPT. Existe uma predeterminação que acompanha a IA e você se afasta de toda a multiplicidade de ideias que você, como ser humano, tem o tempo todo, quando apenas delega todos os seus pensamentos. Confie em si mesmo primeiro, determine para onde você quer ir, e então a IA pode ser um amanuense, um ajudante”, propôs Ifeoma Ajunwa, professora e reitora da Emory School of Law.
Por outro lado, Mike Pell contou que se apoia bastante na IA para ter novas ideias. O problema, disse ele, é se apoiar demasiadamente na tecnologia. Um exercício de equilíbrio é tentar recorrer ao seu repertório pessoal antes de ir para a IA numa primeira oportunidade.
Consequências sociais
Em última instância, a falta de recompensa mental depois de um trabalho árduo pode provocar a perda de sentimento de realização e propriedade sob as criações, desmotivando o indivíduo e, potencialmente, elevando sintomas de ansiedade e depressão. Segundo Rebecca Winthrop, diretora e fellow sênior do Brookings Institution, crianças e adolescentes já se questionam seu papel na sociedade e motivação para frequentar instituições de ensino já que “a IA sabe tudo”.
Para o educador e co-autor de “The Self-Driven Child”, “What Do You Say?” e “The Seven Principles of Raising a Self-Driven Child”, Ned Johnson, a falta de autonomia e confiança inibe a motivação para realização, o que leva a questões de saúde mental. O educador defende uma educação que não protege excessivamente a criança, para que ela aprenda a lidar com a falha e aprendizagem. “As crianças devem poder brincar sem muitas regras e os adolescentes veem poder seguir suas paixões”, disse.
Ao mesmo tempo que essa ascensão tecnológica provoca uma sobrecarga mental, ela estimula um movimento de contracultura. Maureen Polo, CEO da produtora Hello Sunshine, fundada pela Reese Witherspoon, observa uma “rebelião analógica” entre a geração Z, que tem gozado do seu tempo fora das telas de forma intencional, presente e em atividades analógicas e que promovem conexão, como a participação de eventos presenciais, trocar cartas, entre outros.
Soft skills no trabalho
Diante da efusão tecnológica, os painelistas sublinham a importância do conhecimento da IA como capacidade necessária em processos seletivos atuais. No entanto, os soft skills devem ser valorizados pelas empresas, indicou Ifeoma. São elas: pensamento crítico, gestão de tempo e liderança. “Crescemos em uma era na qual era falado que precisávamos de um diploma para ter um set de soft skills. Hoje, a importância recairá menos no diploma e sim nas competências”, colocou a professoras.
AI adaptativa
Em contraponto, enquanto a IA apresenta riscos ao pensamento humano, ela também é uma ferramenta importante para pessoas neurodivergentes, afirma Martin McKay, executive chair e fundador da Everway, empresa focada em tecnologia neuroinclusiva. A tecnologia pode ser aliada na adaptação de exercícios e conteúdos para pessoas com dislexia, TDAH, autismo e demais transtornos, diz. Ela também pode auxiliar professores em economia de tempo para focar em atividades mais complexas e que estimulam o pensamento crítico e desenvolvimento de soft skills, apontou.
Futuro da educação
Os professores de ensino fundamental, médio e superior afirmam que a categoria enfrenta uma crise de engajamento dos estudantes, que não vão às aulas e deixaram de ter contato próximo com professores e demais colegas quando a IA passou a ser colega de trabalho, amigo e conselheiro de relacionamentos. Esse uso enfraquece o laço de confiança institucional.
Conforme Rebecca, a maioria dos estudantes se encontra na categoria apelidada pelo Brookings Institution como “passageiros”, que são os que fazem o mínimo necessário para passar de ano ou obter notas satisfatórias sem interesse real no conteúdo. O objetivo dos educadores deve ser torná-los exploradores, ou seja, impulsionado pela curiosidade e resiliência e que usam a IA para aprofundar seu aprendizado.
O professor de engenharia mecânica do MIT, Sanjay Sarma, defende uma transição no modelo de aprendizagem no qual o foco deixa de ser o pensamento explícito dos fatos e regras e passa a ser o conhecimento tácito, baseado na intuição e demais experiências humanas não tangíveis às máquinas. “A humanidade tem vasto conhecimento implícito. Nosso sistema educacional é baseado em conhecimento explícito. É um sistema criado para criar robôs. E os verdadeiros robôs chegaram agora. Temos que lembrar o que é ser humano”, afirmou.
Já Chris Gabrieli, chairman do board de educação superior de Massachusetts, propõe um modelo de avaliação baseada em competências demonstráveis ao invés de tempo na instituição de ensino ou entrega de trabalhos escritos, que podem ser gerados por IA. A proposta também tem como sugestão o estímulo a discussões em sala de aula, no qual o aluno participa ativamente com contribuições autorais. Da mesma forma, Mike Pell, líder do laboratório de inovação Microsoft Garage e inventor do PDF, defende que o sistema educacional deve ter como peça central o desenvolvimento de soft skills.
Os especialistas também sugerem que o design dos modelos de linguagem provoque o usuário a aprofundar seu conhecimento questionando-o e estimulando o debate e a formação de pensamento crítico.
No Gemini há modos de uso configurado para o ambiente escolar e para crianças e adolescentes que oferecem o que Miriam Schneider, diretora de iniciativas de aprendizagem no Google DeepMind, descreveu como “aprendizado guiado”, no qual a IA faz perguntas, oferece ideias e conecta conceitos relacionados para garantir que o estudante mantenha o esforço cognitivo necessário para o aprendizado real. Nesses modelos, os dados de menores de 18 anos não são coletados para treinamento de modelos, há filtros de segurança para evitar exposição a conteúdo inadequado, supervisão parental e a linguagem é adaptada para o público-alvo.
A Microsoft também trabalha em modelos que propõem alguma fricção ao usuário e não funcione apenas com perguntas e respostas.
Nos âmbitos políticos, os palestrantes esperam uma regulação que proteja crianças e adolescentes nesse ambiente.



