Brené Brown e Adam Grant: é preciso falar sobre líderes narcisistas
Pesquisadora e psicólogo investigam o que está por trás de lideranças narcisistas e seus impactos

Adam Grant e Brené Brown (Crédito: Divulgação)
Logo antes de darem início à gravação do podcast ao vivo – em uma sala desproporcionalmente pequena para quantidade de pessoas que fizeram fila para vê-los – Adam Grant e Brené Brown anunciaram o The Curiosity Shop, videocast semanal que estreará na próxima quinta-feira, 19.
As conversas entre a dupla serão pautadas por notícias que estejam atraindo a atenção do público naquele momento, sob a premissa de entregar aos ouvintes algo que traga reflexões mais lúcidas em um vasto mar de ditos especialistas que falam de assuntos sérios – sem que tenham, muitas vezes, embasamento para abordá-los.
Um dos exemplos recorrentes disso nas redes sociais e no YouTube são as análises sobre narcisismo. A lista é longa e vai de “10 passos para descobrir que seu cônjuge é um narcisista” a “Descubra se você foi criado por uma mãe narcisista”.
Tanto que, antes de mergulhar na pergunta que norteou toda a sessão – por que as pessoas são tão vulneráveis a lideranças narcisistas? – Brené fez questão de pontuar que eles não estavam ali para falar sobre critérios de diagnótico de transtorno de personalidade narcisista.
“Sou uma trabalhadora social, Adam é psicólogo. Viemos falar de padrões que observamos em lideranças que podem ter elementos em comum com o narcisismo. Começamos a usar muito a palavra: ‘Ah, ela ou ele são tão narcisistas, todo podcast passou a falar de pessoas criadas por narcisistas’”, criticou.
Por que o líder narcisista atrai?
De maneira resumida, quando alguém se sente assustado e inseguro, a liderança de um narcisista oferece conforto – antes de virar uma catástrofe. Sob a lente da vulnerabilidade, tópico bastante estudado por Brené, o narcisismo nada mais é do que o medo baseado na vergonha de parecer comum aos olhos do outro.
Grant, por sua vez, adicionou a questão do bullying como parte do narcisismo. Quando era intimidado por colegas da escola por ser muito quieto, sua mãe lhe dizia: “Eles fazem isso porque se sentem mal consigo mesmos”. No entanto, ao ingressar na universidade, percebeu que a leitura era equivocada: narcisistas não têm baixa autoestima. Possuem autoestima alta, mas instável. “Elas têm uma visão inflada do quão boas são”, classificou.
Em uma empresa, portanto, a liderança narcisista causa impacto estrutural ao provocar uma erosão geral de confiança, inclusive sobre estruturas organizacionais com as quais as pessoas acreditam poder contar. Além disso, esse líder desloca incentivos: o esforço em prol da produtividade e a eficiência do funcionário é redirecionado para como agradar o chefe. Como consequência, a cooperação entre os times é minada.
O estrago provocado pela vergonha como punição
Em algum momento da história, a vergonha foi eficaz: quando o ser humano cometia erros que colocavam o resto do grupo em perigo, pontuou Brené. Hoje, porém, a vergonha nada mais é do que a ameaça ou crença de que se é indigno do amor e da conexão com outras pessoas. Provocar esse sentimento para obrigar alguém seguir normas de uma comunidade ou corporação pode funcionar, mas os impactos negativos sobre o indivíduo são muitos e de longo prazo.
“É uma emoção tão primitiva que sequestra o sistema límbico. Não é como se estivesse no cortex pré-frontal, onde podemos racionalizar e regular”, observou. Grant complementou: a maioria das emoções não existem para impulsionar ações, mas para ensinar ao indivíduo a consequências de suas ações. “O arrependimento é uma master class para tomar melhores decisões”.
Identificando narcisistas no board
Parte do trabalho de Brené é entender as dinâmicas de lideranças de empresas e ajudar a aprimorá-las. Nesses processos, ela entrevista os C-levels, os líderes sêniores e as pessoas que estão na base da hierarquia organizacional. Quando a vontade do líder em vencer é maior do que acertar e fazer o melhor pela empresa.
Ela contou que, muitas vezes, é importante que a liderança tenha um mentor dentro da organização para aconselhá-la, mas, com frequência, essas relações são abusivas, então é preciso ter um plano B.
“Aqui nos EUA estamos vendo as consequências de se ter um líder narcisista. Mas esses não são comportamentos fáceis de mudar”, reconheceu Brené. Para a profissional, a alegria no trabalho vir da previsibilidade e da estabilidade, não do sacrifício.
Na visão dela e de Grant, há dois tipos de líderes narcisistas: o grandioso, que se sente a pessoa mais importante na sala, e o vulnerável, que é menos guiado pelo ego e mais pelo meno de ser pior do que comum. “São os dois lados da mesma moeda, que vem de um lugar de julgamento e falta de autocompaixão”, descreveu Brené.