Do hype da IA à pergunta real: como organizar a sociedade agora
Avanço da IA levanta debate sobre trabalho, valor humano e o papel das pessoas em um mundo automatizado
Eu sempre fico ansiosa para assistir à palestra da Amy Webb. Primeiro porque ela dá um verdadeiro show no palco: narrativa afiada, segurança e uma energia que prende a sala inteira. Depois porque, acompanhando seus trend reports nos últimos anos, percebi o quanto suas análises ajudam a organizar ideias ao longo do ano sobre tecnologia, sociedade e negócios.
Este ano ela surpreendeu mais uma vez. Enterrou simbolicamente o formato antigo de seu relatório e abriu uma nova frente de pensamento: a das convergências tecnológicas.
Até aqui, o SXSW para mim parece orbitar em torno de dois grandes polos que aparecem, direta ou indiretamente, em quase tudo que tenho visto. O primeiro deles vem justamente da apresentação da Amy Webb: o conceito de “unlimited labor”.
A ideia é simples e ao mesmo tempo radical. Pela primeira vez na história, a tecnologia passa a oferecer a possibilidade de suprir a maior parte do trabalho hoje realizado por pessoas. Máquinas não se cansam, não sofrem fadiga de atenção e podem operar em escala praticamente infinita. Ao mesmo tempo, a internet que começa a se desenhar no horizonte não parece mais ser construída prioritariamente para humanos, mas para agentes e sistemas inteligentes.
Se esse cenário se confirmar, o impacto não é apenas tecnológico, é estrutural. O paradigma da sociedade muda porque o trabalho deixa de ser o principal motor da produção. Passamos a ter algo inédito: escala sem população, produção desvinculada de salários e produção sem pessoas.
Confesso que não me sinto exatamente otimista ao olhar para esse futuro. Não porque ele esteja em transformação — isso sempre aconteceu, mas porque ainda não está claro se as transformações colocadas em perspectiva têm como objetivo melhorar a vida das pessoas. E, se isso não estiver no centro da equação, dificilmente o resultado será positivo.
Individualmente, quando escuto sobre os avanços tecnológicos, eles parecem incríveis. Mas quando aplicados ao contexto social e econômico em que vivemos, revelam uma complexidade enorme e levantam perguntas que ainda não sabemos responder.
Se o conceito de “unlimited labor” se concretizar, a produção do mundo poderá acontecer sem depender diretamente da humanidade. A tecnologia executará grande parte das funções que hoje definem o trabalho humano. E isso muda tudo.
Durante séculos, o trabalho foi uma parte estruturante da identidade das pessoas e da organização da sociedade. Se ele deixa de ocupar esse lugar central, uma pergunta inevitável surge: qual passa a ser o valor humano nesse novo contexto?
Talvez esse seja um dos grandes debates que começam a aparecer neste SXSW. Mais do que discutir as capacidades da tecnologia, estamos começando a discutir algo ainda mais fundamental: como reorganizar a sociedade quando o paradigma que sustentou o mundo moderno começa a mudar.
No fim das contas, talvez o desafio daqui para frente não seja apenas aprender a produzir de uma nova maneira. Seja também redescobrir qual é o nosso lugar nesse novo mundo e por que continuamos importando dentro dele.