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Estamos usando IA do jeito errado?

A discussão sobre IA avança da adoção para sua integração nas operações e decisões

Carlos Alves

Vice-Presidente de Tecnologia e Negócios da Cielo 19 de março de 2026 - 10h59

Existe um momento em que toda tecnologia deixa de ser diferencial e passa a ser infraestrutura. A inteligência artificial acaba de cruzar essa linha. No SXSW 2026, o debate sobre o tema mudou. Deixou de ser sobre o que a IA pode fazer e passou a ser sobre como ela opera dentro das decisões.

E, como quase sempre acontece, quando a posição muda, o tipo de problema também muda. Se antes a discussão era sobre adoção, agora passa a ser sobre estrutura. Como desenhar sistemas onde a IA, de fato, opera. Pode parecer uma nuance. Mas não é.

A IA começa a participar e não apenas executar

Em diferentes sessões do evento, um mesmo conceito apareceu sob perspectivas distintas. A inteligência artificial está deixando de ser uma ferramenta de suporte para se tornar um participante ativo dos processos.

Na palestra “Orchestrate or Obsolete: Leading the AI-Powered Near Future”, conduzida pelo futurista Neil Redding, essa mudança foi apresentada de forma direta. A IA não apenas executa tarefas, mas influencia decisões, sugere caminhos e interage com humanos em tempo real. Esse deslocamento muda o jogo. Quando a tecnologia deixa de ser apenas um recurso e passa a atuar como agente, o problema deixa de ser técnico e passa a ser estrutural.

E, junto com isso, surge um desafio menos visível. Construir confiança nesse modelo, garantindo que a autonomia da IA amplifique, e não substitua, o senso crítico humano.

Sem confiança, não existe escala

Mas essa transformação não acontece sem tensionamentos. E um dos temas mais relevantes discutidos no SXSW sobre IA está relacionado à confiança.

Na sessão “AI Safety & Trust: Building Responsible Media Tech”, o debate trouxe um ponto direto. À medida que a IA ganha escala, aumentam também os riscos de distorção, fraude e perda de credibilidade.

A consequência é clara. Se antes a confiança era um efeito do sistema, agora ela precisa ser construída como parte dele. Mesmo com avanços regulatórios, o centro da responsabilidade segue nas empresas. São elas que precisam estruturar governança, definir limites e garantir mecanismos contínuos de validação.

Mas até que ponto é possível escalar mantendo controle? Aqui surge um novo tipo de trade-off: como garantir segurança sem comprometer a velocidade.

O novo equilíbrio entre autonomia e controle

O que emerge desse cenário é um novo tipo de equilíbrio. De um lado, a necessidade de dar autonomia para que a IA gere eficiência e escala. De outro, a necessidade de manter controle sobre riscos, qualidade e impacto das decisões.

Na prática, isso deixa de ser uma discussão conceitual e passa a ser uma decisão operacional. Onde a IA atua com autonomia? Em que tipo de decisão ela influencia? E onde o controle humano continua sendo determinante?

Esse equilíbrio não se resolve com mais tecnologia. Ele se resolve com desenho. Clareza de papéis, organização dos fluxos e disciplina na forma como as decisões são estruturadas.

O diferencial não é mais ter tecnologia

Com a rápida disseminação das soluções de inteligência artificial, o acesso tende a se tornar cada vez mais homogêneo. O resultado é um paradoxo: empresas cada vez mais eficientes, mas não necessariamente mais inteligentes na forma como operam.

Como já vimos em outras transformações, isso desloca o diferencial competitivo. E, de certa forma, esse movimento não é novo. No varejo, por exemplo, algo parecido aconteceu quando a discussão deixou de ser sobre canais e passou a ser sobre integração.

Agora, não basta ter IA. É preciso fazer ela funcionar dentro do sistema. Não se trata de ter mais tecnologia, mas de como ela opera na prática. Empresas que conseguem integrar dados, processos e decisões passam a operar com mais eficiência, menos risco e maior capacidade de adaptação. As outras continuam testando.