O fim da era das tendências
SXSW aponta convergências como chave para entender tecnologia, trabalho e relações humanas
Acompanhar relatórios de tendências virou quase um ritual para quem trabalha com inovação. Frequentemente nos deparamos com listas de tecnologias emergentes, previsões de mercado e novos comportamentos que prometem indicar para onde o mundo está indo. Confesso que por muito tempo considerei esse exercício útil, quase como uma bússola estratégica do que está por vir. Mas, durante o SXSW deste ano, a futurista Amy Webb me fez repensar essa lógica.
Em vez de analisar tendências isoladas, ela propõe que passemos a observar as convergências. Por isso, a futurista decidiu encerrar o próprio relatório em um “funeral” simbólico chamado por ela de “destruição criativa”, reconhecendo que uma ideia outrora inovadora precisava ser desmantelada para dar lugar às necessidades futuras.
Concordo que manter a mesma abordagem ano após ano ignora a realidade da mudança constante que estamos vivendo. Os relatórios de tendências alcançam milhões de leitores anualmente e deram origem a uma prática generalizada no setor. No entanto, o ritmo acelerado das transformações na tecnologia, na economia e nas políticas torna os materiais de tendências estáticos em PDF rapidamente obsoletos.
Foi a partir dessa constatação que a futurista mostrou uma nova abordagem de análise que substitui o mapeamento de tecnologias emergentes por três grandes tempestades tecnológicas que podem redefinir economia, trabalho e, principalmente, relações humanas.
A era dos humanos aprimorados
O primeiro envolve o avanço de tecnologias que ampliam as capacidades humanas. Dispositivos vestíveis cada vez mais sofisticados, interfaces cérebro-computador e novas aplicações de biotecnologia apontam para um cenário em que tecnologia e biologia começam a se integrar de forma cada vez mais direta. E isso vai de roupas equipadas com tecnologia que aumentam a força durante caminhadas até calçados motorizados capazes de aumentar a distância percorrida por uma pessoa.
Trabalho ilimitado
Outro exemplo usado foi no campo da automação. A combinação entre inteligência artificial, robótica e sistemas produtivos altamente digitalizados está redefinindo a forma como empresas operam, ampliando a capacidade de produção e alterando estruturas tradicionais de trabalho e organização industrial.
Relações humanas x tecnologia
A terceira convergência apresentada por Webb coloca o fator humano no centro do debate e acende um alerta sobre como a tecnologia pode transformar as relações humanas em produtos. O ponto de atenção está na mudança de comportamento. Se antes recorríamos a amigos, familiares ou terapeutas para lidar com emoções, parte desse papel começa a migrar para sistemas digitais. Se trata do avanço de tecnologias voltadas a interações emocionais, como assistentes digitais, sistemas de conversação avançados e plataformas baseadas em inteligência artificial, que estão criando cada vez mais formas de interação entre pessoas e máquinas.
Separadamente, cada uma dessas transformações já seria relevante. Mas o impacto real aparece quando elas começam a se conectar. É nesse momento que surgem novas cadeias de valor, novos modelos de negócio e desafios estratégicos para empresas e governos.
Nesse cenário, para as organizações que buscam inovar, o principal aprendizado pode ser aprimorar a forma como se define a estratégia dentro das empresas. Durante muito tempo, ‘estratégia’ significou tentar prever qual tecnologia ou tendência iria dominar determinado mercado. A lógica da convergência sugere entender como várias mudanças estão se movendo ao mesmo tempo e onde elas começam a se encontrar.
A grande mensagem da Amy Webb é que o futuro não chega de maneira linear. Ele costuma surgir quando múltiplas mudanças se encontram. Se as convergências aceleram a transformação, elas também exigem de nós a capacidade de questionar o que já existe. Para quem trabalha com inovação, esse pode ser o principal desafio. Não basta apenas identificar o que está surgindo, mas reconhecer quando chegou a hora de “destruir” modelos para testar novos. Porque se não o fizermos, o próprio mercado fará por nós.