Conexão Austin

O futuro do storytelling não é mais barato, é personalizado

O que os dados mostram sobre o conteúdo feito sob medida com uso de IA

Erika Dorta

CEO na Workflow Arts e Diretora de Filmes com IA Responsável 16 de março de 2026 - 16h52

Quando escrevi meu primeiro texto para o Conexão Austin, ainda no Brasil, antecipei que David Rogier, fundador e CEO da MasterClass, não viria ao SXSW falar sobre IA como redutor de custo de produção. Saí da palestra dele com a certeza de que subestimei o argumento.

O “Scorsese Test”

Rogier começou onde ninguém começa: com uma confissão de gosto. Ele assiste a Love is Blind, The Pitt e ER. Shows que Martin Scorsese poderia fazer, mas nunca faria para ele, porque Scorsese não faz “conteúdo para cinco pessoas”.

Foi daí que veio a tese central da palestra: a IA não vai vencer Martin Scorsese no jogo dele. A pergunta é o que você consegue fazer que Scorsese não pode e não quer fazer. A resposta é: uma história feita sob medida para uma só pessoa assistir.

Rogier mostrou, em tempo real, um piloto de série gerado em cinco minutos que misturava os três shows favoritos dele. Era rudimentar, era tosco, era exatamente para ele e para mais ninguém na sala. Isso é o “Scorsese test”: se um grande diretor pode e vai fazer, a IA não é o caminho. O caminho da IA é o que nenhum grande diretor vai se dar ao trabalho de fazer.

O que isso tem a ver com comunicação corporativa

Quem trabalha com comunicação corporativa já sabe disso na prática, mesmo sem ter esse nome. Conteúdo corporativo sempre foi nichado por natureza: treinamentos, onboardings, comunicações internas, filmes institucionais. Não se faz para milhões, faz-se para uma empresa específica, uma cultura específica, um momento específico.

É exatamente nesse terreno que a IA com inteligência adaptativa funciona melhor.

Os dados que confirmam

A MasterClass testou três grupos aprendendo o mesmo conteúdo: o primeiro assistiu ao vídeo padrão e levou duas horas e meia, o segundo usou o ChatGPT e levou uma hora e meia, o terceiro usou uma metodologia própria com IA adaptativa e aprendeu em menos de uma hora.

Mesmo conteúdo. Forma diferente. Resultado radicalmente distinto.

Quem usa plataformas de aprendizado de idiomas já sentiu isso na pele: a sensação de que o conteúdo foi feito para o seu nível, para o seu ritmo, para os seus erros específicos muda completamente o engajamento. Na comunicação corporativa, o potencial é ainda maior, porque o conteúdo genérico tem um custo concreto e mensurável: treinamento que não é absorvido, cultura que não é internalizada, mensagem que não chega.

O que ainda está incerto

Rogier foi honesto sobre os limites. Ao testar versões personalizadas em vídeo, a MasterClass encontrou algo que ele chamou de confuso – um terço dos usuários prefere a versão com IA, um terço prefere sem, um terço é indiferente.

A conclusão que tirou é a que eu gostaria que todo produtor audiovisual brasileiro fixasse: as regras do que torna algo bom nesse novo jogo ainda estão sendo escritas. Quem acha que já sabe fazer conteúdo porque aprendeu antes da IA está começando a se enganar.

O que isso muda para quem produz

Há quinze anos trabalho com produção de filmes corporativos. Sei o quanto é difícil convencer um cliente de que o briefing genérico vai gerar um filme genérico. Rogier mostrou que essa conversa vai se tornar ainda mais urgente, porque a partir de agora o cliente tem acesso a ferramentas que produzem o genérico de graça.

O que vai custar, e muito, é o que só um olhar humano treinado consegue entregar, que é a história certa, para a pessoa certa, no momento certo, com intenção narrativa real por trás.

A IA pode personalizar a embalagem. Quem define o que vai dentro continua sendo o diretor.