Vivenciando a criatividade
A criatividade é uma manifestação viva
A quantidade de informações e encontros promovidos pelo festival é avassaladora. O SXSW pode rapidamente se transformar numa experiência infinita de FOMO. Afinal, cada escolha é também abrir mão de algo. Mas, no meio dessa avalanche de possibilidades, vale lembrar-se de aproveitar os artistas e cineastas que estão por aqui. Abaixo, algumas apresentações e experiências que me lembraram que a criatividade é algo que se vive, não apenas algo sobre o qual se fala.
Com produção da NEON e direção de Boots Riley, I Love Boosters é uma experiência explosiva no cinema. Vi a première no icônico Paramount Theatre, na Congress Ave, em Austin, uma sala que também nos lembra que o cinema pode ser um templo. No filme, Keke Palmer, Demi Moore e Lakeith Stanfield, entre outros, entregam performances surreais e divertidíssimas. É maravilhoso ver a plateia vir abaixo, gargalhando em plenos pulmões, tomada por uma excitação coletiva rara.
O novo longa de Boots é um acontecimento cultural, e torço para que arrebate públicos ao redor do mundo. Extremamente criativo e repleto de referências, que vão de The Blues Brothers a Spike Lee, de Whoopi Goldberg a Prince e Queen Latifah, passando por Um Príncipe em Nova York e Eddie Murphy, até chegar a Emir Kusturica. O diretor mistura stop motion, miniaturas, blaxploitation e sabe-se lá mais o quê numa verdadeira salada cósmica cultural que deixa o público boquiaberto.
Quatro garotas do País de Gales entregaram uma performance anárquica na British House, em Austin. Sarah Harvey (vocal principal), Meg Fretwell (guitarra e vocais de apoio), Romi Lawrence (guitarra e vocais de apoio) e Emily Smith (baixo), acompanhadas por Nick Doherty-Williams na bateria. As minas simplesmente destroem. Fazem todo mundo se mexer, surfando uma atitude que lembra The Clash e Bikini Kill. No palco, elas não aliviam. Como disse o inglês ao meu lado: “I was not expecting that!”.
Despojadas e irreverentes, exibem suas potências sem vergonha e sem pedir licença. “Tonight I just need the essentials (Vape, phone, keys, lipgloss)”. As minas são um grande f***-se e parecem estar se divertindo para um c*****o. Posam imponentes e nos lembram que as performances ao vivo ainda são pequenas janelas sagradas para a presença e a coletividade.
Tom A. Smith parece uma criança, mas exibe no palco a segurança de um veterano, ao lado do que parecem ser seus próprios amigos de escola. Me fez lembrar o título do livro de Patti Smith, Just Kids, e toda a magia de um momento como esse. Mesmo tão jovem, o cantor e compositor já foi reconhecido por Sir Elton John como uma grande promessa.
Esbarramos com Tom pelo festival. Ele disse que estava um pouco nervoso. Era sua primeira apresentação nos Estados Unidos. Aproveitei para elogiar sua atitude e comprometimento no palco. Ele respondeu: “Yeah, I feel nobody wants to be iconic anymore.”