Conexões que fazem sentido
O que o SXSW 2026 revelou não está na tecnologia, está no que fazemos com ela
Costumo dizer que o SXSW é um mês que acontece em uma semana. E, como sempre, volto para casa ainda tentando processar tudo o que vivi e ouvi, como se estivesse fazendo o download de uma experiência que não cabe em anotações, nem nos resumos do aplicativo Otter.ai. São ideias demais. Encontros demais. Provocações demais. Mas, aos poucos, tudo começa a encontrar um lugar. E, principalmente, começa a se conectar.
Foi a partir dessa sensação que o SXSW 2026 fez mais sentido para mim. Porque, no fundo, ele não foi sobre o futuro da tecnologia. Foi sobre o futuro da humanidade em um mundo já dominado por ela. Em meio a tantas discussões sobre inteligência artificial, automação e escala, o que mais me marcou não estava nas telas nem nos palcos. Estava nas entrelinhas, quase como um consenso silencioso: existe uma urgência em voltar ao essencial. Em redescobrir aquilo que, de fato, nos diferencia como humanos. E o mais interessante foi perceber como essa percepção atravessava diferentes vozes.
A escritora e estrategista americana Amy Webb trouxe uma provocação importante: o futuro já não cabe mais em previsões lineares ou relatórios estáticos. Tudo está em fluxo, em transformação contínua. Talvez, mais do que prever, o nosso papel agora seja interpretar e, principalmente, escolher com mais consciência.
Ian Beacraft, especialista em criatividade aplicada à tecnologia, ampliou essa discussão ao lembrar que enxergar a inteligência artificial apenas como ferramenta é reduzir seu verdadeiro impacto. A IA não só otimiza tarefas; ela redefine como o trabalho (e as relações dentro dele) são percebidos, estruturados e valorizados.
Já a psicoterapeuta belga Esther Perel trouxe o contraponto mais humano: em um mundo hiperconectado e, paradoxalmente, cada vez mais solitário, construir conexões reais exige presença, escuta e intenção. Nada disso é automático. Nada disso escala.
Mike Bechtel, futurista e estrategista-chefe de inovação da Deloitte, ofereceu uma lente prática para navegar esse cenário, propondo um cruzamento entre paixão, competência, propósito e dinheiro como forma de repensar carreira na era da IA.
Todos estes profissionais, referências mundiais, apresentam um ponto em comum: em um mundo onde quase tudo pode ser automatizado e escalado, o que se torna verdadeiramente raro e, portanto, valioso, são as conexões genuínas. São as pessoas que expandem nosso repertório. Que tensionam nosso pensamento. Que nos ajudam a acessar versões melhores de nós mesmos.
Porque, no fim, o futuro não será definido apenas pelo que somos capazes de construir. Mas por quem escolhemos ter ao nosso lado nessa construção. E isso, até agora, nenhuma tecnologia conseguiu substituir.