Conexão Austin

Creators são os guardiões da cultura

Durante anos, poucos grupos decidiram o que virava cultura de massa. Hoje, essa decisão nas mãos dos criadores

Ricardo Silvestre

CEO e fundador da Black Influence 16 de março de 2026 - 14h44

Os criadores de conteúdo, além de se consolidarem cada vez mais como o futuro promissor da nossa indústria, carregam consigo um papel social importante: o de guardiões da cultura. Isso porque, de forma orgânica e estratégica, eles conseguem tangibilizar e transformar em conteúdo suas vivências pessoais, culturais e regionais, mantendo viva no cotidiano essa pluralidade poderosa que existe no Brasil.

Imagine poder mostrar ao mundo o cotidiano de uma pequena cidade do interior, que poucas pessoas conhecem ou acessam, e transformar isso em um ativo valioso, fazendo com que pessoas ao redor do globo queiram conhecer aquela realidade e estar ali. Isso é ouro, e precisa ser valorizado como tal.

Todos nós temos papéis nessa construção: o criador, que dá vida a essa narrativa a partir de suas próprias vivências e de um olhar único e exclusivo; a audiência, que consome e evangeliza outras pessoas sobre aquele conteúdo; e as marcas, que podem fazer essa conversa chegar ainda mais longe, contextualizando de forma criativa seus produtos ou serviços. Ao mesmo tempo, ajudam a capitalizar e valorizar essa criatividade, permitindo que ela continue existindo e ultrapassando barreiras.

Essa discussão ficou ainda mais evidente durante o SXSW deste ano. Em diferentes painéis sobre creator economy, ficou claro que os criadores deixaram de ser apenas amplificadores de mensagens para se tornarem verdadeiros construtores de narrativa cultural. Mais do que audiência, eles carregam contexto, repertório e identidade, elementos que fazem com que determinados conteúdos se tornem culturalmente relevantes e deixem residuais únicos.

Durante décadas, esse papel esteve concentrado em poucos intermediários: emissoras de TV, grandes produtoras, veículos de mídia e gravadoras. Eram eles que decidiam quais histórias seriam contadas e quais culturas ganhariam ou não visibilidade. A internet e, principalmente, a creator economy mudaram essa lógica. Hoje, qualquer pessoa com um celular pode registrar sua realidade e transformá-la em narrativa cultural relevante.

Isso vale para o cotidiano de uma pequena cidade, para festas de bairro nas periferias das grandes capitais, para tradições familiares que passam de geração em geração ou para manifestações culturais que muitas vezes nunca chegaram às telas da televisão. Quando um criador documenta sua rotina, sua comunidade ou suas referências culturais, ele não está apenas produzindo entretenimento. Ele está criando um registro vivo da cultura contemporânea, tal qual um museu digital.

A diferença é que, ao contrário dos grandes meios tradicionais, esses criadores também controlam a distribuição dessa cultura. Um vídeo gravado em uma rua de Salvador, Recife ou Belém pode alcançar milhões de pessoas em diferentes países em poucas horas. Essa capacidade de amplificação transforma histórias locais em fenômenos globais.

Em um país tão diverso quanto o Brasil, essa dinâmica é especialmente poderosa. Criadores ajudam a construir referências culturais, reforçam identidades e ampliam repertórios. Eles mostram que não existe uma única narrativa sobre o país, mas uma multiplicidade de vozes, sotaques, ritmos e histórias.

Para as marcas, isso representa uma mudança de mentalidade. Não se trata apenas de contratar influenciadores para campanhas pontuais, mas de reconhecer os criadores como parceiros culturais. Quando uma marca apoia um criador, ela não está apenas patrocinando conteúdo. Ela está ajudando a preservar e amplificar narrativas culturais que talvez nunca chegassem aos grandes palcos.

No fim das contas, os criadores não são apenas influenciadores digitais. Eles são cronistas do nosso tempo. São eles que registram as mudanças culturais, os hábitos, as linguagens e as identidades de uma geração. E, nesse processo, acabam assumindo um papel fundamental: o de guardiões da cultura e da memória coletiva.