Entre guerras, IA e um carro sem motorista
Em um mundo sob tensão, o SXSW vira espaço para discutir tecnologia sem perder o humano
Eu estava com o site da conferência South by Southwest (SXSW) aberto no notebook.
Ao lado, outra aba: o noticiário internacional.
De um lado, eu clicava para reservar um painel sobre juventude e inteligência artificial (IA).
Do outro, manchetes falavam em guerra, escaladas militares e um episódio analisado como ataque terrorista no Texas.
Confesso: por alguns minutos, eu pensei em fechar o navegador.
Faz sentido atravessar o oceano para discutir criatividade, tecnologia e futuro enquanto o mundo parece testar seus limites todos os dias?
Talvez faça exatamente por isso.
Meu pré-SXSW começou com um upload dentro do Consulado Americano, em São Paulo, num encontro que misturava diplomacia, tecnologia e negócios. O ambiente era híbrido com a formalidade de um consulado e informalidade dos vários participantes desta edição da conferência. Inovação deixou de ser apenas vantagem competitiva. Virou instrumento geopolítico. IA, energia, infraestrutura digital, nada disso é mais só sobre mercado. É influência.
Saí de lá com uma sensação estranha: estamos discutindo tendências, mas vivendo tensões. E é nesse cenário que escolhi minhas sessões para Austin. Percebi que todas tinham algo em comum: uma tentativa quase insistente de preservar o humano.
Como apoiar jovens em um mundo saturado por IA?
Como desenhar empresas que a inteligência artificial não consiga ultrapassar?
Como recalibrar negócios para que a tecnologia não engula significado?
Também estarei na apresentação do novo Tech Trends Report de Amy Webb, que já vinha alertando sobre a convergência entre IA, sensores e biotecnologia como um ponto de não retorno para negócios e sociedade. Não é só sobre ferramentas mais rápidas. É sobre sistemas que aprendem, se adaptam e evoluem.
E isso me empolga e me inquieta ao mesmo tempo.
Minha agenda inclui ainda dois documentários que parecem espelhar essa ambivalência: um sobre a tensão entre medo e otimismo diante da IA e outro sobre os impactos da economia da atenção nas famílias. Entre eles, uma distopia brasileira dirigida pelo Fernando Meirelles (Corrida dos Bichos), imaginando um Rio de Janeiro em ruínas, onde vidas viram moeda de aposta. Às vezes, a ficção parece apenas um passo à frente do noticiário.
Em 2025, voltei do SXSW com uma sensação que me incomodou mais do que qualquer trend: FOMO estrutural. Era conteúdo demais, contexto demais, gente brilhante demais ao mesmo tempo. Eu tinha visto muito e estava com um sentimento de haver absorvido pouco. Eu precisava organizar sinais, conectar pontos, transformar excesso em clareza. Claro que daí criei o primeiro agente SXSW da história com os transcripts acumulados nos grupos de WhatsApp do evento, que me ajudaram com esse objetivo. Foi o SXSW 2025, disponível gratuitamente no chat GPT. Esse ano certamente aparecerão outros!
Ir ao SXSW deixou de ser consumo intelectual. É leitura antecipada de cenário.
Mas, honestamente, o que mais me marca lá não são os palcos.
São os corredores.
As conversas despretensiosas que viram hipóteses de negócio. Os encontros improváveis que conectam tecnologia com estratégia de verdade. O SXSW tem essa coisa invisível: ele é menos sobre slides e mais sobre fricção humana.
E há momentos quase simbólicos demais para ignorar.
Entrar em um Waymo (veículo) autônomo é uma experiência estranha. Você fecha a porta, olha para o banco do motorista e ele está vazio. Nos primeiros segundos, o silêncio parece mais alto que o trânsito. Eu me peguei segurando o celular com mais força do que o normal. O carro se move sozinho.
Enquanto parte do mundo debate segurança e conflitos, você atravessa Austin num veículo sem motorista. É difícil não sentir que estamos vivendo duas velocidades ao mesmo tempo: medo e avanço.
Austin, durante o SXSW, é isso. De manhã, discutimos IA agentiva, energia nuclear e empresas desenhadas para sobreviver à automação. À noite, estamos na South Congress ouvindo música ao vivo como se o mundo estivesse estável. Mas ele não está. E talvez o papel do SXSW nunca tenha sido prever o futuro. Talvez seja nos ajudar a manter algum nível de lucidez enquanto ele acelera.
Às vezes eu me pergunto se estamos discutindo tecnologia na mesma velocidade em que discutimos responsabilidade, e se estamos preparados emocionalmente para o que estamos construindo.
Não tenho resposta fechada.
Mas sei que ignorar essas conversas não é uma opção.
Entre guerras, algoritmos e open bars texanos, seguimos tentando responder à pergunta mais simples e mais difícil da nossa geração executiva:
Como manter o humano no centro enquanto tudo ao redor acelera?
Nós nos veremos em Austin.
Ou no futuro que, pelo visto, chega antes do embarque.