Experiências transformadoras são as novas memoráveis
Na Economia da Transformação, marcas e experiências não apenas encantam, mas guiam as pessoas a evoluir, crescer e florescer
Uma das palestras mais esperadas por mim no SXSW foi a do Joe Pine. E por um motivo muito pessoal: o trabalho dele, junto a James Gilmore, foi a base para o meu projeto de mestrado e também para a forma como eu penso e faço meu trabalho como designer de experiência. Foram eles que consolidaram a ideia da Economia da Experiência, e, agora, Joe está propondo o próximo passo dessa evolução: a Economia da Transformação.
A sessão se chamava “Welcome to the Transformation Economy” e gira em torno do novo livro dele, lançado em 2026, “The Transformation Economy: Guiding Customers to Achieve Their Aspirations”. A tese é poderosa: já não basta criar algo memorável. As pessoas querem experiências que sejam significativas, transportadoras e, principalmente, transformadoras.
E esse ponto, para mim, conversa diretamente com tudo o que eu acredito em design de experiência.
Joe basicamente diz o seguinte: a gente já saiu de uma economia baseada em commodities, depois em bens, depois em serviços, e hoje vive numa economia em que experiências viraram diferencial competitivo. Só que até as experiências se desgastam — podem, inclusive, virar commodities.
E o próximo nível de valor não é mais entreter, encantar ou gerar memória, é ajudar a pessoa a se tornar quem ela quer se tornar. Essa é a virada: não é mais só criar uma experiência boa, é criar uma jornada que ajude alguém a mudar de estado, de hábito, de identidade, de vida.
Ele trouxe uma frase-conceito que é central: transformação é ajudar alguém a ir de onde está hoje para quem quer se tornar. E isso vale para tudo: saúde, bem-estar, educação, prosperidade, carreira, propósito, sentido de vida e entre outros.
Uma das coisas mais interessantes da palestra foi quando ele explicou que, nesse novo modelo, as empresas não deveriam mais enxergar as pessoas apenas como clientes, consumidores ou usuários. Ele propõe um outro termo: aspirantes, ou seja, pessoas com aspirações. Pessoas que estão tentando chegar em algum lugar na própria vida.
E isso muda completamente a lógica do negócio, porque se eu entendo meu público só como comprador, eu penso em vender, mas, se eu entendo meu público como alguém em transformação, eu penso em guiar.
Nesse ponto entra uma diferença fundamental: na Economia da Experiência, você encena experiências. Na Economia da Transformação, você guia transformações. E isso é incrível, porque resume de forma muito clara algo que, intuitivamente, muitos de nós já sentimos no mercado: as pessoas não querem só produtos, não querem só serviços, não querem só eventos memoráveis. Elas querem sentir que aquilo gerou impacto real na vida delas.
O palestrante deu exemplos muito bons de empresas que não vendem só uma solução, mas constroem uma jornada de mudança. Empresas de saúde, coaching, educação, bem-estar, wealth management, negócios que começam a entender que o verdadeiro valor não está apenas na entrega, mas no resultado humano que aquela entrega provoca.
Outro ponto chave foi quando ele falou que toda transformação é, no fundo, uma mudança de identidade. Não é só sair de triste para feliz. Não é só perder peso. Não é só aprender uma habilidade. É passar a se perceber de outro jeito. É incorporar uma nova identidade.
Você deixa de ser alguém que “quer correr” e passa a ser alguém que “é corredor”. Deixa de ser alguém que “quer empreender” e passa a ser alguém que “se entende como empreendedor”. Deixa de ser alguém que “vai a eventos” e passa a ser alguém que “vive experiências que mudam sua visão de mundo”. E isso é muito profundo, porque mostra que o papel da experiência, quando bem desenhada, não é apenas entreter ou impressionar. É ajudar alguém a reorganizar a própria narrativa sobre si mesmo.
Outro trecho muito inteligente foi sobre a responsabilidade fiduciária da marca ou da empresa. Porque se você está mexendo com transformação, você está mexendo com a vida da pessoa, com a identidade dela, com os seus desejos, medos, hábitos e aspirações e isso não é um jogo superficial. É um território que exige intenção, ética e real compromisso com o que é melhor para o outro.
Ele também falou sobre os quatro grandes territórios onde a transformação acontece: saúde e bem-estar, riqueza e prosperidade, conhecimento e sabedoria, e propósito e significado. E no centro disso tudo está uma ideia ainda maior: human flourishing — o florescimento humano. Essa talvez tenha sido a frase mais importante da palestra: o verdadeiro papel dos negócios deveria ser fomentar o florescimento humano.
E isso é muito impactante, pois desloca completamente a ideia de que a função da empresa é só gerar lucro. Na lógica dele, lucro importa, claro. Mas lucro é consequência. A finalidade maior deveria ser ajudar pessoas a viverem melhor, crescerem, se desenvolverem e florescerem como seres humanos.
E aqui entra uma parte que, para mim, conversa demais com meu trabalho: ele mostrou que experiências transformadoras não acontecem por acaso, elas precisam de estrutura. Para isso, existem três momentos fundamentais: preparação, reflexão e integração. Em outras palavras, antes da experiência, você prepara. Depois da experiência, você ajuda a refletir. E depois disso tudo, você apoia a integração daquela mudança na vida real. Isso é brilhante.
Porque mostra que a transformação não está só no momento do impacto. Ela depende do antes, do durante e principalmente do depois.
Quantas vezes a gente vive algo intenso, emocionante, memorável, mas depois volta para a rotina e aquilo se dissolve? Então o grande desafio não é só criar o auge, é fazer com que aquele auge reverbere na vida.
Para mim, esse foi um dos pontos mais bonitos da palestra: a ideia de que uma experiência só se torna realmente transformadora quando ela continua agindo dentro da pessoa depois que acaba.
E talvez por isso essa sessão tenha mexido tanto comigo, porque eu não estava só ouvindo uma teoria de negócios. Eu estava vendo, ao vivo, um autor que ajudou a moldar a base do meu pensamento profissional agora empurrando essa conversa para um nível ainda mais profundo.
Se antes a Economia da Experiência nos ensinou a criar momentos memoráveis, a Economia da Transformação nos desafia a criar jornadas com sentido. E, sinceramente, eu acho que esse é um caminho muito poderoso para marcas, eventos, educação, hospitalidade, entretenimento e qualquer área que lide com pessoas.
Porque no fim das contas, talvez a pergunta mais importante não seja: “que experiência eu estou entregando?” Talvez a pergunta mais importante seja: “quem meu público pode se tornar depois de viver isso?”