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Os futuros da aprendizagem após

IAGen domina, mas o futuro exige foco em habilidades humanas e na mediação docente aumentada

George Ricardo Stein

Professor na PUC-SP e diretor fundador da Pedagog.IA 18 de março de 2026 - 16h13

Se você está esperando uma resposta pronta, não continue lendo. Já no meu texto anterior publicado aqui, nesta seção, elenquei algumas questões essenciais e me comprometi, não com respostas, mas com reflexões, caminhos e questionamentos que surgiram após minha participação no SXSWEDU 2026. Escrevo, portanto, não só para ajudar com parte da resposta, mas principalmente para instigar o seu protagonismo em construir um futuro que faça sentido na sua realidade.

Se você está de acordo com isso, vamos em frente!

Ao escrever sobre “futuros da aprendizagem”, considerei as três primeiras questões que propus. A primeira mostrando como a revolução da Inteligência Artificial Generativa (IAGen) impacta os modelos, os processos e a inovação em instituições de ensino (na Educação Básica, no Ensino Superior e nas iniciativas de Educação Corporativa e Lifelong Learning); a segunda, quais são as oportunidades de transformar as instituições de ensino de maneira responsável e eficiente; e a terceira, quais seriam modelos coerentes para um empreendedor começar agora uma instituição de ensino?

Como era de esperar, o advento da IAGen na Educação, assim como em outros segmentos , apareceu com destaque. Dos 559 eventos de programação (incluindo as mentorias), 17% estavam associados à IAGen. Esses números são oficiais. Cada evento é classificado com palavras-chave e em 94 delas aparecia IAGen. Para comparação, outros termos relevantes tiveram as seguintes frequências: professores (6%), ciências da aprendizagem (3%) e criatividade (7%).

Vale notar que uma mesma sessão pode ter múltiplas palavras-chaves e muitas vezes a “Inteligência Artificial” aparecia de forma secundária, mas aparecia.

Logo de cara, a primeira conclusão é que a IAGen domina os temas em um festival de inovação educacional, mas a proposta aqui é ir além dos títulos: vamos aos conteúdos.

O uso da IAGen aparece em destaque para elaborar planos de aula de acordo com o conteúdo, os objetivos de aprendizagem e o contexto identificado pelos professores. O benefício de reduzir o tempo de preparação, gerando materiais e atividades adequados à realidade dos alunos é evidente quando se cria uma camada de “inteligência pedagógica algoritmizada” em plataformas de conteúdo educacional.

Alguns exemplos emblemáticos são:

  • Keeping Teachers at the Center of AI in Schools, com Adeel Khan, CEO que apresentou a Magic School (plataforma presente em 170 países, com mais de 7 milhões de docentes). Para minhas expectativas, a fala foi excessivamente comercial, mas é um ótimo exemplo de destaque, principalmente nos Estados Unidos.
  • Teaching on the Frontier: Skills for the AI Era, com Rachel Wortman Morris, Diretora do NextGen Learning Lab da Microsoft. Já fui esperando uma abordagem comercial, mas quis ver como a Microsoft estava divulgando. Sem grandes surpresas, mas com um pouco de ansiedade (de minha parte). Rachel apresentou, entre outras coisas, o AI Skills Navigator, uma plataforma que, conforme suas necessidades de aprendizagem, monta uma “playlist” de recursos, como um curso personalizado.

Depois desses exemplos, vale parar, respirar e pensar melhor. Será que estamos de fato mudando o modelo de educação? Ou estamos só gerando conteúdo mais rápido e direcionado à realidade dos estudantes, parametrizada pela percepção do professor ou pelos dados de interações?

Aqui vale lembrar Heather Henderson, em Reclaim Focus: How Students Can Thrive in Attention Economy. Parece que estamos, coletivamente e pouco conscientemente, confundindo consumo de conteúdo digital com aprendizagem.

Vamos a um choque de realidade! As mudanças necessárias em instituições de ensino são muito mais profundas e conectadas a habilidades humanas. Nem é preciso ir ao SXSWEDU para perceber que uma faculdade que forma profissionais em quatro anos, sem processos internos flexíveis de aprendizagem e transformação curricular, corre o risco de entregar diplomas defasados. A boa notícia? Já vi exemplos que caminham nessa direção.

No Ensino Superior, o Institute for the Future ofereceu um workshop de simulação e reflexão sobre cenários de universidades em 2036 — What If? A Social Simulation—AI & the Next Era of Learning. A mesma Lyn Jeffery (Distinguished Fellow & Director, IFTF Foresight Essentials, Institute for the Future) foi featured speaker no SXSW em Strategy in the Times of Chaos: Imagining Futures of Education. Na prática, os cenários se diferenciam principalmente pela atitude e prática universitária frente à IAGen, convidando-nos a repensar nossas ações.

Na Educação Básica, uma sessão que direcionou caminhos (pensando nas minhas questões 2 e 3) foi o workshop Designing Future-Ready Public Microschools. Apesar do foco na esfera pública, a ideia de microescolas, isoladas ou integradas a uma escola existente, como contra-turno ou na proposta curricular oficial traz possibilidades de flexibilizar, customizar e transformar modelos “engessados”. A grande diferença, além do tamanho, é que o planejamento parte das necessidades da comunidade e prevê financiamento e currículo mais flexíveis. Mesmo para escolas atreladas a currículos nacionais ou estaduais, explora-se desde o início as flexibilidades legais.

Por fim, talvez as duas peças mais essenciais de qualquer modelo futuro de Educação ainda são as avaliações e os professores. Recomendo sempre esta frase em mente: “Diga-me como avalias e lhe direi quem és!”

A avaliação deve integrar o processo de aprendizagem e o planejamento docente. Na sessão “Uncheatable: Authentic Assessment in the Age of AI”, a mensagem foi clara: se você, professor, oferece uma avaliação que a IAGen pode resolver, ela não está adequada.

E, mais importante, os professores. Confesso uma pequena frustração em ver só 6% das sessões categorizadas com “teachers” (conforme os primeiros parágrafos). Creio que não houve palestra sobre IAGen sem mencionar a importância dos professores. Mas, na prática, é mais fácil “digitalizar, algoritmizar e disponibilizar” conteúdo em plataformas do que desenvolver competências humanas insubstituíveis na aprendizagem.

Nas minhas pesquisas e trabalhos, desenvolvi o conceito de Mediação Docente Aumentada, que traz competências essenciais para professores decidirem se, como e quando usarão a IAGen.

Conhecer o contexto de aprendizagem, perceber a realidade dos alunos, identificar a adequação dos objetivos — são habilidades que a IAGen não substitui e que devem vir antes de qualquer uso.

O fato é que as aprendizagens, insights e potencialidades do SXSWEDU superaram minhas expectativas. Além de voltar com ideias, conexões e projetos que não teria se não tivesse ido, tive o privilégio de compartilhar momentos durante e após o SXSWEDU com mais de vinte lideranças educacionais que tem opinião semelhante. É muita coisa para escrever por aqui, mas vamos nos atualizando!

Ah…e a pequena frustração com o evento foi compensada pelo orgulho do caminho da IAGen na educação brasileira. No início de março, o Ministério da Educação lançou oficialmente o Referencial para o Uso e Desenvolvimento Responsáveis de Inteligência Artificial na Educação em que a Mediação Docente Aumentada é explicitamente citada no capítulo sobre a centralidade do professor no desenvolvimento e uso da IA nos ambientes educacionais.