Os sistemas vão mudar. E as pessoas, como ficam?
Vamos arquitetar sistemas humanos ou apenas reagir à IA? A arte pode ser nossa salvação
O SXSW poderia ter sido, mais uma vez, uma celebração acrítica da inteligência artificial. Haviam motivos de sobra e o hype estava lá, presente e barulhento. Mas o que me surpreendeu, depois de vários dias de sessões, workshops, keynotes e conversas de corredor, foi outra coisa. Debaixo de toda a efervescência tecnológica, essa pergunta antiga e difícil aparecia repetidamente, em formatos e vozes diferentes: o que acontece com as pessoas enquanto os sistemas ao redor delas mudam de forma irreversível?
A destruição criativa tem um custo humano
Amy Webb, fundadora do Future Today Strategy Group e uma das vozes mais precisas em análise de tendências tecnológicas (ou convergências tecnológicas, porque agora ela enterrou o Trends Report), trouxe uma distinção que vale guardar: inovação disruptiva, como a que destruiu a Kodak, é diferente de destruição criativa. A destruição criativa, no sentido Schumpeteriano que ela resgata, não é um evento, mas sim uma tempestade perpétua. Novas ondas tecnológicas criam novos produtos e modelos de negócio, redistribuem poder e valor, produzindo realidades que são muito difíceis de reverter.
A frase que ficou comigo por dias depois foi direta: “A nova internet não está sendo feita para você. Está sendo refeita para os agentes”. O próximo ciclo digital não está sendo desenhado para humanos continuarem navegando por interfaces, mas sim, sendo arquitetado para agentes autônomos operarem em nome de humanos, com ou sem a supervisão deles.
Como vamos participar dessa revolução? Acho que a resposta está longe de ser óbvia. O trabalho será ilimitado. Fábricas serão automatizadas, sistemas agênticos conversarão entre si. Teremos escala sem pessoas, resultados sem salários, produção sem trabalhadores. E a pergunta que não quer calar: para onde vai a classe trabalhadora? Teremos acesso à tecnologias e acessórios robóticos para acoplar no corpo, aumentando nossa performance humana. Como qualquer tecnologia nova, isso provavelmente não será acessível para qualquer um, criando novas hierarquias sociais. Um Darwinismo 3.0, por assim dizer, em que o ser mais adaptado não tem só vantagens físicas ou de nascimento, mas vantagens de acesso a capital e a novas ferramentas.
Pertencimento emocional na era tecnológica
Um outro aspecto mais estrutural e sistêmico dessa transformação, traz consequências mais íntimas: a terceirização emocional para máquinas.
A Social Penetration Theory, apresentada em um dos painéis, explica que relacionamentos se aprofundam por meio do compartilhamento. Isto é, quanto mais coisas são compartilhadas, mais íntimo o vínculo se torna. Já vemos esse mecanismo psicológico sendo arquitetado por plataformas como as de AI companionship. Pessoas estão usando
assistentes de IA para fazer terapia, combater a solidão, buscar validação e companheirismo. O que antes era fenômeno de nicho está se tornando mercado. Na nova revolução social, a solidão humana tende a virar produto.
Isso ressoa diretamente com o que Jennifer Wallace apresentou em seu keynote sobre Mattering. O conceito central do livro dela é simples e parece até meio óbvio: as pessoas precisam sentir que têm valor e que adicionam valor. Quando esse sentimento está presente, elas se engajam e prosperam. Quando está ausente, elas ficam solitárias e depressivas. O desafio que ela colocou para a plateia, com dados de pesquisa global, é que a trajetória tecnológica atual aponta exatamente para o aumento do isolamento e da sensação de irrelevância. Trocamos conexão por conveniência e ficamos menos tolerantes com a fricção dos relacionamentos reais.
Os efeitos sociais desse isolamento já podem ser vistos por aí: não sei se vocês repararam, mas há uma certa nostalgia no ar. Recentemente, artefatos analógicos voltaram com tudo, discos de vinil, câmeras fotográficas com filme, hobbies manuais para afastar as pessoas das telas. O que isso diz sobre nós? Estamos provavelmente buscando voltar a um sentimento de pertencimento que existia antes da internet, antes dos algoritmos, antes da abundância de conteúdo que produz sobrecarga cognitiva e emocional. Quando recebemos estímulos demais ao mesmo tempo, processamos emoções demais ao mesmo tempo também e isto esgota qualquer um.
Dados serão o diferencial, mas não do jeito que você pensa
Um tema recorrente em várias das palestras que eu assisti sobre as transformações que vamos viver, em qualquer futuro que se realize, é que não há como chegar lá sem trabalhar com os dados. A forma como serão organizados e sistematizados determinará um capital proprietário para vantagem competitiva. Não será suficiente só ter acesso e construir ferramentas de IA, pois elas vão se tornar cada vez mais um commodity acessível a todos. O diferencial estará em ter e estruturar dados que concorrentes não conseguem replicar, construindo feedback loops únicos ao longo do tempo para usar a informação como vantagem composta.
Isso vai transformar o mercado de trabalho, mas é preciso ter cautela, porque não se pode separar o que o trabalho precisa do que os trabalhadores precisam. O papel humano se concentra em julgamento, relações, exceções e autoridade moral e a cultura das empresas é um caldeirão disso tudo. Automatizaremos tarefas, mas os humanos continuarão no loop. Como desenhar novos formatos de trabalho que também contemplam a cultura e o comportamento humano dentro das empresas? A nova hierarquia de trabalho que emerge, então, não será sobre quem executa mais rápido, mas sobre quem será capaz de arquitetar novos sistemas e codificar julgamento humano e alma institucional em infraestrutura. O valor migra de volume de entregas para qualidade de decisão. E é preciso trabalhar os dados para fazer isso.
A arte como último bastião do pensamento crítico
Em meio a todo esse redesenho sistêmico, uma ideia apareceu com insistência nas minhas anotações, vinda de sessões diferentes e pessoas diferentes: a IA não consegue criar
pensamento crítico moral e social genuíno, porque foi treinada com os dados do passado e não tem a capacidade de questionar os valores atuais da sociedade para provocar mudança.
A arte é como você dá sentido ao mundo e o SXSW lembra disso o tempo todo, não só dentro dos auditórios. Toda noite Austin vira outro lugar. A cidade respira arte e cultura de formas que não cabem em nenhuma sessão. Seja frequentando as casas de cada país (a música na UK Embassy estava incrível!) ou pulando de bar em bar para assistir shows e artistas que você provavelmente nunca assistiria na sua cidade, há toda uma vibe e energia coletiva impossível de conter.
Eu mesma vi coisas muito lindas e loucas: Gogol Bordello, uma banda cigana de punk rock que transforma pertencimento e diáspora em uma incrível performance teatral. Vi o Buckets, um grupo de adolescentes fazendo um rock extraordinariamente maduro. Ouvi a dupla cubana Okan apresentando música africana com uma profundidade e beleza que pararam o tempo por alguns minutos.
Nada disso é entretenimento periférico e esse é exatamente o ponto do SXSW. A arte, sempre foi a forma como os humanos exercem o pensamento crítico e as máquinas, por enquanto, não conseguem replicar isso. É onde a moral e o social são questionados, onde o futuro é imaginado de formas que transgridem o que já existe.
Sandra Peter e Kai Riemer, na sessão sobre habilidades humanas na era pós-IA, colocaram isso como uma das habilidades centrais que precisam ser cultivadas. A criatividade humana como forma de mover e provocar. Isso permanece irredutível nessa nova revolução tecnológica que estamos vivendo, justamente porque nasce de experiências vividas, de contextos culturais específicos, de fricção real com o mundo. Nenhuma IA te entrega isso.
O que Austin está dizendo, nas entrelinhas
Há algo significativo no fato de que o maior festival de inovação e tecnologia do mundo está, em 2026, obcecado com uma pergunta fundamentalmente humana. Não vi, em nenhuma das sessões que acompanhei, alguém defendendo seriamente que os humanos serão substituídos. O que vi foram pessoas, muitas delas construindo hoje as ferramentas que estão mudando o mundo, preocupadas com o que acontece quando os sistemas mudam mais rápido do que a capacidade das pessoas de se adaptar, de encontrar significado, de sentir que importam, de pertencer.
Cheguei aqui dizendo que queria voltar com mais perguntas do que respostas e pois bem, cá estou eu com algumas perguntas que vão ficar ressoando dentro de mim por um bom tempo: se os sistemas são construídos por pessoas e para pessoas, por que estamos desenhando um futuro onde as pessoas precisam se adaptar aos sistemas e não o contrário? Quando a terapia emocional vira mercado e a solidão vira produto, o que isso diz sobre o que deixamos de construir nos relacionamentos reais? Se dados do passado alimentam a IA e a arte é o único lugar onde o futuro pode ser imaginado de formas genuinamente novas, qual é a responsabilidade de quem cria cultura nesse momento? E, talvez a mais incômoda de todas: estamos preparados para arquitetar sistemas que
preservam o que é humano, ou estamos apenas reagindo ao que já está sendo construído sem nós?