Para além das filas e curadorias
O SXSW real está no que não é óbvio: da biologia marinha ao risco autocrático, o valor foge do hype e do slop
Ao começar este texto, fiquei me perguntando quem iria ler. Ou melhor, se iriam ler.
Depois, pesquisei e dei-me conta de que todo mundo está escrevendo sobre a mesma coisa e de que a maioria dos textos parece ter sido escrita pela mesma pessoa — ou, melhor dizendo, por pessoa nenhuma (se é que me entendem). Finalmente, tive que reconhecer que ninguém lê coisa alguma, que muito pouca gente presta atenção às palestras e que, por isso mesmo, é melhor pedir para alguma inteligência artificial fazer resumos — ou resumos dos resumos.
Então, pensei se valeria a pena escrever alguma coisa. Porque, se ninguém lê o que as pessoas fingem que escrevem sobre palestras que mal veem, então por que eu escreveria?
Quase não escrevi, mas me pareceu que fazer tanto slalom entre hotéis, salões e ballrooms seria injusto com o que me sobra de inteligência natural.
Pois vou destacar só o que não foi abundantemente comentado, ad nauseam.
Descobri, por exemplo, em uma palestra comandada por Philippe Cousteau (o neto do seu maravilhoso avô), que existe uma região do oceano chamada zona crepuscular (ou mesopelágica), fascinante, habitada por seres extraordinários, coloridos e graciosos. Essa região é vital porque esses seres consomem o fitoplâncton que captura o CO₂ da atmosfera. E o santo cocô desses incontáveis animais maravilhosos constitui uma bomba biológica de carbono. O mesmo acontece com os peixes que, à noite, migram para a superfície para se alimentar e, de dia, descem para essa região, onde também fazem um cocô capturador de carbono. É a maior migração animal do planeta. Pois eu não sabia disso e também não sabia que o transporte alucinado das bugigangas que compramos da China está, literal e metaforicamente, espalhando merda — e, portanto, desregulando o clima.
Em outro encontro, três empreendedores, após alguns anos em empresas “normais”, resolveram fazer o que sempre lhes disseram para não fazer. Um deles era o criativo de uma agência. Como as
suas melhores campanhas eram reprovadas por medinhos e pré-testes, ele montou sua empresa de bebida, a Liquid Death. Está bombando e ele mesmo aprova o que vai para o ar. Um outro queria fazer o iogurte que o avô dele fazia: “Ah, os americanos não consomem mais esses iogurtes porque engordam, são caros, é isso e é aquilo”, disseram-lhe. Ele fez, e a Siggi’s é uma delícia. Uma outra amava a meleca deliciosa que é esse macarrão extra mole misturado com muito queijo megaengordativo. E por que não criar uma empresa de mac & cheese? Disseram-lhe que estava louca, que a tendência era isso e aquilo, que a Gen Z era isso e aquilo, e toda a ladainha clássica. Está ficando milionária com a Goodles (até o nome é nojento), e a propaganda dela é um monte de Gen Z jogando macarrão um na cara do outro. “Ah, vai ter chuva de posts críticos? Que bom, vai vender mais.”
E, para não me alongar demais — depois volto com mais —, fui ver a maravilhosa Stacey Abrams, que salvou o estado da Georgia de uma vergonhosa roubalheira de votos nas eleições americanas, e Skye Perryman, CEO do movimento Democracy Forward. Elas falaram, claro, de democracia e de como o tempo do diagnóstico já foi, já passou, já era. Todo mundo (a mídia, as redes, nossos feeds) já sabe que os Estados Unidos e o mundo estão à beira de tombar em regimes autocráticos (quando já não estão). A hora é de lutar “com suas próprias armas e não com as dos feitores”. A plataforma 10 Steps é a iniciativa que vieram divulgar no SXSW 2026. Mas, para além do que foi dito e debatido na palestra — e que talvez interesse mais a quem acompanha de mais perto a política americana —, o que foi epifânico para mim foi beber da inteligência dessas pessoas excepcionais. Ouvir pessoas que fazem coisas muito importantes, muito mais importantes do que os blablablás fabricados das futuristas e outras Amy Webbs.
Porque, na boa, vir ao SXSW para ver o que vai poluir o feed de todo mundo que você segue é perda de tempo.
O weird de verdade se esconde onde não há fila nem curadoria.